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Novo cônsul-geral:

Comunidade tem "todo o direito de exigir o máximo de mim"

Por João Vicente
Sol Português

Eleito "Personalidade do Ano" em 2018 pela página "Comunidade Alemanha" no Facebook (com mais de 6.000 membros) – tanto pela sua participação nos eventos comunitários como pela qualidade dos serviços consulares no posto que dirigia e que aumentaram "de forma notável" – o novo cônsul-geral de Portugal em Toronto, José Manuel Carneiro Mendes, assumiu este posto sob condições bastante diferentes.

A sua chegada a Toronto no auge da pandemia de Covid-19 que grassa pelo mundo não só condiciona fortemente a interacção com a equipa de funcionários e com os utentes do posto consular agora a seu cargo, como com a própria comunidade que nos diz desejar conhecer de forma aprofundada.

O jornal Sol Português contactou-o para uma entrevista, que graciosamente concedeu, e ao longo da nossa conversa abordámos um pouco do seu percurso profissional e das perspectivas para o cargo que acaba de assumir, após ter cumprido o período obrigatório de isolamento ao entrar no país.

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Sol Português – Descreva-nos por favor, em traços largos, o seu trajecto de carreira até chegar a este consulado.

José Manuel Carneiro Mendes – É um bocado difícil descrever uma carreira com mais de 20 anos em meia dúzia de passos, [mas] posso dizer que já entrei tarde – com cerca de 30 anos – na carreira diplomática. Sou um antigo advogado. Exerci a advocacia, com licenciatura em jurídico-económicas, ainda durante sete anos e entretanto pretendi mudar de vida e entrei para a carreira diplomática.

Fiz muitos postos, estive na Venezuela como "Deputy-Head of Mission" – comecei, aliás, a minha carreira como "Deputy-Head of Mission" em Sarajevo, na Bósnia, em 1996, imediatamente a seguir à guerra (quando cheguei a Sarajevo, ainda [a cidade] estava destruída – os acordos de Dayton e de Paris, que puseram fim à guerra dos Balcãs, tinham sido em Dezembro e eu cheguei em Agosto).

Depois estive na Venezuela, onde assisti, pode-se dizer, à ascensão do então presidente Chavez. Depois na Áustria, em Viena, para a presidência portuguesa da USCE e da troika. Entretanto regressei ao ministério, fiz algumas missões em Timor e também algumas outras na Indonésia, participei em várias reuniões em Bruxelas... – a vida de um diplomata, ao fim e ao cabo.

Entretanto também dei um saltinho ao Ministério das Finanças, onde estive como dirigente – devo ser o único diplomata que alguma vez foi dirigente no Ministério das Finanças – como director do departamento de estudos profissionais e coordenação da formação na, então, Direcção Geral da Administração Pública. Também fui como "Deputy-Head of Mission" – ou seja, número dois – para a Ucrânia, para Kiev. Depois regressei ao ministério como director dos Serviços Patrimoniais, [ou seja] da direcção de serviços do património e do Ministério do expediente, e foi então que a minha carreira teve uma, não vou dizer evolução, mas começou a ter um caminho um pouco diferente porque o senhor ministro quis reabrir a embaixada de Portugal no Paquistão.

Estamos a falar do ano de 2013 e a embaixada tinha sido encerrada em 2010, mas havia grandes pressões, até da comunidade paquistanesa em Lisboa, para que ela reabrisse e o sr. ministro perguntou se eu, director do Património, poderia ir a Islamabad preparar um relatório. Teria um prazo de três meses para dizer o que seria necessário para reabrir a embaixada. Fiz esse relatório em mês e meio, dois meses, e depois perguntaram-me, também através do gabinete do sr. ministro, se eu não gostaria de implementar esse relatório. Ora, quando se pergunta a um diplomata se quer implementar o seu próprio relatório, não há duas respostas – poderá haver, mas enfim...

Fui então como encarregado de negócios para Islamabad, onde estive dois anos e meio. Foi um pouco complicado em termos familiares, mas depois também – talvez até por causa disso – fui colocado no posto que eu pedi a seguir, que foi o Consulado-Geral de Portugal em Düsseldorf. Entretanto acho que fiz lá um bom trabalho – pelo menos a comunidade assim o diz, [e] falsa modéstia também é orgulho, mas acho que sim.

