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Ninguém morre jovem por quererPor Inácio Natividade Sol Português
No Moçambique colonial, mesmo crescendo sob constante bullying racial levando porrada da polícia, feitos prisioneiros políticos ou executados, nada nos impediu de lutarmos pelo estabelecimento de nova ordem, onde os moçambicanos fossem livres e soberanos. A narrativa racista e a intolerância política não impediram o sedimentar da ideologia nacionalista e de tornar o conceito de unidade nacional, o elo mais forte da arma política e militar a levar-nos à conquista da independência. Tivemos de ser mentalmente fortes por forma a não sermos abalroados pelo efeito tóxico do vinho alienante, desembarcado de Lisboa, ou de hipotecar o brio patriótico a troco de sardinhas enlatadas e azeite, conforme era desiderato do regime colonial. A efeméride a consagrar o 25 de Junho, dia de independência nacional moçambicana, aproxima-se como um hino de louvor indelével aos heróis de ontem e ao homem e mulher moçambicanos no presente. Apenas preservando o memorial do historial da Pátria amada poderemos valorizar o estado e a Constituição da República, onde estão plasmadas as leis que nos governam. Moçambique não vive o espectro duma democracia adiada, acontece que a noção de Estado Democrático de Direito obedece a um grau de entendimento político cultural multiforme, sobre concepção e funcionalidade do Estado. A Frelimo é o partido da governação, enquanto alguma oposição sustenta o existencialismo num negacionismo estratégico, que por vezes pode regredir a posição de afrontamento. Dos diversos quadrantes existentes, apenas actores políticos comprometidos com a democracia entendem o conceito e respeitam as regras. Compete ao estado, em conformidade com a lei moçambicana, reforçar as ferramentas de dissuasão que permitam o funcionamento cabal dos órgãos de soberania, assim como em Cabo Delgado, através das Forças Armadas, eliminar o inimigo até ao último terrorista. Nações com um historial milenário podem constituir-se pedra de bloqueio e agravar o abismo de desenvolvimento, e na existência de quadrantes políticos onde remanesce a mentalidade de que sem senhores não há progresso, o presente constitui um desafio incomensurável, contudo não inultrapassável. Nada acontece por acidente. Assiste-se a um aumento da intolerância racial ancorada no ressentimento do homem branco contra minorias raciais e religiosas. No plano social, no estado da Florida o governador de Sanctis ordenou o cancelamento do currículo escolar, visando pôr travão ao estudo da inclusão racial. No parlamento europeu, os nacionalistas e a extrema direita formam uma aliança de 16 partidos e mais de 115 deputados, incluindo o Chega, partido político português. Em todos esses países existe o racismo velado das elites contra as minorias, e os partidos populistas cristalizam a ideologia do ódio contra cidadãos de pele escura e não cristãos. Recentemente, o jogador do Real Madrid, Vinicius Junior, foi racialmente humilhado em Valência, acto testemunhado por um estádio cheio, a bater palmas. Nos parlamentos europeus transborda o ideal racista e xenofóbico, tendo sido fácil para as elites escamotear a verdade, transmitindo o ónus da culpa para a questão migratória. Muitos de nós, jovens de então, ao participarmos na luta de libertação sabíamos que era a única opção, senão condenávamos a Nação à morte lenta e os moçambicanos a viver sem liberdade nem dignidade. Efectivamente, ninguém morre jovem por querer. Se para o regime colonial éramos terroristas, competia aos jovens mostrar que viver e morrer livres era um sentimento doce da dimensão continental africana que alterou o mapa da dominação estrangeira. | ||||
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