PENA & LÁPIS


Correspondente do Brasil:

Habemos Nigrus Papam – Parte IV

Por Francisco G. Amorim

Sol Português

Padre Cipinga anunciou finalmente onde iria exercer o seu apostolado. Entre várias missões que lhe tinham proposto, escolhera uma, simples, talvez a mais humilde de todas, em terra de grande pobreza, onde vivera seu avô e nascera seu pai. Lá na Etiópia.

Cipinga, ainda novo, adquirira grande cultura. Falava desde o bantu ajáua de sua mãe, ao português, italiano e espanhol, árabe, inglês e nos últimos anos no seminário, além do latim e grego, já antevendo para onde gostaria de ir, aprendeu com seu pai um pouco mais de amárico, a língua do povo galla, por onde começaria em breve a sua peregrinação e segundo aprendizado, desta vez na vida, como homem ao serviço de Deus, porque ao serviço dos homens.

II – Padre

Antes de seguir para a sua missão, Cipinga teve que passar um ano em Itália, junto dos seus confrades capuchinhos franciscanos, para estudar a história e os costumes etíopes. Há alguns anos que era a eles que estavam entregues as missões católicas na Etiópia.

O povo, da mesma remota origem do que a sua, recebeu o novo padre com curiosidade, até por ficar sabendo como e porque foi nascer em Moçambique, e quanto o pai tinha sofrido para sobreviver, além do massacre de toda a sua família.

O número de católicos na Etiópia é quase irrisório, não chega a dois por cento. O maior núcleo mantém o seu cristianismo ortodoxo, copta, muito fechado porque muito perseguido. Logo a seguir estão os muçulmanos e por fim as minorias, a principal, de animistas, que talvez não abranja 10 por cento de toda a população, e ainda alguns protestantes e menos católicos.

Já cansado, padre Pascoal, o mais antigo missionário naquelas terras, regozijou-se com a chegada do novo colega. Podia diminuir as suas actividades e preocupar-se basicamente em orientar e ajudar o seu substituto para que melhor cumprisse o seu sacerdócio.

Nos primeiros dias os dois padres percorreram toda a área que lhes estava entregue. Grande, muito vasta, o interior com a resignação dos terrenos pobres, a incerteza das chuvas e constante perigo dos grupos em guerra que tudo destroem na sua passagem, sofrendo as cidades o mal de todos os centros urbanos com a chegada constante de migrantes à espera da migalha que possa cair da mesa dos mais afortunados, funcionários públicos, comerciantes, atravessadores e políticos – igual em todo o lado.

Começou essa migração maior com a fuga às guerras civis e depois acabou por se tornar um hábito. Homens e mulheres que vivem no interior, em estado simples de sobrevivência, mas com dignidade, na cidade acabam engrossando as hostes dos desgraçados, quase apátridas, sem um palmo de terra para plantar e sobreviver, e sem um tecto limpo para se abrigarem, à espera do favor de um subemprego.

Aos domingos a pequena igreja, construção ainda mais modesta do que a mesquita que um dia ardera lá na sua terra, em Moçambique, mal enchia, e durante a semana a catequese e o atendimento num menos que modesto posto de saúde ocupavam o velho cura que não tinha já forças para ir além disso.

De entrada ocupara mais tempo em ajudar a construir caminhos e simples métodos de saneamento, do que na pregação do Evangelho. O povo precisava, e ainda precisa, de tudo, e a palavra de Cristo só encontra abrigo em barriga cheia!

Cipinga, jovem, cheio de saúde e ideais, começou a traçar planos de trabalho. Assim que alguma luz lhe surgia no espírito corria para o padre Pascoal, um dedicado e teimoso italiano das terras altas dos Apeninos, que se encantava ao ouvir o entusiasmo do novo apóstolo, por quem ia nutrindo um forte sentimento de respeito pelo seu saber e dedicação. E pela sua Fé, forte.

Começa por visitar todos os representantes de qualquer outra crença ou religião, homens velhos e chefes de família ou clãs. Visitas de cortesia. Sabia já que de certeza ouviria muito, recebido com frieza e desconfiança por uns e melhor por outros, mas como filho ou neto do país, guardava como trunfo a história de seu avô e seu pai, da terra lá bem para o sul que os tinha acolhido, certamente desconhecida da maioria, se não de todos, e por aí procurou estabelecer um diálogo aberto, franco, simpático.

Bem no fundo do seu coração esperava ainda encontrar algum parente, mesmo sabendo que praticamente toda a família do seu avô havia perecido no massacre à aldeia. Depois, amadurecer muito bem algumas das conclusões que surgissem dessas visitas, onde poderia melhor estabelecer o caminho a trilhar.

A história da Etiópia e sua cristianização tinha-a estudado bem. No entanto, junto aos seus colegas ortodoxos desejava muito aprofundar os seus conhecimentos.