Estava para ficar lá quatro anos e a comunidade escreveu uma carta a altas entidades para eu ficar mais um ano e acabei por ficar. Entretanto ao fim do quinto ano – porque era impedido de ficar lá mais tempo e seria sempre – concorri ao concurso [quando] vi que Toronto estava vago. Sempre me senti muito atraído por este posto [e] por esta região, sei também a comunidade que aqui existe [e] pedi para vir para Toronto. Felizmente o sr. secretário-geral e o Conselho Diplomático estiveram de acordo com a minha pretensão e aqui estou eu.

SP – O que é que o levou a decidir transitar da advocacia para a carreira diplomática?

JMCM – Quando deixei a advocacia para entrar na carreira diplomática, foram razões basicamente pessoais e do foro pessoal que estiveram na base dessa minha mudança.

SP – Possui um currículo muito diverso, com diferentes fases de carreira, mas de todos os locais por onde já passou e todos os postos que ocupou, qual, ou quais, acha que o marcaram mais, tanto na esfera pessoal como profissional?

JMCM – Todos os postos marcam um diplomata, sabe? Todos eles, sem excepção, porque existe uma fase preliminar, que é a fase de instalação do diplomata, e essa fase obriga-nos não só a tentar perceber o sítio para onde vamos viver os próximos três ou quatro anos, mas também a vivermos como essas pessoas. Ou seja, não é exactamente a mesma coisa que dizer `eu vou a Bruxelas a uma reunião e venho-me embora'.

Por exemplo, a seguir à guerra nos Balcãs – o meu primeiro posto – era fácil para mim agora dizer que foi o posto que mais me marcou, [mas] não, não foi – marcou-me como os outros postos. Eu cheguei lá e tive que aprender a viver numa determinada realidade, e nós ao aprendermos a viver numa realidade diferente daquelas realidades a que estávamos habituados, isso tem que nos marcar necessariamente, porque é a nossa vida que muda radicalmente e, seja qual for o contexto, ficamos marcados por essa vida.

Eu fiquei marcado em Viena de Áustria, fiquei marcado nos Balcãs, fiquei marcado com a experiência em Caracas, fiquei marcado pela experiência na Ucrânia... agora posso-lhe dizer o que mais me custou, digamos assim – não que me custou, mas o que deixa mais marcas – não é a cidade para onde nós vamos morar ou o país, não é o trabalho em si, porque isso faz parte da carreira que nós escolhemos: é a questão da família. Quando nós mudamos para um determinado posto, não nos podemos esquecer que não vamos sozinhos, vamos com a nossa família.

SP – A sua família acompanhou-o sempre?

JMCM – A minha família acompanhou-me sempre, excepto quando fui para o Paquistão. Foram-me lá visitar, mas não me acompanharam por motivos de segurança. Eu vivi sempre num hotel. Entre o hotel e a embaixada tinha cinco ou seis "checkpoints". Quando entrava na embaixada era o exército paquistanês que estava à porta com aqueles sacos de areia, como se vê nos filmes, à espera do chefe de missão – neste caso eu estava lá como encarregado de negócios, equiparado a... pronto, era o chefe de missão – e quando eu entrava estavam com as armas e etc.. Mas não foi isso que me marcou também, porque isso faz parte da nossa profissão [e] da nossa carreira. O que marca sempre é a forma como a família depois percepciona e como se desloca, principalmente quando isso sucede enquanto os nossos filhos são adolescentes, como é o meu caso.

Garanto-lhe que é muito complicado mudarmos de país.

Por exemplo, quando fui para a Ucrânia – em 2009 – tinha o meu filho 11 anos. Nessa altura custou-lhe a sair de Portugal. Fomos para a Ucrânia [e] estivemos lá três anos. Custou-lhe muito mais sair da Ucrânia do que lhe tinha custado sair antes de Portugal – ele foi muito feliz na Ucrânia, senti isso. Quando há pouco falei da minha experiência no Paquistão, de facto o que mais me custou lá foi não poder estar com a minha família – e o meu filho estava em plena adolescência. Não é fácil um pai estar a gerir isso à distância. Depois há outras circunstâncias: a família que fica em Portugal, os nossos pais, etc. O resto, o trabalho, é igual.

