PENA & LÁPIS


Correspondente da Alemanha:

A política tem sido a arte do possível e sobretudo formadora de poderosos e ricos

Hoje, como no tempo de Hitler, as massas reagem
de forma semelhante

Por António Justo

Sol Português

A política é a arte do possível, sobretudo para quem pode! É a arte do possível, mas para que o povo fizesse parte essencial das possibilidades teria de formular os seus interesses através de grupos onde não perca a visão geral e participe activamente...

Povo sem poder efectivo é isca de anzol para outros pescarem. Um olhar, mesmo distraído, sobre a história universal, leva a concluir que nos diferentes regimes – e até em democracia – a política é sobretudo uma grande oportunidade para as elites, seus representantes e instituições fortes estabelecidas no sistema.

Torna-se caricato o facto de, de maneira sustentável, o povo ver reduzida a sua acção ao papel de queixoso e vítima.

Antigamente, quando pensava nos crimes de Hitler, não podia acreditar que o povo alemão o pudesse ter apoiado como apoiou. Agora que me dou conta da conexão das elites entre si e de como funcionam os meios de comunicação social (sobretudo informação sobre as guerras e a pandemia), é-me permitido perceber os fenómenos do presente e compreender muito bem o porquê do povo alemão ter apoiado em massa as desumanidades de Hitler e as suas mentiras em cadeia.

Hitler conseguiu convencer o povo da superioridade e da razão alemã apoderando-se da imprensa e da publicidade, conseguindo assim criar no povo uma consciência colectiva contra os judeus e assim poder efectuar o bárbaro genocídio e motivar o empenho para a produção de armas...

O poder e as forças dominantes são como o camaleão: antes dominavam o povo com métodos repressivos e agora, em democracia, dominam-no através da "informação"...

Mentir não é só emitir uma mensagem falsa com a intenção de que os receptores a tomem como verdadeira, mas sobretudo elaborar notícias e noticiários com informações meias-verdades, em que essas meias-verdades fazem das outras meias, mentiras inteiras. O método mais eficiente está a ser, em vez de factos, apresentar interpretações de factos como sendo meros factos.

A mentira em cadeia forma visões e opiniões que se têm como verdades absolutas sem que o cérebro se dê conta disso dado não ter informação oficializada sob outros pontos de vista.

Faz-se da informação uma droga que, tantas vezes repetida, transforma a meia-verdade em verdade inteira e assim se leva o povo a viver na mentira ao serviço de interesses estranhos contra si próprio e contra a humanidade.

A política, embora tenha sido até hoje a arte do possível, formadora de poderosos e ricos, tem paulatinamente levado estes a ceder parte da riqueza que o povo produz em benefício do próprio povo, mas só na medida em que a consciência deste cresce e se organiza...

António da Cunha Duarte Justo é Teólogo e Pedagogo


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