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Correspondente de Portugal:O trabalhador desconhecido Por Jorge Moreira Leonardo Sol Português
Sempre que in loco ou através de qualquer meio de comunicação visual me é permitido apreciar alguma dessas obras grandiosas que a ânsia de imortalidade de certos homens e o engenho e arte de outros levaram a cabo muito particularmente aquelas que foram consideradas as sete maravilhas do Mundo a par do deleite que essas visões me proporcionam, não consigo evitar um estremecimento de horror ao pensar que foi à custa de sangue, suor e lágrimas de gerações e gerações que algumas delas foram conseguidas. Tudo isto só foi possível porque o Mundo iniciou a sua caminhada com os povos subjugados por senhores absolutos, pondo e dispondo da riqueza dos seus países que utilizavam em proveito próprio ou partilhavam com aqueles que os ajudavam a manter o poder. Se tivesse sido diferente, se o Mundo tivesse começado pela dispersão de poderes, se os líderes de então tivessem obrigatoriamente de consultar assembleias, parlamentos, senados, câmaras, em que participassem verdadeiros mandatários dos povos, tal não teria sido possível. Não sou capaz de imaginar, nos nossos dias, S.S. o Papa a mandar construir uma Capela Sistina; António Costa, um palácio de Queluz; Emmanuel Macron, um Versalhes; Abdul Fatah, uma pirâmide para guardar o seu corpo mumificado; a rainha Isabel II, um palácio de Buckingham; a chanceler Merkel, armada em Luiz da Baviera, o rei louco, construindo palácios a seu belo prazer. E muitos outros exemplos poderia citar. Por outro lado passe o egoísmo interrogo-me que aspecto teria este Mundo sem aquelas verdadeiras obras de arte? Polvilhado de construções desairosas porque a sua arquitectura obedeceria mais a necessidades de funcionalidade do que a qualquer intenção de beleza. O Centro Cultural de Belém, na minha modesta opinião de leigo, constitui um bom exemplo. O certo é que elas aí estão. Seria uma segunda crueldade descuidar a sua preservação. Não para perpetuar a vaidade e opulência que estiveram na base das suas concretizações, mas sim a memória daqueles que, anonimamente, trabalharam para a sua edificação e também a todos quantos tiveram de passar toda a sorte de sacrifícios para as tornar possíveis. De vez em quando, principalmente em visitas de estado, vemos S. Exas. presidentes ou sereníssimas majestades visitantes colocarem um coroa de flores num monumento mui justamente destinado a perpetuar a memória do soldado desconhecido aqueles que só a sua coragem, patriotismo e muitas vezes o sacrifício da sua ainda jovem vida, tornaram possível a vitória num campo de batalha, o que, de contrário, não teria acontecido por muito bem engendrada que tivesse sido a estratégia do general, cujo nome, porém, é que fica para a História. Pois que, em cada cidade, se escolha um monumento o mais belo de todos e que seja dedicado ao trabalhador desconhecido. Aquele que, tal como o soldado, ignorado mas que também sem a sua arte, nas mais diversas especialidades, a edificação não seria conseguida por mais bem arquitectada que tivesse sido. Que se perpetue, assim, essa gloriosa condição de cidadão comum. | ||||
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