Claro que, por exemplo, foi extremamente gratificante para mim agora em Düsseldorf o meu trabalho como cônsul-geral, porque eu senti retorno da parte da comunidade às minhas ideias, ao meu trabalho e fui apreciado, sim senhor. Também acho que não fiz mais do que a minha obrigação, mas mentiria se não dissesse que me senti gratificado por isso. Depois também há aquelas experiências que não têm preço. Eu adorei ter chegado em 1999 a Caracas e assistir à ascensão do Presidente Chavez, que tinha sido eleito poucos meses antes, e assistir àquela transformação da sociedade venezuelana. Agora, sem fazer qualquer consideração política, [o simples] assistir à transformação dos costumes, tudo isto é muito interessante. Sarajevo também...

SP – É como ter um assento de camarote, digamos assim?

JMCM – E até certo ponto sermos protagonistas. Isso também é muito interessante. Por exemplo, quando eu estive em Sarajevo havia lá uma avenida – a cidade ainda estava destruída, obviamente, depois do cerco Sérvio à cidade – e nós estávamos lá ainda protegidos, tanto eu como, na altura, o chefe de missão, pelo grupo de Operações Especiais da PSP, pelo GOE. Recordo-me de ter feito aquela avenida enorme, que era a chamada "avenida dos snipers" (atiradores) – e acho que não é preciso explicar o porquê – e embora a guerra tivesse acabado, com um colete à prova de balas. Estas circunstâncias ficam-nos.

Quando eu estive em Timor, por exemplo, acompanhei o Presidente Ramos Horta a algumas presidências abertas e estive sempre com ele no interior de Timor – aliás foi basicamente para isso também que eu fui para lá. Foi muito interessante ter podido conviver pessoalmente e em proximidade [com ele].

A Ucrânia também foi muito interessante. Recordo-me, e isto não foi exactamente trabalho, duma viagem em que saí de barco de Odessa até à Crimeia – ainda não tinha havido a invasão da Crimeia pela Federação Russa. Foi interessantíssimo entrar na Crimeia ainda ucraniana de barco, de manh㠖 isso aí foi algo que me marcou, que ficou fixado na memória.

Trabalho, não posso dizer que algo me tenha marcado mais ou menos. As circunstâncias que envolvem o trabalho, isso sim; o contexto.

SP – Parece que o que lhe acontece por via da componente profissional não o surpreende, mas são os laços afectivos que são realmente importantes para si.

JMCM – Sim, os laços afectivos, as amizades que eu faço em posto, as pessoas que eu conheço. Talvez até um pouco por formação profissional (mas também fui sempre assim e quando era advogado tinha de ser assim) quando estou com alguém, o meu exercício é estar sempre a tentar ver para onde está a cabeça do meu interlocutor – sempre. Isso acontece-me, por exemplo, se eu entro numa sala, ao tentar perceber o ambiente antes de me integrar totalmente. Isto também ajuda a criar empatias. É o tal contexto, porque o resto, o trabalho, já sabemos ao que vamos.

SP – Dada a preparação que sem dúvida terá feito para assumir este cargo, qual a impressão que traz do Canadá e dos portugueses que cá vivem e trabalham?

JMCM – Estou neste momento na "fase esponja", tentando absorver tudo aquilo que está à minha volta, tentando compreender. Não tenho a veleidade de quando chego a um determinado lugar pensar que já sei tudo sobre esse lugar e sobre as pessoas. Não! Isso é um caminho que se faz caminhando – é uma aprendizagem.

Terei algumas ideias sobre o Canadá, muito subjectivas. Aliás, eu quando muitas vezes chego a um sítio tenho uma sensação de déjà-vu, como se já tivesse estado nesse sítio, não porque me tenha documentado especialmente porque vou para lá, mas sim porque em determinadas fases da minha vida já li, já vi filmes e vêm-me certas coisas à memória. Tenho uma determinada ideia sobre o Canadá. Sempre tive vontade de me vir instalar num país aqui do novo mundo. Já estive na Venezuela, como sabe, na América do Sul, mas não é a mesma coisa por vários motivos que não interessa aqui escalpelizar.

Sobre a comunidade em si, já ando há muito tempo nesta vida para saber que o que conta são as pessoas e não os estereótipos. Portanto estou à espera de conhecer as pessoas, de conhecer o movimento associativo, de me aperceber da realidade e, aí sim, da realidade subjectiva da comunidade que eu vim aqui servir, porque é muito importante. Eu venho aqui servir uma determinada comunidade. Venho, de facto, com algumas ideias e já com um certo estilo. Por exemplo, eu cultivo muito as redes sociais, o Facebook. Quem me conhece sabe que há vários pontos que defendo e pratico: uma política de proximidade com as comunidades, isso é o meu ponto logo à partida; outro é que sou muito defensor do conceito pessoano, de Fernando Pessoa: "a minha pátria é a língua portuguesa" – para mim é quase como se fosse uma Bíblia.