Reza a história, e a Bíblia é história, que a primeira cristianização começou com o baptismo do tesoureiro duma rainha – Candace, nome dado às mães dos reis, que ocupavam o segundo lugar na hierarquia do reino – quando este regressava de Jerusalém, onde teria ido rezar e levar oferendas da rainha, provavelmente Amanishakete.

No caminho para Gaza encontrou Filipe, o apóstolo, que avisado em sonho para se deslocar àquela estrada que estaria deserta, estranhou o encontro.

O etíope contentava-se em apreciar a capa de um documento com as Profecias de Isaías, que não compreendia porque não estava escrito na sua língua. Assim mesmo o adquirira porque seria um bom presente para a sua rainha.

Filipe traduziu-lhe algumas passagens e explicou-lhe o sentido delas, que prenunciavam a vinda do Messias. Messias que já tinha vindo, de acordo com todos os profetas, o Cristo Salvador, que "mudo como um cordeiro levado ao matadouro, assim não abriu a boca" quando foi condenado.

O ministro e superintendente dos tesouros da rainha, encantado com o que ouvira, disse por fim a Filipe: – "Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus."

Convertido, Filipe baptizou-o. Corriam os meados do século I da nova era de Cristo.

A história "moderna" indica que cerca do ano 300 e tanto – talvez 320 d.C. – os jovens Frumêncio (Fromenatos para os etíopes), fenício de Tiro, e seu irmão Edésio, depois de terem feito com seu mestre e tio (o filósofo cristão Merópio), uma viagem de estudo à Pérsia e Índia, o navio em que regressavam foi capturado pelos nativos na costa da Somália e aí vendidos como escravos.

O seu mestre foi morto durante o ataque ao navio, bem como toda a tripulação. Os dois jovens salvaram-se porque no momento do ataque estariam em terra, lendo, à sombra de uma árvore. Mas foram apanhados e escravizados.

Dois escravos com tão elevado nível de cultura, não tardaram a servir na corte do rei de Aksum – o reino que a lenda identifica como o da rainha de Sabá – sendo propriedade de um rico judeu pró-cristão chamado Anbaram.

Com o tempo, Edésio tornou-se o mordomo da corte e Frumêncio o secretário do rei. Cativou toda a corte e obteve o direito de pregar a sua doutrina por onde bem lhe aprouvesse.

Quando o rei morreu deixou dois filhos ainda menores, Ezana e Sheazana, que a rainha entregou aos cuidados e educação de Frumêncio.

Quando percebe que a tarefa ultrapassava em muito a sua capacidade, assim que Ezana atinge a idade para começar a governar, Frumêncio obtém autorização para se deslocar a Alexandria e pedir ajuda ao Patriarca da primeira de todas as igrejas cristãs, Atanásio. Descreve-lhe a sua vida e solicita que mande para aquela terra um bispo e alguns sacerdotes porque a missão era grande.

Santo Atanásio, como ficou na história da Igreja, entendeu que Frumêncio seria a pessoa indicada para assumir tal cargo, ordena-o sacerdote e nomeia-o primeiro bispo da Etiópia.

De regresso, reinavam os dois irmãos. Frumêncio baptiza-os e muda-lhes os nomes: Ezana para Abreha, o Fazedor de Luz, e Sheazana para Asbeha, o Destruidor das Trevas. A partir desse momento o rei declara o cristianismo religião oficial.

Anbaram, seu amigo e antigo proprietário, convertido também, é ordenado sacerdote com o nome de Hezbe Kades e os dois logo começam a organizar a Igreja Cristã Ortodoxa e a traduzir para gueês os documentos sagrados que serviriam de base e estrutura a toda esta Igreja, tal como se encontra até hoje.

Frumêncio ficou conhecido como "Abba Salama", o Pai da Paz, título que perdura também e continua a ser usado pelo patriarca da Igreja etíope.

Antes de tudo isto se ter passado, muito, muito tempo antes, logo no início. diz a Bíblia que "o Senhor Deus plantou um jardim no Éden, no qual pôs o homem que tinha formado. Do Éden saía um rio com quatro braços para regar o jardim. Um deles, o segundo, é Geon, que torneia toda a terra da Etiópia".

Aqui começa, antes de qualquer outra, a história daquele país, e do rio Nilo, Geon, que banha toda a área dos primitivos etíopes, o que coloca esta região nos princípios da história do homem.

Esta consciência, orgulho e responsabilidade carregam os etíopes, sobretudo os monges, estudiosos e sábios, encarregados de manter a história e a religião vivas no coração e na mente do povo.

Por tudo isto a aceitação de um outro culto é extremamente difícil, o que não constituía novidade para o jovem Cipinga. Ele sabia que depois que os portugueses ajudaram a salvar o cristianismo do avanço do Islão, no começo do século XVI, surgiu o desejo de levar a Etiópia para a "verdadeira" religião, a igreja de Roma.

