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Covid-19: Canadá prepara-se para longa fase de recuperação

Julie Dzerowicz afirma que há boas perspectivas, mas tudo depende do sucesso em travar a pandemia

Por João Vicente

Sol Português

"As medidas têm funcionado, mas temos de começar a pensar como é que vamos reiniciar a economia", diz a deputada federal Julie Dzerowicz a propósito do que parecem ser sinais de que o Canadá poderá ter ultrapassado o auge do contágio da Covid-19.

Nas suas mais recentes declarações ao jornal Sol Português, a política que representa o distrito torontino de Davenport, onde reside o maior número de eleitores de ascendência portuguesa em todo o país, pronunciava-se sobre os indicadores que apontam para um abrandamento no número de novos casos.

"Vendo as notícias, parece que ultrapassámos o auge da pandemia e o director de saúde da província do Ontário diz que houve uma diminuição no número de casos, mas ainda não superámos a crise", esclarece.

Segundo indica, a grande questão que se coloca é: "como fazê-lo sem pôr em risco os sacrifícios que fizemos até aqui, ao mesmo tempo que seguimos as directivas" emitidas pelos serviços de saúde pública.

Questionada sobre se o futuro próximo no Canadá poderá assemelhar-se a um vídeo que circula nas redes sociais e no qual os clientes que visitam um supermercado são recebidos por um empregado que lhes entrega máscaras com uma pinça e gel para desinfectarem as mãos enquanto os carrinhos das compras são igualmente desinfectados, a deputada refere que é ainda cedo para saber exactamente como se irá proceder.

Contudo, e embora indique ainda não ter uma noção de qual virá a ser a posição oficial do governo, a título pessoal pensa que será "exactamente" dessa forma que se vai iniciar a reabertura da economia.

"Acho que quando entrarmos em qualquer estabelecimento vamos ter de lavar as mãos e usar máscaras, e quando formos a um restaurante vamos ter de nos sentar a dois metros de distância [uns dos outros], em mesas que são desinfectadas depois do cliente anterior se levantar", opina Julie Dzerowicz, considerando que "essa vai ser a nova `normalidade' até que haja uma vacina".

A se ver, a forma como se fazem transacções comerciais vai ter de ser diferente e aponta para a província da Colúmbia Britânica que está um pouco mais adiantada neste processo e onde o director de saúde estipulou novas regras e pediu à indústria da restauração para apresentar propostas sobre a forma como poderá voltar à actividade no cenário actual.

"É isso que devemos fazer", afirma a política que considera importante "ouvir os trabalhadores e os donos de restaurantes e bares, e ver como é que se podem preparar para terem um pouco de lucro, ou pelo menos cobrir as suas despesas, enquanto esperamos por uma vacina".

Para já, porém, o governo federal está sobretudo concentrado na "saúde e na segurança" da população porque, como refere, "se não continuarmos a reduzir o número de infectados, de pessoas nos cuidados intensivos e de mortes, não podemos sequer começar a falar na economia".

Enquanto isso, garante que Otava está a trabalhar no sentido de continuar a prestar o que considera "uma quantidade extraordinária de apoios para ajudar as pessoas", destacando entre outras medidas o reforço do salário dos trabalhadores designados pelas províncias como "essenciais" – o que no Ontário se traduz em mais quatro dólares à hora.

Outra medida é o subsídio CERB (2.000 dólares mensais), entretanto reforçado por forma a permitir a quem dele aufere continuar a receber até 1.000 dólares de salário por mês e que, segundo indicou, fez com que de um dia para o outro o número de chamadas e de e-mails que recebia no seu escritório de pessoas preocupadas com a sua sobrevivência caísse para metade.

A deputada referiu ainda as ajudas prometidas às empresas e que foram finalmente implementas nos últimos dias, dando como exemplo os 40.000 dólares do empréstimo CEBA, sem juros e com 25% a fundo perdido caso 75% seja pago até final de 2022, assim como o apoio às rendas comerciais, CECRA, anunciado na semana anterior e entretanto acordado com os governos provinciais.

Os apoios, porém, abrangem muito mais do que aqueles que perderam os seus empregos ou viram os horários de trabalho e, consequentemente, os seus salários reduzidos, e Julie Dzerowicz fez questão de referir os 9.000 milhões de dólares que se destinam a ajudar também os estudantes que não consigam encontrar trabalho e que vão passar a receber um subsídio de 1250 dólares mensais de Maio a Agosto – 1750 dólares caso estejam a cuidar de alguém que deles esteja dependente ou se forem portadores de deficiências cognitivas ou motoras.

A deputada pronunciou-se ainda em relação à ajuda que está actualmente a ser prestada pelas forças armadas nas instituições de idosos e ao equipamento de protecção, que garante haver em quantidade suficiente

"É uma prioridade garantir que as nossas instituições de cuidados prolongados e muitas das organizações que lidam localmente com os sem-abrigo têm [o equipamento de protecção] de que precisam", afirma a deputada, realçando que o material que é encomendado pelo governo federal é entregue às províncias que se encarregam da sua distribuição.

Considera, porém, que "as forças armadas não deviam de ter de estar a cuidar dos idosos", e destaca a observação do Primeiro-ministro Justin Trudeau ao afirmar que "uma das coisas que despertou com tudo isto foi a necessidade de reexaminarmos a forma como cuidamos da terceira-idade", incluindo "quanto é que pagamos às pessoas que tomam conta de quem mais amamos".