Sou português antes de mais, mas a lusofonia e a língua é aquilo que nos une. Nós temos um potencial enorme na língua portuguesa. As pessoas às vezes esquecem-se de coisas tão simples quanto isto: somos a língua mais falada no hemisfério sul, por exemplo. Há um potencial enorme do português. O português deve ser acarinhado e deve ser utilizado como ferramenta para nos dar visibilidade.

Temos ricas tradições, ricas culturas. Portugal antes desta maldita pandemia dizia-se que estava na moda. Vamos tentar conservar Portugal na moda e na onda para quando acabar a pandemia acabarmos no pelotão da frente. Mas isso também só se consegue com visibilidade e a nossa visibilidade são as nossas tradições, as nossas culturas, a nossa gastronomia, mas numa visão para fora de nós, numa visão exógena, porque não vale a pena cultivarmos estas coisas para nós.

O Fado, por exemplo, é património da UNESCO desde 2011; é património mundial. Eu não quero fazer comparações com outros postos onde estive, mas cada vez há mais estrangeiros a apreciarem – e por via das comunidades portuguesas que vivem no seu país – as coisa portuguesas: mais fado, mais gastronomia, mais cultura.

Nós temos muito para dar ao mundo, para dar às sociedades onde nos integramos, que nos acolheram – um pouco naquela afirmação do presidente Kennedy de que eu gosto muito: "não perguntem tanto o que é que o vosso país pode fazer por vocês, mas aquilo que vocês podem fazer pelo vosso país".

Eu sei o que é que tenho aqui, o meu trabalho. As pessoas são os melhores agentes para a divulgação do nosso país e isso é parte do meu trabalho: é motivar, é estimular, é estar aqui, é representar, é proteger, é acarinhar as comunidades, mas também fazer com que as comunidades gostem de se afirmar – e aqui afirmam-se muito. Aqui há imensos portugueses em lugar de destaque, que eu sei, e é uma comunidade muito activa, o que é muito agradável.

SP – Já teve algum contacto ou tem algum contacto planeado com a comunidade ou com as entidades políticas locais?

JMCM – Ainda estou naquela fase em que estou a pedir ajuda às pessoas para me indicarem quais os melhores contactos para eu poder fazer. Sabe, esta questão da pandemia virou tudo do avesso. Eu quando normalmente chego a um posto tenho a preocupação imediata de tentar falar com os colegas, com as entidades mais representativas – colegas estrangeiros, entidades portuguesas, etc. – fazer as chamadas e visitas de cortesia, neste caso às autoridades canadianas, etc. Até agora só consegui falar, e pelo telefone, com a chefe do protocolo da província do Ontário.

Neste momento – e por isso agradeço muito ao Sol Português estar aqui – tenho que me tornar visível para as pessoas também saberem que eu estou aqui, ao fim e ao cabo. Eu pretendo contactar todo o movimento associativo, reconhecer o trabalho que os rostos da comunidade têm feito também para a projecção desta comunidade e para a projecção de Portugal em si. Mas é como lhe digo: estou aqui há cerca de uma semana e meia, que foi quando saí da quarentena. Estou a dar a minha primeira entrevista aqui, ao Sol Português. Tenho já algumas ideias, já tenho alguns nomes, inclusive a nível camarário – acho que não é preciso dizer quem – pessoas de responsabilidade aqui, mas neste momento, digamos que estou a coligir informação para depois poder utilizar.

Mas respondendo no abstracto, tenciono visitar todas as pessoas – quem é quem aqui e mesmo quem não é quem. Pretendo estar com a comunidade, mesmo com as pessoas anónimas portuguesas, como verão. Eu sou – como já ouvi dizer aqui a alguém, e considero-me – "approachable", portanto as pessoas verão que não é difícil lidar comigo.

SP – Já vem com um plano de acção em mente? Há algo específico que tenha como missão mudar ou melhorar no Consulado?

