PENA & LÁPIS


Alfred Lewis: Um escritor açoriano no Vale de São Joaquim, Califórnia

Por Diniz Borges
Sol Português

Já lá vão uns anos, 30 de Abril de 2002, desde que foi assinalado o centenário do poeta, romancista e jornalista açoriano Alfredo Luís, mais tarde conhecido como Alfred Lewis. Estamos à beira de celebrar 70 anos desde a publicação do seu mais célebre romance.

Uma das vozes pioneiras nas letras luso-americanas da Califórnia, Alfred Lewis dedicou-se à poesia, ao jornalismo, ao conto e ao romance, tendo publicado, com a chancela da prestigiosa editora americana Random House, no ano de 1951: Home is an Island. Uma proeza que pouquíssimos escritores emigrantes da sua geração, dos múltiplos grupos étnicos que compõem este "melting pot", terão tido.

Aos 19 anos, Alfredo Luís, tal como muitos outros açorianos, deixa a sua terra à procura de uma vida melhor em solo americano. E tal como outros emigrantes das ilhas dos Açores, e de muitas outras terras, é sua intenção aqui ficar três ou quatro anos e depois, com alguns trocos no bolso, voltar à sua ilha das Flores, à sua Fajãzinha. Estávamos em 1922 quando atravessou o Atlântico e o continente americano para se juntar, no condado de Merced, a um irmão que ali residia há sete anos.

Como muitos dos seus conterrâneos, amassou o pão que o nem o diabo queria amassar. Primeiro, foi apanhar batata doce do nascer ao pôr do sol – que não era, certamente, o mesmo pôr do sol que anos atrás havia descrito numa sala de aula da escola primária na sua freguesia natal e onde, com os incentivos do professor, fez com que tomasse o gosto pela escrita. O fraco conhecimento da língua inglesa levou-o a que nos primeiros anos tivesse de trabalhar naquilo que lhe aparecia, como por exemplo: ajudante de cozinha num restaurante português do norte da Califórnia.

A saudade pela sua terra, aquela saudade que os emigrantes vivem no seu quotidiano, especialmente nos primórdios de residência em terra distante, levou-o a escrever um texto para o Jornal de Notícias, cujo redactor era um conterrâneo seu da ilha das Flores, Pedro L. C. Silveira. Foi esse texto, que o levou a ser convidado a trabalhar para a Revista Portuguesa, editada por João de Simas Melo, um emigrante da ilha do Pico. Seria esse o começo de uma íntima ligação ao jornalismo português na Califórnia, tendo colaborado, especialmente com poemas inéditos, para o Jornal Português.

A sua paixão pela escrita levou-o a ler e a estudar alguns dos maiores nomes da literatura norte americana, particularmente pelas páginas da American Mercury. Assim, pouco a pouco, o homem que havia emigrado para os Estados Unidos com 19 anos, como se disse, sem saber falar inglês, começou também a escrever no idioma de Shakespeare. Tal como Joseph Conrad, o nosso Alfred Lewis, começa a publicar na sua língua adoptiva. Desde contos para a revista Prairie Schooner, a poesia para The Carmel Pine Cone, a textos circunstanciais para os jornais de Los Banos e Dos Palos, o nosso emigrante florentino está já consciente de que esta é também uma forma de se fazer comunidade e da importância de estarmos inseridos na sociedade americana: Foi ele próprio que o escreveu acerca da publicação de Home is an Island: "Acredito que este livro, embora de maneira modesta, tenha servido para tornar conhecido o povo açoriano a muitos de nós que só o recordamos por meio da referência que Melville fez ao baleeiro açoriano, no seu imortal Moby Dick".

Emigrou para os Estados Unidos em 1922, mas o então jovem escritor, provavelmente nem deu pelo que estava a acontecer nesse ano no mundo literário e no grande continente onde acabaria por ficar sepultado.

Na Europa, mais concretamente em Paris, James Joyce viu o seu romance Ulysses publicado por uma livraria cuja proprietária era uma americana expatriada, Sylvia Beach. Nesse mesmo ano o mesmo romance foi banido na Grã-Bretanha e os 500 exemplares enviados para os Estados Unidos foram confiscados pelas entidades alfandegárias americanas e posteriormente queimados.

Aqui nos States F. Scott Fitzgerald publica a sua segunda colectânea de contos: Tales of the Jazz Age e Sinclair Lewis publica o romance Babbitt. E um pouco por toda a Europa e Estados Unidos este é um ano profícuo para a literatura. T.S. Eliot publica o memorável poema The Waste Land e Hermann Hesse Siddhartha. Virgínia Woolf publica o romance Jacob's Room e e.e. cummings The Enormous Room. O filósofo Alemão Oswald Spengler publica O Declínio do Ocidente e na Grã Bretanha Katherine Mansfirld dá à estampa a sua colecção de contos Garden Party.

