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Senhor Santo Cristo na primeira Igreja dos Portugueses em TorontoUm Povo bom a espalhar pelo Mundo a sua Religiosidade e Fé"Ecce Homo"! Dois dias de bom tempo levaram milhares à procissão
Por Fernando Cruz Gomes e Cristina PereiraSol Português
A imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres voltou a percorrer as ruas de Toronto, no sábado e domingo. Uma procissão que se realiza, desde há muito em sintonia com a que nos Açores se desenrola desde 1700. O cortejo de domingo, que lá como cá constitui o ponto alto das festas, começou por iniciativa de madre Teresa D'Anunciada, freira que introduziu o culto.Com a imagem do Santo Cristo a deixar apenas o convento uma vez em cada ano, no quinto domingo a seguir à Páscoa. Como acontece em Toronto, com a veneranda imagem a ficar no seu nicho durante todo o ano. A imagem que o amor de muitos a imagem de cá foi oferecido pelo saudoso Mariano Rego trouxe até terras do Canadá. Religiosidade e Fé, o povo dos Açores trouxe para cá a devoção secular ao Senhor Santo Cristo dos Milagres. E no sábado e domingo, cruzaram-se as dores e as dificuldades com o amor agradecido ao Deus feito Homem. Dores e dificuldades patentes até nos joelhos que fazem a marcha, como vimos desde logo no sábado. Joelhos nus como nus, decerto, seriam os motivos da promessa que se tem de pagar. De joelhos no chão, alguns. Descalços, muitos outros. Todos com a Fé, talvez em pagamento de promessas que se fizeram em tempo de tribulações sem nome.
Em Toronto, as Festas têm outro significadoNa cidade de Toronto, que ajudamos todos a tornar maior, mercê do nosso trabalho e da nossa determinação, escreveu-se mais uma página da nossa Religiosidade e Fé. O Senhor Santo Cristo dos Milagres o Ecce Homo desde que Pilatos assim o chamou, frente à multidão que O apupava decerto que distribuiu, pelas ruas da cidade de Toronto, em redor da igreja de Santa Maria, a sua bênção. Olhou pequenos e grandes, entendeu a fé de uns e de outros. Reparou nas mazelas do corpo e da alma de muitos dos que o aguardavam. Para o abraço da festa, para a oração da comunidade. | |||||||||||||
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E Ele decerto que entendeu as orações dos que lhe rezam. Passeou a sua misericórdia pelas ruas da cidade. A grande virtude da devoção é que reúne debaixo do mesmo olhar complacente do Senhor, pobres e ricos, novos e idosos. Eles e elas, irmanados num longo percurso, sem alterações de vulto, desde que do Convento da Esperança a imagem saiu para se dar ao Mundo. E os que vieram para esta parte do mundo, e alinharam os ditames da sua fé, no princípio, frente à primeira igreja dos portugueses em Toronto, a Igreja de Santa Maria, trouxeram consigo o que de melhor tinham. A imagem do seu Santo Cristo dos Milagres, que passou agora, de novo em tradição que já não morre foi trazida de lá. Para continuar a viver com os de cá. A abençoá-los. A apontar-lhes o caminho, a verdade e a vida.
