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Amigas de Toronto festejam com alegria e intenção de debelar o cancro da mama

Por João Vicente
Sol Português

Mil e cem mulheres encheram no passado sábado (27) o salão Gerry Gallagher, em Toronto, num encontro feminino destinado a angariar fundos para a luta contra o cancro da mama e que, segundo a organizadora, teria juntado um número ainda maior se o espaço assim o permitisse.

Ângela Machado, que há 18 anos começou por organizar um encontro de amigas na cave da igreja de Santa Cruz, dando continuidade a uma tradição centenária de origem açoriana, acolheu as participantes do designado Circle of Friends no salão da LIUNA Local 183, que gentilmente cedeu as instalações em solidariedade com a causa.

Isso permitiu que o número de participantes aumentasse quase 10 vezes mais em relação às cerca de 150 que se reuniram nos primeiros tempos na igreja, reflexo do crescimento que a iniciativa tem vindo a registar, sobretudo nos últimos cinco anos.

Como nos revela, é uma evolução natural que se tem vindo a acentuar com a ajuda de muitas amigas, voluntários e patrocinadores, mas a oferta do salão nobre do sindicato foi um importante ponto de viragem e desde aí a organização tem vindo a angariar cerca de 80 mil dólares todos os anos, que revertem a favor do hospital Princess Margaret e da luta contra o cancro.

Os fundos provenientes deste encontro beneficente, e que de início revertiam a favor da igreja de Santa Cruz, passaram a certa altura a ser direccionados para a fundação do hospital, que aplica esse dinheiro na pesquisa de tratamentos e potenciais curas para a doença.

Não é, por isso, de estranhar que entre as muitas mulheres ali presentes estivesse também a oncologista e professora assistente da Universidade de Toronto naquele hospital, Srikala Sridhar, que indicou à nossa reportagem que eventos como este "são cruciais" pois "ajudam a desenvolver novos tratamentos para combater a doença".

Entre os sucessos alcançados, a médica destaca como exemplo a imunoterapia, uma forma de tratamento que tem sido alvo de grande interesse e pesquisa.

Questionada sobre quais os principais cancros que afectam as mulheres, a Dra. Sridhar é esclarecedora: logo a seguir ao cancro da mama, é o cancro do pulmão o que regista maior incidência, pelo que se deve prestar atenção ao principal agressor, mas não esquecer os outros.

Dados da Sociedade Canadiana do Cancro apontam para o cancro do cólon como o terceiro mais prevalecente entre as mulheres e projecta-se que metade da população venha a sofrer de cancro em alguma fase da sua vida, um problema de enormes proporções que, directa ou indirectamente, afecta um número cada vez maior de pessoas.

Durante o encontro de sábado, a mestre-de-cerimónias dessa noite, Clara Abreu, começou por chamar Ângela Machado ao palco, tendo a organizadora aproveitado para agradecer o apoio e o contributo de amigos, familiares, voluntários e patrocinadores, sem esquecer, naturalmente, as muitas mulheres presentes que constituem este círculo informal de amigas, assim como os artistas que deram o seu tempo e talento para animarem o serão.

A Banda Mexe Mexe, que está envolvida com projecto desde 2005 e faz parte da organização, foi a primeira em palco, apresentando-se com o cantor Henrik Cipriano como vocalista principal e a puxar pela multidão, que transformou toda a sala numa pista de dança.

Segundo Humberto Domingos, o teclista/vocalista e elemento mais antigo da banda, "esta é uma causa que toca a toda a gente" considerando por isso um prazer actuarem para aquele público feminino, perante o qual chegam até a mudar o repertório habitual por forma a incluírem canções com "ainda mais energia".

Seguiu-se a cantora Lídia Sousa em palco, que resumiu a sua motivação para dar o seu melhor neste espectáculo ao esclarecer que "além de ser mulher, esta doença já afectou membros da minha família e emocionalmente ficamos afectados para o resto da vida".

O cartaz de artistas dessa noite registou ainda a actuação do cantor Tony Câmara, mas antes foi apresentada uma breve mensagem da deputada federal Julie Dzerowicz, que lamentava o facto de não poder estar presente e escutar a sua homóloga provincial, Cristina Martins – ambas elogiosas desta iniciativa.

Além de dois sorteios realizados antes e depois do jantar – o último dos quais premiou uma senhora de Stouffville com uma viagem na Azores Airlines para Lisboa, Porto ou Ponta Delgada – este evento, em que se lutou contra o cancro com uma enchente de alegria e de pensamentos positivos, contou ainda com vários balcões de vendas e até uma passagem de modelos.

Ângela Machado explicou à nossa reportagem que não pediu uma percentagem específica resultante dessas vendas, mas apenas "aquilo que a consciência de cada um mandar e achar justo", mas Stella Jurgen – que apresentou uma colecção de bolsas e vestuário – comprometeu-se desde a primeira hora a contribuir com a totalidade do que ali fosse vendido.

Apesar de sentir que com a proliferação de outras "Festas das Amigas" esta, que diz ter sido a primeira, terá sido negligenciada por algumas pessoas, a organizadora toma ânimo nos resultados e destaca as famílias ali representadas por múltiplas gerações, as pessoas que voltam ano após ano e os grandes donativos que continuam a ser feitos.

Exemplo disso foi dado por um grupo de senhoras que trabalham no hospital Toronto General e que conseguiram angariar 3.000 dólares num só dia, com o seu tricô, bolos e acepipes – verba que foi entregue em palco a Ângela Machado.

Os donativos feitos pela organização de Amigas ao hospital Princess Margaret ao longo dos anos já totalizam mais de 700 mil dólares e com o montante angariado no sábado, que se conta venha a somar perto de 80 mil dólares, esse valor deverá passar a rondar os 800 mil dólares.

Tudo isto parte do princípio impulsionador da iniciativa, que Ângela Machado define simplesmente como sendo: "solidariedade, amizade e angariação de fundos".

É um esforço hercúleo da parte de todos os voluntários, incluindo elementos da sua família e que a organizadora diz terem-na sempre apoiado ao máximo – e essa noite não foi excepção.

Enquanto a filha recebia os casacos no bengaleiro, os filhos serviam ao bar e o marido, que "ajuda no que pode", andava um pouco por todo o lado por forma a que tudo corresse pelo melhor – até ao último momento.

A festa entrou madrugada adentro e, tudo dito e feito, James Machado só contava chegar a casa lá para as oito da manh㠖 altura em que habitualmente jura "para nunca mais".

Mas depois de descansarem alguns dias, lá se vão reunir de novo com as amigas em Fevereiro, para começarem tudo de novo.


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