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Direcção Escolar Católica debate possível eliminação do programa de ensino de línguas internacionais

Por Jonathan Costa
Sol Português

A Direcção Escolar Católica de Toronto (TCDSB) voltou a debater a possível eliminação do programa de ensino de línguas internacionais numa reunião pública realizada na passada quinta-feira (24) no Centro Católico e durante a qual foram revelados os resultados das sondagens feitas aos pais dos alunos.

Foi, no fundo, o retomar do debate em torno do custo de manter o Programa de Línguas Internacionais – que inclui o ensino do português, entre vários outros idiomas – em 44 escolas primárias católicas espalhadas por toda a cidade, à luz da realidade financeira e de cortes orçamentais.

Esta iniciativa, que já faz parte do currículo do ensino escolar católico de Toronto há mais de 40 anos, oferece a milhares de alunos a oportunidade de estudarem a língua e a cultura dos pais, avós e familiares, ao mesmo tempo que promove o respeito pela diversidade de culturas que simbolizam e representam a sociedade canadiana.

A sessão foi dirigida pela presidente-executiva do TCDSB, Maria Rizzo, e pelo vice-presidente, Mike Del Grande, e contou com a participação de mais de duas dezenas de administradores e outros funcionários técnicos que debateram entre si aspectos financeiros, sociais e pedagógicos, demonstrando opiniões divididas sobre a continuação do programa ou a sua possível extinção num futuro próximo.

Peremptória na sua posição foi Maria Rizzo que dirigindo-se ao público composto por dezenas de pais, professores e entidades ligadas ao ensino afirmou ser "ridículo sequer considerarmos" a eliminação do programa.

"Este programa tornou-se parte da nossa identidade, dos nossos valores e morais que diariamente incutimos nestas crianças; peço a todos que considerem os danos que esta decisão pode causar às futuras gerações", declarou a presidente da TCDSB sob os fervorosos aplausos do público, ao mesmo tempo que incitava: "temos que nos unir, vamos à luta, nem que seja necessário protestarmos nas ruas".

Pragmático, Rory McGuckin, director da TCDSB, defendeu a exclusão do Programa de Línguas Internacionais aludindo aos elevados custos necessários para a sua continuação e ao que isso poderá acarretar para as Escolas Católicas.

"O governo provincial irá conceder anualmente 3,6 milhões de dólares, deixando-nos encarregados de sustentarmos todos os custos derivados aos técnicos, autocarros e livros, entre outros materiais. Se continuarmos este programa, as despesas totais rondam os 5,8 milhões de dólares anuais. Será que não corremos o risco de ficarmos seriamente limitados num futuro próximo?", interrogou.

A resposta de Mike Del Grande foi categórica: "O nosso multiculturalismo faz parte do nosso ADN como canadianos. Ao longo da minha carreira nunca pensei ter que ponderar eliminar este programa que aproxima os nossos jovens das suas raízes, do seu passado e da sua cultura. Parte-me o coração só de pensar nessa possibilidade", afirmou.

No decorrer da sessão foram revelados os resultados de uma extensa sondagem realizada ao longo de 2018 e na qual milhares de famílias com alunos inscritos em escolas da TCDSB foram questionadas sobre o Programa de Línguas Internacionais.

Os resultados foram expressivos, com mais de 70 por cento a favor da continuidade do programa.

Segundo Maria Rizzo, "esta foi a maior sondagem académica na história de qualquer Direcção escolar no Canadá" indicando que "os resultados falam por si" e "quase todos concordam que as futuras gerações devem continuar a aprender a língua e a cultura dos seus familiares".

No decorrer da sessão escutaram-se também os depoimentos de professores e alunos de diversas escolas da TCDSB, que defenderam a continuação da iniciativa e o impacto que esta tem no seu percurso académico.

Entre os que se manifestaram encontravam-se as professoras Anabela Rato, presidente da Associação Canadiana de Professores de Português, e Maria José Chaves, executiva do Sindicato de Línguas Internacionais, que subiram ao pódio para, conjuntamente, defenderem a importância da aprendizagem de outras línguas no desenvolvimento académico e pessoal das crianças.

Como afirmaram, o ensino de outros idiomas "permite-lhes ganharem novas capacidades sociais e de comunicação, desenvolvendo as suas funções cognitivas e psicológicas. Para além disso, desenvolvem também melhores métodos de comunicação com familiares e amigos, aproximando-os ainda mais de quem possam encontrar com um conhecimento limitado da língua inglesa, fortalecendo estas relações".

Para as docentes, "os resultados das sondagens falam por si: todos queremos que este programa continue e pedimos à Direcção Escolar Católica que lute pela sua sobrevivência", afirmaram.

Em declarações ao jornal Sol Português, Maria José Chaves considerou fundamental a participação de todos nestas reuniões públicas.

"Temos que nos opor a este argumento da necessidade de limitações financeiras e provarmos o valor da inclusão de línguas internacionais no desenvolvimento das nossas crianças, dos nossos jovens", afirmou a professora, que considerou um dos objectivos "chamar a atenção do Ministério da Educação, pois", reconheceu, "sem o seu apoio será impossível continuarmos esta iniciativa".

Para Anabela Rato, a extinção do programa de línguas seria um "retrocesso" para o sistema escolar.

"Terminar com este programa, que tem 40 anos de sucesso e um enorme impacto em todas estas crianças e os seus pais, seria um erro crasso", afirmou a docente que agradeceu a participação de todos quantos compareceram nesta reunião.

"Hoje demonstraram um enorme apoio à nossa causa e à nossa luta", mas é necessário continuar vigilante prometendo por isso que não irão baixar os braços "até vermos a possibilidade de exclusão [do programa] eliminada".

Os debates irão continuar ao longo das próximas semanas, com uma nova reunião prevista para Fevereiro, em data a anunciar.

Para já, a TCDSB irá utilizar os dados resultantes destas sondagens, assim como os argumentos apresentados nesta reunião pública, para contestar o valor das verbas provenientes do governo provincial, bem como a opinião de elementos do Executivo que defendem a eliminação do Programa de Línguas Internacionais face às dificuldades financeiras.


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