O "Ecce Homo" faz manter a tradiçãoA festa do Senhor Santo Cristo dos Milagres, em toda a sua pompa ou no segredo dos corações, é de facto, a certeza de que o nosso povo sabe cultivar a tradição. Sabe olhar o rosto macerado do tal Ecce Homo e pedir-lhe para ficar connosco, para nos acompanhar. E Ele veio, de facto para ficar. Para estar connosco nas horas boas e más. Para nos olhar, olhos nos olhos, em cada dia que passa. E a verdade é que, no domingo, pouco depois das 3 horas, a trompete anunciou aos fiéis que a imagem do Cristo macerado ia sair da igreja de Santa Maria. Cumprindo um ciclo, que começava quando as bandas, vindas das zonas limítrofes, paravam frente à Igreja e saudavam o Senhor. Com os seus toques harmoniosos. Bandas de cá, bandas de longe, de Hull (Otava) e de London, por exemplo. Primeiro era o guião, depois, um grupo de "Anjos", 17, a testemunhar que a Juventude também começa a entender a mística, também a quer seguir. Duas Bandas, para tocar ao longo de todo o percurso. Primeiro a Banda do Espírito Santo, de London, seguida pela Banda do Sagrado Coração de Jesus, da igreja de Santa Helena. O Coro de Santa Maria, a Legião de Maria, o Apostolado da Oração, a Associação de Nossa Senhora de Fátima, estas algumas das formas por onde se expressa a Fé e a devoção do povo de Santa Maria. As Bandeiras a seguir Depois, no decurso da procissão, que já ia longe, as Bandeiras de Portugal, do Vaticano e do Canadá. Símbolos de tradição para muitos dos que estiveram presentes. Símbolos também de Fé. Mais um grupo de "anjos" com símbolos. Que ia desde a escada para subir à Cruz até à esponja com que os guardas (de há mais de 2000 anos) levaram fel e vinagre ao Cristo moribundo. Mais outro grupo de "anjos" com palavras chave do martírio de Cristo. E para completar o quadro (quase feito de juventude) um grupo de crianças que servem de ajudantes às cerimónias eucarísticas. A Filarmónica de Nossa Senhora de Fátima de Hull vinha a seguir. O pálio onde vinha o Pastor da igreja de Santa Maria, padre Libório Tavares, que repete a tradição há muitos, muitos anos, e este ano com algumas dificuldades (já que em convalescença) mas com a devoção tradicional que quase lhe vem do berço. Muitos sacerdotes a acompanhá-lo, de origem portuguesa e não só. Anotámos alguns, designadamente, Monsenhor Eduardo Resendes, os padres Fernando Couto, Janeiro, António Teixeira, Libório Tavares (sobrinho). E a imagem ia saindo. Ainda ao som das trompetes que chamam os fiéis à adoração e ao silêncio. Atrás gente de cadeiras de rodas, algumas autoridades locais e a Comissão de Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres. As Bandas de Hull e a Banda de Nossa Senhora de Fátima da igreja de Santa Inês. Muitas promessas, círios que ardem, gente descalça, gente de terço na mão. Gente que sofre ou sofreu, gente devota. As Bandas de Brampton e a (residente) do Senhor Santo Cristo dos Milagres. | |||||||||||||
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Um Santo Cristo de muita forçaEste Santo Cristo tem muita força! Faz no fundo, com que o bom povo dos Açores lhe reze e o cante, não apenas na terra longínqua, mas também nas terras da emigração para onde se espalharam. Um pouco por todo o mundo, o Senhor Santo Cristo dos Milagres veio no baú de quantos um dia, deixaram as ilhas da maravilha. E mesmo que muitos dos que, por qualquer motivo, pararam a ver ao redor da vetusta igreja de Santa Maria não entendam a motivação. Mesmo que se interroguem, mesmo que não consigam descortinar razões, o povo entende. Responde com a sua Fé, apresenta razões que têm muito a ver com graças recebidas. É que o Povo incorpora-se na procissão e nas Festas para pedir ao Deus-Homem, graças para o dia-a-dia. Mas vai igualmente agradecer.