JMCM – Não tenho a veleidade de pensar que vou inventar a roda. A roda já está inventada. Cada um tem o seu estilo. Eu tenho, ao fim e ao cabo, um passado junto das comunidades que fala por si. Pretendo basicamente manter a política de proximidade, de protecção da comunidade, na medida em que a protecção consular seja necessária, e a política de projecção de Portugal (...) a intenção de projectar Portugal aqui na minha área de jurisdição consular, que é grande parte do Ontário, Manitoba e o território de Nunavut. E entretanto, claro, obviamente colaborando com a embaixada de Portugal em Otava, na medida em que existe uma relação de colaboração entre todas as entidades diplomáticas e consulares aqui. Ao fim e ao cabo, sou mais um cônsul. Existem também os meu queridos colegas que estão a fazer o seu trabalho em Montreal e em Vancouver.

SP – Esteve à frente do grupo de trabalho que informatizou as redes consulares. Passados estes anos, com que olhos vê os métodos e sistemas actuais? Ainda há por onde melhorar?

JMCM – Há sempre muito por onde melhorar. Fui coordenador desse núcleo de informatização consular, na altura por despacho do sr. sub-secretário de estado adjunto e do ministro, que era o dr. Domingos Jerónimo, salvo erro – estamos a falar do ano de 1992-93 e eu entrei no ministério em 1992. Costuma dizer-se: "começar do zero", mas não, nós aí começámos abaixo de zero. Não sei se se recorda, mas a informática ainda era uma criança propriamente dita, ou pelo menos estava a entrar na adolescência, e tínhamos na altura, se a memória não me trai, 125 consulados para informatizar e o que havia nos consulados e também na secretaria de estado em termos informáticos era nulo – não existia absolutamente nada.

Foi um trabalho em que, com base na experiência e conselhos de empresas de consultoria informática que na altura o ministério contratou, com a experiência de colegas do ministério dos negócios estrangeiros na área consular e etc., começámos a ver o que é que poderíamos fazer na área consular – como é que poderíamos colocar os meios informáticos – na altura incipientes – ao serviço das comunidades, dos consulados e dos utentes dos consulados. Acompanhei o princípio e coordenei o princípio disto, depois deixei de acompanhar, obviamente.

Agora, há algo que a pessoa na rua sabe: na informática, o que hoje está "updated" amanhã está obsoleto. Se me pergunta se há muito por melhorar, há imenso para melhorar – inclusive agora com esta história da pandemia, temos de ser muito criativos. A proximidade das pessoas, a vinda ao consulado tem, de certa forma, de ser evitada. A informática aí desempenha um papel muito importante também. Nós temos aqui o "Consulado em Casa", que eu já vi, que é uma hipótese de as pessoas poderem também tratar dos seus assuntos consulares sem virem aqui fisicamente. Haverá ainda muito a fazer, mas a pandemia obriga-nos a estarmos todos os dias a raciocinar sobre isso.

SP – Ao terminarmos, há algo em especial que não tenhamos abordado e que gostaria de comunicar ou divulgar à comunidade?

JMCM – Estou a começar [a actividade]. Com o coordenador do ensino do português no Canadá, o dr. José Pedro Ferreira, fui entregar uns manuais a alguns distritos escolares, a algumas professoras e a algumas escolas, e isso já me está a dar uma boa proximidade, uma boa aproximação à realidade do Canadá. Aliás, acho que a defesa da língua portuguesa é essencial para um povo como nós. [Devemos] utilizar a língua como veículo e ferramenta de afirmação, de divulgação e de visibilidade.

Também já falei aqui com o responsável pelo Turismo, o dr. William Delgado, e embora o turismo esteja completamente parado no Canadá – que está – temos que pensar em como é que podemos manter de qualquer maneira Portugal, o nome de Portugal e o destino Portugal em banho-maria para quando as fronteiras forem [re]abertas. Acho que há números muito interessantes que já me foram ditos por alto pelo representante do Turismo sobre a apetência que os canadianos têm de visitar o nosso país. Não em termos absolutos mas em termos relativos, por exemplo, levam a palma e suplantam os americanos. É engraçado, há mais canadianos a ir a Portugal do que americanos – em termos relativos, repito, não absolutos.

O que gostaria de dizer à comunidade portuguesa é: "têm todo o direito de exigir o máximo de mim e eu, por mim, irei fazer tudo aquilo que me for possível para poder estar junto da comunidade e poder satisfazer as suas necessidades, os seus anseios. Assim a comunidade também me ajuda, não apenas a deixar-me ajudá-la, mas também a projectar Portugal nesta parte do mundo que tão bem os acolheu e os soube integrar.


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