Foi ainda em 1922 que o poeta Claude Mckay publicou um volume de poesia intitulado Harlem Shadows, o qual despontou o movimento artístico afro-americano conhecido como The Harlem Renaissance—O Renascimento de Harlem.

Em Portugal o ano em que o nosso poeta florentino deixa a sua terra é marcado, no campo literário, por várias publicações e acontecimentos momentosos para a literatura. Camilo Pessanha publica Clepsidra; Júlio Dantas, Arte de Amar; António Feijó, Sol de Inverno; Aquilino Ribeiro, Estrada de Santiago; Armando Cortes Rodrigues Ode a Minerva e Eugénio de Castro vê sair três dos seus livros: Tentação de São Mácaro, Canções desta Negra Vida e Cravos de Papel. E foi em 1922, que na Azinhaga, nasceu o que viria a ser o nosso primeiro Nobel da literatura, José Saramago.

Mas esse ano de mudança na vida do jovem emigrante açoriano foi ainda um ano marcado pela violência na Índia, pelas afirmações do Papa Pio XI contra o vestuário das mulheres, pelo êxodo de negros americanos do sul para o norte dos Estados Unidos, pela dedicação do memorial a Abraham Lincoln em Washington D.C., pela formação oficial por Lenin da União Soviética e pela utilização na França, pela primeira vez em crianças, da vacina contra a tuberculose, doença que mais tarde sofreria Lewis

Um dos outros anos marcantes na vida de Alfred Lewis, foi, indubitavelmente, o ano em que a Random House publicou o seu Home is an Island. Também aí o nosso florentino esteve em óptima companhia. É que nesse mesmo ano de 1951, William Faulkner publica The Colleted Stories of William Faulkner; Wallace Stevens dá à estampa o livro de poesia The Auroras of Autumn; William Carlos Williams publica a sua autobiografia; Truman Capote The Grass Harp; J. D. Salinger The Catcher in the Rye; Herman Wouk The Caine Mutiny; Adrienne Rich A Change of World; William Styron Lie Down in Darkness; Robert Frost e Carl Sanberg, ambos saem com uma nova colectânea de poesia.

Dos livros mais vendidos nesse ano nos Estados Unidos há que registar: From Here to Eternity de James Jones e Return to Paradise de James Michener. Em Portugal, Natália Correia publica o livro de viagens, Descobri que Era Europeia; Miguel Torga o livro de contos O Fogo e as Cinzas; Eugénio de Andrade Palavras Interditas; Sebastião da Gama Campo Aberto; Alves Redol Os Homens e as Sombras; Teixeira de Pascoaes Os Dois Jornalistas, entre outros.

Foi também em 1951 que Milosz Czeslaw abandonou a Polónia e começou a escrever no exílio e nesse mesmo ano morreram alguns nomes conhecidos da literatura mundial e norte-americana tais como: Anfré Gide e Sinclair Lewis. Em 1951 o prémio Nobel da literatura foi para o sueco Pär Lagerkvist.

Assim, os anos de mudança na vida do nosso escritor açoriano foram marcados por eventos graúdos na vida literária europeia e americana. Embora não se saiba ao certo se Alfred Lewis estava a par de todos estes acontecimentos, poder-se-á afirmar que o seu contacto com as letras dos Estados Unidos, através das revistas literárias que recebia e com as quais colaborava, davam-lhe uma panorâmica da criatividade literária que se vivia no país adoptivo. Ele próprio afirmaria: "aprendi do melhor que ofereciam os autores americanos e ingleses, homens e mulheres que mais tarde haviam de ganhar o Prémio Nobel".

O seu gosto pela leitura e o que disse ser: "o prazer de ler coisas boas, de conhecer o estilo, de aprender a reconhecer a música de uma frase" tornam o nosso escritor luso-americano num homem consciente dos vários géneros e dos movimentos literários que ocorreram ao longo da sua vida de 75 anos. É que Alfred Lewis faleceu, curiosamente, no dia 10 de Junho de 1977, poucos anos depois do dia ser decretado não só Dia de Camões e de Portugal, mas também o Dia das Comunidades Portuguesas.

Um escritor de emoções que apesar de nunca ter voltado às suas ilhas de origem aqui viveu com elas no coração e foram elas, e os seus conterrâneos luso-californianos, os elementos fulcrais, as pedras basilares, de toda a sua criatividade literária.


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