A mudança da imagem é mais "mística"A procissão de domingo é, afinal, mais espavento. Mais forte na presença de fiéis. Mais "luxo" e sempre mais numerosa, como é evidente. As cerimónias de sábado, no entanto, pelo menos entre nós, no Toronto (católico e português) é mais "mística" e mais vivida. É que até se vêem lágrimas. Dos que vieram para agradecer e dos outros que vieram para pedir. Há mais gente a juntar-se descalça, ou de rojos, à volta de igreja, talvez com os joelhos macerados pelo piso. Talvez que uma doença grave junte o agradecimento à oração. Ou uma vida a dois que se vai desfazendo. Quem sabe se a simples crise e dura avassale tudo e todos e faça acreditar que do Alto possa vir a solução. Quem reza sabe deve saber por que o faz. E a ida do povo à igreja de Santa Maria, em dia do Senhor Santo Cristo dos Milagres, é capaz de ter uma grande dose de sofrimento. Materializam-se assim, as cenas de humildade e de dor, com os joelhos em terra, com os pés descalços, com os quilos de cera que se carregam em círios de agradecimento ou de pedido. A verdade é que o reencontro com a mística do sobrenatural, em tempo de Santo Cristo, tem uma ressonância por demais evidente. Uma grande manifestação de fé. O culto ao Senhor Santo Cristo dos Milagres tem de facto, essa certeza. No sábado, quando a imagem saiu da sua capelinha de 364 dias, para ir para o altar maior, havia de facto, um mar de gente a presenciar. E a acompanhar o andor à volta da igreja, já com bandas a tocar o Hino do Senhor Santo Cristo dos Milagres. No domingo, era o continuar da festa do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Muita gente, muito entusiasmo, a fé a comandar tudo. Até tanta e tanta gente que percorria as zonas do percurso descalça, a pagar promessas, a lembrar entes queridos, ou simplesmente, a pedir a Cristo para continuar a ajudar. Monsenhor Resendes acredita no futuro da fé Monsenhor Eduardo Resendes estava incorporado na procissão, como sempre faz, como vários outros sacerdotes não só de origem portuguesa fazem, ano após ano. Ao Monsenhor deixámos cair a pergunta sobre o que é que o faz andar. "A fé e o amor ao Santo Cristo, já que é Ele é que nos dá força". | |||||||||||||
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Eduardo Resendes, que está agora a completar 50 anos de sacerdócio, entende que "aqui e agora, vale a pena pensar no Passado e no futuro, já que, neste caso, as duas coisas estão ligadas. Avalia-se o hoje pela experiência do passado". Falamo-lhe na eventualidade de haver menos gente do que em anos anteriores. Acentua que "a razão é compreensível", embora como continua "a experiência dos EUA e da emigração de origem portuguesa, mais antiga que a nossa, com a quarta e quinta mesmo a sexta gerações onde se está como que a viver o Passado e a querer relembrar o que se fazia". Monsenhor Resendes lá continua. A procissão para ele, deixa até a ideia de que "estas crianças parecem vir com muito gosto" e "todas estas imagens lhe ficam no subconsciente vão vendo fotografias, relembrar-se que há vinte ou trinta anos, participaram nas celebrações do Santo Cristo. E começam de facto, a querer repetir as mesmas festas..." E ainda, respondendo a uma pergunta do "Sol Português", confessa que de facto, nestas suas andanças como sacerdote procura de facto cumprir. "Claro que há muitas outras coisas a chamar-nos para outros lados, mas a fé é de facto, qualquer coisa que nos faz andar em frente..." Um "capitão de Abril" na procissão O comandante Pedro Lauret esteve em Toronto, a participar nas comemorações do 25 de Abril levadas a cabo pela Associação 25 de Abril. A jeito de ver como tudo se passava, esteve frente à primeira igreja dos Portugueses em Toronto e partilhou com a reportagem do "Sol Português" as suas impressões. Para ele, que acentua não ser religioso, entende que "tudo isto de facto, tem um significado enorme, tem significado sim. As comunidades portuguesas unirem-se à volta de qualquer coisa, como a fé é algo formidável. Não se perdeu o significado total de tudo isto". E fala na juventude. A nosso pedido, associa também tudo isto, ao próprio "25 de Abril", entendendo que "é a esperança. Acho que de facto, a juventude estar aí só pode significar que vai haver futuro. Muita gente nova, hoje há talvez mais pureza. Ninguém está aqui à força. As pessoas estão cá porque querem, talvez que o próprio 25 de Abril, ainda que indirectamente, tenha a ver com isso..." Concertos ao ar livre No sábado e no domingo, vários concertos ao ar livre. As Bandas que se incorporaram na procissão estiveram presentes, nos coretos postados frente à porta de entrada para a capela do Santo Cristo. Concertos em que, naturalmente se revezavam. E a verdade é que a nossa gente interessa-se pela música das Bandas Filarmónicas. Vimo-lo no acompanhamento que fazem dos acordes, nas palmas que tributam aos executantes e na forma como falam nas "suas" Bandas, quase em rivalidade salutar que dá gosto ver e ouvir. | |||||||||||||
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