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Luso-canadiano nomeado para os Óscares

Nelson Ferreira é um de dois luso-descendentes que domingo poderá receber uma das cobiçadas estatuetas douradas

Por João Vicente
Sol Português

Com 33 milhões de telespectadores nos Estados Unidos da América e mais algumas centenas de milhões nos 225 países à volta do mundo que assistem à transmissão da cerimónia em directo, os Óscares, já na sua 90.ª edição, são os prémios cinematográficos de maior projecção mundial.

Este ano a comunidade luso-canadiana conta com dois dos seus elementos no rol de nomeados para as cobiçadas estatuetas douradas, por coincidência ambos no mesmo filme, The Shape of Water (A Forma da Água), do realizador Guillermo del Toro: Luís Sequeira, na categoria de Melhor Guarda-Roupa, e Nelson Ferreira, na categoria de Melhor Montagem de Som, juntamente com o sócio, Nathan Robitaille.

O editor de som tinha acabado de chegar de Los Angeles com o sócio, onde haviam participado num encontro com outros nomeados, quando com ele conversámos a respeito da sua nomeação.

Nestas andanças há quase três décadas, Nelson Ferreira está habituado a lidar pessoalmente com artistas de renome, mas considera que, ainda assim, ter estado rodeado dos seus heróis – incluindo os realizadores Steven Spielberg e Christopher Nolan ou Mark Mangini, que editou o som do filme "Blade Runner 2049" – foi algo digno de registo.

"Vimo-lo junto à piscina e fomos ter com ele para nos apresentarmos e dizer-lhe o quanto admiramos o seu trabalho", diz-nos Nelson Ferreira a respeito do momento em que, acompanhado do sócio, conheceu Mangini pessoalmente.

"Ele foi tão simpático e disse-nos o quanto adora o nosso trabalho – e eu nem conseguia `processar' [o que ele nos estava a dizer]", recorda.

Tanto "Blade Runner" como "The Shape of Water" estão nomeados para o prémio na categoria de Melhor Montagem de Som, pelo que Ferreira e Mangini são, tecnicamente, "adversários", mas a camaradagem entre eles, como colegas de profissão, foi imediata e inegável.

Quando Mangini lhe disse que estava bastante satisfeito com o trabalho que tinha feito em "Blade Runner", até ver o trabalho de Ferreira e Robitaille em "The Shape of Water" – altura em que diz ter ficado furioso – Nelson retorquiu que compreendia perfeitamente o sentimento do conceituado decano desta indústria pois, ao ver a qualidade do seu trabalho em "Blade Runner" ponderou desistir da profissão.

Recentemente reformado, Gregg Landaker – vencedor de três Óscares na categoria de mistura de som ("Star Wars – The Empire Strikes Back", "Raiders of the Lost Ark" e "Speed") e nomeado para seis outros, um deles nesta nonagésima edição com o filme "Dunkirk" – foi outro dos seus ídolos que lhe expressou apreço pelo trabalho desenvolvido em "The Shape of Water".

Nelson Ferreira confidencia-nos que foi nessa altura que se apercebeu que esta oportunidade rara poderá nunca mais voltar a repetir-se e que, nesse momento de introspecção, constatou que, realmente, ser nomeado pelos colegas e encontrar-se em tão boa companhia é, já por si, "honra quanto baste".

Considera-a o ponto alto de uma carreira que teve início há quase 30 anos, mas recorda que chegar aqui não foi fácil.

Como nos conta, enveredou por esta área de actividade um pouco por acidente: tinha interesse por filmes e arte, desenhava e pintava, e por isso começou por estudar animação numa escola secundária em London, Ontário.

Acabados os estudos secundários, enviou o seu portefólio a várias instituições de ensino pós-secundário, mas embora fosse aceite por todas, o que realmente lhe interessou foi um curso de dois anos em Londres, por isso partiu para Inglaterra.

Ao regressar a Toronto, em 1987, a indústria cinematográfica local – que viria posteriormente a ser conhecida como "Hollywood North" – estava a dar os seus primeiros passos, por isso começou por editar filme à moda antiga, trabalhando nesse regime durante dois anos até se aperceber que a única maneira de progredir na carreira seria se algum dos veteranos se reformasse ou falecesse.

Consciente de que havia mais oportunidades na área de montagem de som, onde descobriu ter um talento natural, fundou a sua própria companhia, Sound Dogs, com um sócio e como não tinham família com que se preocupar, dedicaram-se ao trabalho "quase 24 horas por dia", como nos conta.

Progrediram rapidamente, aprendendo a trabalhar com os novos sistemas digitais que estavam então a aparecer, e mesmo quando o sócio partiu para Los Angeles para trabalhar num projecto – de onde nunca mais voltou – Nelson decidiu ficar por aqui mesmo.

No início foram muitos projectos com pouco ou nenhum orçamento, mas cada um ia trazendo mais oportunidades e mesmo quando a indústria local foi atingida pela recessão, pela subida do dólar canadiano e pela epidemia de SARS, conseguiram sobreviver.

As coisas começaram a mudar em 2000, quando trabalhou em "Requiem for a Dream" – um filme independente, de pequeno orçamento mas que foi extremamente bem recebido pela crítica e pelo público, especialmente o tratamento dado ao som, idealizado pelo realizador Darren Aronovsky e brilhantemente executado por Nelson Ferreira e a sua equipa.

A primeira oportunidade de trabalhar com o realizador Guillermo del Toro surgiu quando este lançou a série televisiva Strain, seguida mais recentemente pelo filme "The Shape of Water", com o qual Nelson Ferreira, Nathan Robitaille e a Sound Dogs entram para a história como os primeiros a serem nomeados nesta categoria no Canadá – uma oportunidade que decerto lhes irá abrir mais portas ainda.

Filho de portugueses que vieram para o Canadá inicialmente para trabalhar na apanha do tomate e do tabaco, diz-nos que a terra dos país, Cavaleiros, na zona da Mealhada, a norte de Coimbra, continua a ter um lugar especial no seu coração, mas confessa que sempre que visita Portugal com a esposa têm outra paragem obrigatória: o Miradouro da Graça, em Lisboa, de onde contemplam o Castelo de São Jorge e a vida.

Apesar de ter nascido no Canadá, vai a Portugal todos os anos – salvo um interregno de cerca de uma década, quando regressou de Inglaterra – pois é onde diz sentir-se mais ele mesmo.

Não põe de lado a possibilidade de colaborar in loco em projectos portugueses, americanos ou outros, mas diz que Toronto é onde a família se sente bem, por isso continua sem intenção de se mudar pois embora a esposa – a tradutora e escritora Martine Ouellette – seja poliglota, incluindo o português, os filhos já nem tanto, apesar de também adorarem visitar Portugal.

A cerimónia para a entrega dos Óscares será transmitida este domingo (4) a partir das 20h00, com apresentação de Jimmy Kimmel, e tanto Nelson Ferreira como Luís Sequeira vão de certeza ter muitos portugueses a torcer por eles.


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