Logo foram para ali enviados os primeiros jesuítas, que cometeram o erro de, em vez de aproximarem os dois ritos, terem querido eliminar um para impor o outro, o que lhes valeu a expulsão do país ao fim de quase 100 anos.

O espírito conservador dos monges etíopes e possivelmente a falta de visão diplomática dos missionários católicos levou à expulsão destes e ao reatar das antigas ligações e dependência com a igreja de Alexandria, de que só se libertariam em meados do século XX.

A igreja católica só voltou à Etiópia em 1897, com missionários franceses, alguns anos depois suplantados e substituídos por capuchinhos italianos, que poucos nativos conseguiram converter e sendo chamada a "igreja estrangeira"!

Nos ombros de Cipinga pesava uma múltipla carga. A básica, inerente ao seu trabalho como missionário católico, pesado e difícil, mas sobretudo por ser um "filho da terra", para quem a responsabilidade era muito mais evidente, e o respeito pelas tradições milenares, desde para com aqueles que continuavam a praticar os ritos animistas ou naturalistas, aos judeus "descendentes" do rei Salomão e da rainha de Sabá e aos cristãos da igreja fundada por São Frumêncio, santo cultuado desde Roma a Alexandria, Arménia e sobretudo na própria Etiópia.

IV – De padre a bispo

Em Assis, uma pequena e bonita cidade na base dos Montes Apeninos, cheia de carácter e de história, não passou muito tempo sem que os seus tradicionais habitantes se habituassem a ver, envolto no pobre traje símbolo dos monges franciscanos, um jovem africano. Distinguia-se pela cor da sua pele, mas sobretudo pelo sorriso que a todos levava uma mensagem de paz.

Poucas vezes saía do convento – Convento de Santo António, para onde o padre Cipinga tinha ido estudar e tornar-se um doutor da Igreja – mas quer na igreja ou nas saídas em trabalho pela cidade, a sua presença era notada, de entrada com desconfiança ou indiferença, para logo se tornar familiar e desejada.

Não era o primeiro monge africano a aparecer por ali, mas era talvez aquele que mais profundamente, e sem palavras, conseguia levar ao íntimo de cada um algo que eles não sabiam interpretar.

Era muito jovem, mas com um tão forte sentimento de solidariedade e compreensão do seu próximo que até aqueles velhos e rudes camponeses lhe tiravam o chapéu ao cruzarem-se com ele e muitas vezes lhe pediam a bênção.

Em Itália, no convento, Cipinga teve que permanecer dois anos para se preparar para a missão a que se havia proposto: ajudar a levar a palavra de Deus, do Deus Único e Todo Misericordioso, aos seus irmãos etíopes, porque a Congregação, face ao seu trabalho, queria dar-lhe mais força na sua missão e para isso precisava que ele se doutorasse.

Durante esse tempo aprofundou-se nos estudos sobre o país do seu avô, o seu povo, as suas religiões, as suas dificuldades e pobreza, e ao mesmo tempo a sua riqueza espiritual.

Meditava muito na sua missão. A todo o momento misturavam-se no seu espírito os ensinamentos recebidos de seu pai, do querido padre Zé, que continuava a ajudar o seu povo moçambicano, e até das mensagens do mualimo.

A ideia de um Deus Universal, Único, sem nome, era um princípio de que não podia abdicar; ao mesmo tempo tinha que compartilhar esse Deus com o seu hábito pobremente franciscano, para que todos os povos melhor compreendessem e aceitassem a sua palavra, o seu entendimento mútuo.

Havia já alguns anos que aos franciscanos italianos, da Toscana, estavam entregues as missões católicas na Etiópia. Trabalho difícil porque ali estava já estabelecida, há quase 2000 anos, a Igreja Cristã nos seus ritos copta e siríaco.

"Etiópia" é uma palavra grega que significa "o que tem a cara escura" ou "queimada". Designava antigamente os habitantes da região correspondente à bíblica terra de Cush, nome do filho de Cam, neto de Noé, a seguir conhecida por Etiópia onde floresceram os reinos meroita e depois de Aksum.

Aos primeiros habitantes autóctones foram-se agregando através dos séculos elementos semitas procedentes do sul da península arábica, os habashat, de onde derivou o nome de Abissínia. Os etíopes de hoje não gostam de ser chamados abissínios, pelo sentido pejorativo que este nome acabou tendo, uma vez que significa "mistura de povos"!

Um dos mais pobres países do planeta, o povo etíope que há dois ou três mil anos ocupou toda a área que hoje corresponde ao Sudão, Somália, Djibuti, Eritréia e à própria Etiópia, está actualmente reduzido a pouco mais do que às terras montanhosas – aquilo que os muçulmanos lhes deixaram – mantendo no entanto uma das histórias mais ricas e mais antigas de África, que se perdem no tempo.

(continua na próxima edição)


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