Segundo Julie Dzerowicz, daqui poderá resultar uma avaliação do modelo de prestação de assistência e cuidados aos idosos, incluindo se este deve ser de cariz lucrativo ou não-lucrativo, ou até se deve permanecer da responsabilidade exclusiva das províncias ou vir a ser repartido com o governo federal.

Dizendo-se chocada com a situação que a pandemia revelou existir em grande número de instituições de cuidados prolongados, Julie Dzerowicz elogiou as residências para a terceira idade em Davenport onde, como contrastou, as pessoas "são muito bem tratadas"

Questionada entretanto se acha que a sociedade canadiana vai passar de uma economia de abundância para uma de escassez, a deputada considera que não, mas opina que "numa fase intermédia (...) é possível que não se encontrem certas coisas nas lojas durante um período de ajustamento da economia".

Como explica: "estamos todos a tentar imaginar como é que passamos a uma `nova normalidade' que se pareça com a que tínhamos antes, mas entretanto não podemos ir à loja e pensar `meu Deus, será que vai ser sempre assim – não consigo encontrar brócolos e não têm os ovos nem o cereal de que gosto'", pois, como destaca, "ainda estamos a meio da pandemia".

De igual modo, considera que "também vamos passar por algumas `dores de crescimento' na fase de recuperação mas depois, quando tivermos uma vacina, vamos voltar" à normalidade e esta será até "uma oportunidade para fazermos as coisas melhor e de maneira diferente".

Com "perto de nove milhões de canadianos" a candidatarem-se aos subsídios de emergência do governo, "um terço da nossa força laboral", considera que será importante avaliar se será necessário "reestruturar o sistema de previdência social para melhor apoiar" os que necessitam, já que "muitos trabalhadores estão em regime de contrato ou tempo-parcial" e é preciso ver se os programas actuais servem adequadamente a realidade do "mundo laboral do século XXI".

A par disso, considera que poderá abordar-se então a questão do que será necessário "para transitar o Canadá para uma economia assente em baixas emissões de carbono", e "mais sustentável", assim como a possibilidade de se vir a estudar a introdução de um Salário Básico Universal (UBS, na sigla em inglês), embora indique ser necessário ainda colher mais dados.

Quanto ao facto do Canadá – tal como outros países – ter sido apanhado desprevenido no que diz respeito à quantidade e ao equipamento de protecção e tratamento de doenças infecciosas, apesar de ter enfrentado uma situação semelhante com a pandemia de SARS há quase duas décadas, a deputada é peremptória.

"Se vamos reconsiderar as cadeias de abastecimento? Com certeza; se acho que vamos reconsiderar o comércio internacional? Com certeza", no entanto lembra que "o Canadá sempre foi uma nação de comércio e não conseguimos sobreviver a não ser que haja comércio com outros países".

Apesar disso, aponta para um investimento de 1.000 milhões de dólares do governo federal na designada Estratégia Nacional de Pesquisa Médica, da qual poderá resultar uma vacina produzida a nível nacional, o que permitiria contornar os problemas de produção, aquisição e distribuição que têm marcado o fornecimento de testes e equipamento de protecção.

Neste aspecto, afirma mesmo que em comparação com outros países o Canadá está a dar-se "excepcionalmente bem".

Entretanto e a propósito do escândalo em torno da Organização Mundial de Saúde (OMS) e da forma como este organismo internacional se comportou em relação à pandemia da Covid-19, a deputada está convicta de que se irá proceder a um inquérito para determinar qual o papel que a organização desempenhou na crise e avaliar se poderia ter agido melhor.

"Sacrificámo-nos muito; sacrificámos a nossa economia, estamos a sacrificar as nossas vidas e liberdades, por isso isto tem um custo tremendo para nós, mas garanto que tudo vai estar sujeito a debate", disse a deputada, lembrando porém que "o governo só tem uma certa capacidade" de resposta.

"Processámos entre oito e nove milhões de candidaturas ao CERB quando, como sabem, os governos não actuam com rapidez na melhor das hipóteses, mas desta vez trabalhámos miraculosamente rápido", afirmou.

Com respeito especificamente ao distrito que representa, Davenport, diz que "o bairro está bem" e mostra-se orgulhosa da forma como os residentes estão a lidar com a situação.

"Moro na área de Little Portugal por isso passo [pelas lojas] e vejo as pessoas em fila, como deve ser, a fazerem o seu melhor por manterem a distância e cumprirem com as regras", diz Julie Dzerowicz, reconhecendo que é uma situação difícil e que se complica quanto mais tempo durar.

"É importante que continuemos a tomar conta de nós próprios e das nossas famílias", mas "por favor tomem também conta daqueles que souberem que precisam de um pouquinho de ajuda", apela.

Julie Dzerowicz lembra ainda que existem organismos comunitários dedicados a prestar ajuda a quem precisar, destacando entre outros o Centro Abrigo (tel. 416 532-4828) e a West Neighbourhood House (ex-Casa de São Cristóvão, tel. 416 532-4828), além de se poderem manter a par dos principais desenvolvimentos com informação em português actualizada diariamente e acessível no seu portal electrónico, que pode ser consultado em: tinyurl.com/CovidPT.

Segundo a deputada, "estamos a começar a ver a luz ao fundo de um longo túnel", e "vamos ultrapassar" a crise, mas isso acontecerá "de uma forma mais forte se todos estivermos unidos".


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