PENA & LÁPIS


Correspondente de Portugal:

Orgulhosamente Dependentes

Por Hélio Bernardo. Lopes
Sol Português

Neste meu texto e neste momento, quando o inicio, quero imaginar que estou a ser lido por uma senhora. E também que nos encontrávamos na Antárctida, com bom tempo, céu limpo, e com o Hemisfério Sul a ser atingido pelos raios solares durante todo o dia. Lamentavelmente, a minha amiga perdera a sua mochila, dispondo agora os dois apenas da minha.

A fome começara, no entretanto, a dar sinais de si, pelo que a minha amiga sugeriu que parássemos, a fim de comer alguma coisa. Malandrecamente, respondia-lhe: eu dou-te do que tenho, mas... e tu, o que é que é que está disposta a dar? Percebe-se o que eu estaria ali a sugerir, devendo a leitora partir do princípio de que eu não arredaria pé do meu propósito. De modo que pergunto: se eu processe assim, poderia a minha companheira ter-me, de facto, como um amigo? Claro que não! O que eu estaria a ser era um malandro, um escroque e um abusador da situação precária da minha amiga. Eu até estaria na disposição de lhe oferecer um chouriço, mas se ela me desse um porco.

Deitei mão desta brincadeira para ilustrar a nossa relação com os Estados Unidos, normalmente apontados como um aliado. Em contrapartida, a China é apenas um parceiro comercial, mas não um adversário. Simplesmente, os Estados Unidos, através do seu embaixador em Portugal, fizeram já saber aos nossos governantes que Portugal se deve afastar da China. E mostrou-se como um verdadeiro americano: Portugal tem de escolher entre os aliados e os chineses. E aqui a palavra "aliados" significa Estados Unidos, ou todos os Estados que já aceitaram esta chantagem norte-americana.

Esta ameaça, como se sabe, gira ao redor da nova rede 5G, pelo que se a Huawei vier a entrar naquela rede, os Estados Unidos ameaçam mudar a relação na Defesa. Claro está que aquela historieta dos riscos para a segurança do Estados Unidos não passa de uma treta, o que se percebe facilmente com o receio norte-americano de ver o seu gás comprometido com a posse da exploração do porto de Sines pelos chineses.

No meio de tudo isto, o tal mecanismo de que eu deitaria mão para com a minha colega, ou seja, a chantagem e a ameaça: dizem-nos hoje que se Portugal não colocar os chineses de lado, a Mota-Engil poderá sofrer sanções... É a voz de um velho aliado, que outra coisa nunca foi que o referido pelo líder espiritual do Irão: criador de pobreza no mundo, rapinador das riquezas do povos de todo o mundo, gerador de guerras e conflitos por toda a parte, corruptor profissional de políticos, etc..

Recordando certa expressão de Salazar, bem se pode hoje dizer que Portugal se encontra orgulhosamente dependente. A grande vantagem, é que temos a democracia, embora ainda longe da norte-americana de Trump, que é a grande referência mundial neste domínio. Estamos, pois, de parabéns: orgulhosamente dependentes e democráticos.


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