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Canadá:

Março termina com número recorde de infectados com Covid-19 e novas medidas para conter alastramento e apoiar empresas e privados

A fechar o mês de Março, o Ontário anunciou na segunda-feira (30) mais 351 casos confirmados de pessoas infectadas com Covid-19 na província e outros 260 no dia seguinte, terça-feira (31), um aumento que as autoridades atribuem em parte ao maior número de testes que têm vindo a realizar.

A nível nacional, o número total de casos confirmados ou suspeitos atingia no fim do mês 7465, a maior parte dos quais no Quebeque (3430), com 1706 na província do Ontário, continuando a aumentar diariamente.

Ao meio-dia de segunda-feira entrou também em efeito uma medida anunciada dias antes pelo Primeiro-ministro Justin Trudeau que proíbe as pessoas que demonstrem sintomas da Covid-19 de viajar em comboios ou aviões de circulação interna, e que deverá ser feita cumprir pelas companhias aéreas e ferroviárias nacionais.

Entretanto, e nesse mesmo dia, a transportadora aérea Air Canada anunciou o despedimento temporário de 16.500 funcionários em função da crise provocada pela redução no número de voos.

Na sua mensagem diária à nação, Justin Trudeau anunciou que as empresas ou entidades sem fins lucrativos que sofram uma quebra igual ou superior a 30% nos seus rendimentos devido ao Covid-19 vão poder ter acesso a uma verba que subsidia até 75% do salários dos funcionários.

O Primeiro-ministro advertiu no entanto que os que "tiverem possibilidade de pagar os restantes 25% que não são cobertos pelo subsídio devem fazê-lo" e "se acham que este é um sistema do qual se possam aproveitar ou abusar, não o façam".

Enquanto isso, o governo do Ontário anunciou que iria deferir as prestações dos empréstimos concedidos ao abrigo do Programa de Auxílio Financeiro a Estudantes (OSAP, na sigla em inglês) e as redes escolares e de professores da Região de Peel começaram a contactar os pais para determinar quantos alunos não têm em casa dispositivos como computadores ou tablets que lhes permitam participar das aulas administradas pela Internet.

O ensino à distância por este meio está previsto arrancar já esta segunda-feira (6), uma vez que foi anunciado o prolongamento do período de encerramento das escolas até ao fim do mês de Abril.

Projecta-se o regresso dos professores às escolas no dia 1 de Maio e dos alunos no dia 4, mas tal poderá voltar a ser adiado caso a situação o exija.

O governo do Ontário, que já tinha fechado os parques provinciais, anunciou ainda o encerramento de "todos os espaços ou instalações de recreio ao ar livre, quer comuns, partilhados ou públicos", o que abrange toda uma série de áreas de lazer, desde praias e parques a jardins e outros espaços verdes, inclusive os que são designados para passear cães sem trela.

Foi entretanto concedida uma moratória pelo período de seis meses no pagamento das prestações de empréstimos, livre de juros, até 30 de Setembro.

A morte do nono residente do lar de idosos Pinecrest, em Bobcaygeon, no Leste do Ontário, veio também marcar esse dia, suspeitando-se que as mortes ali ocorridas na semana passada se devessem à Covid-19, tendo o número aumentado 24 horas depois para 13.

Em Toronto, o município anunciou multas de 750 a 5000 dólares para as pessoas que continuarem a insistir em usar o equipamento e as instalações nos jardins municipais, incluindo os parques infantis que foram encerrados.

Novas medidas de contenção da
doença e apoios a empresas e privados

O mês de Março fechou com o anúncio do governo federal de que foram postos de parte 2.000 milhões de dólares para a compra de material de diagnóstico, tratamento e protecção, incluindo respiradores, batas e máscaras para os funcionários do serviço de saúde.

Foi ainda anunciado que mais de 3.000 empresas nacionais ofereceram a sua perícia e colocaram-se à disposição para ajudar a colmatar as lacunas de equipamento de protecção, assim como para fornecerem outros materiais necessários.

A ministra dos Serviços Públicos e Aquisições, Anita Anand, classificou este esforço de "agressivo e pro-activo", como forma de acederem "tanto a linhas de abastecimento já existentes como a outras novas", resultando na encomenda de "milhões de provisões essenciais na luta contra a Covid-19".

As empresas do ramo da saúde responderam ao apelo lançado pelo Primeiro-ministro a 20 de Março e foram já assinados compromissos de compra com várias, enquanto que empresas doutros ramos, incluindo Magna, General Motors, Toyota, Ford, Shell e Home Depot, têm vindo a doar material de protecção, de segurança e desinfecção.

"À medida em que a situação evolui, o governo canadiano continua a trabalhar com a indústria nacional para encontrar soluções que apoiam os profissionais da saúde e que protegem a saúde e a segurança de todos os canadianos", afirmou o Primeiro-ministro.

A par destas medidas, foram ainda disponibilizados 50 milhões de dólares para o Next Generation Manufacturing Supercluster, projecto que visa reunir os conhecimentos e as capacidades de empresas de tecnologia e de produção para o fabrico de uma nova geração de produtos e processos.

O objectivo é precisamente desenvolver e aumentar a capacidade de produção de novas tecnologias, equipamento e produtos relacionados com a saúde, o que neste caso se espera venha a ser aplicado em testes, vacinas, terapias e tratamentos para a Covid-19.

O ministro da Inovação, Ciência e Indústria, Navdeep Bains, elogiou este "esforço concertado", afirmando que as medidas anunciadas "irão ajudar a fortalecer a resposta" à pandemia e a "preparação para responder a desafios de saúde no futuro".

Entretanto, o ministro da Defesa, Harjit Sajjan, afirmou que as forças armadas canadianas têm 24.000 membros activos e das reservas prontos a responder consoante for necessário, e o chefe do Estado-Maior da Defesa, general Jonathan Vance, informou que há tropas isoladas para se manterem "tão saudáveis quanto possível" para poderem agir, caso seja necessário, destacando que a capacidade de resposta é "escalável" – isto é, tem um elemento de flexibilidade que permite ajustar-se às necessidades.

A nível do Ontário, e ao anunciar multas entre 750 e 100.000 dólares e até um ano de cadeia, o governo provincial confirmou que a sua paciência chegou ao fim com aqueles que não cumprem as ordens de isolamento social.

A estas medidas de dissuasão aplicadas a particulares juntam-se as penalidades para os directores ou funcionários de empresas designadas não-essenciais e que transgridam a ordem de encerramento, assim como para os que tentam extorquir o público ao cobrarem preços elevadíssimos – coimas até 500.000 dólares e um ano de cadeia, podendo a própria entidade corporativa incorrer numa multa até 10 milhões de dólares.

A par destas medidas, surgiu também a obrigatoriedade de que qualquer pessoa que seja parada por um agente da polícia ou por funcionários empossados pelas autoridades policiais ou municipais para o fazer tenha de se identificar.

O governo provincial revelou ainda alguns dos dados recolhidos em relação ao número de casos de Covid-19 registados no Ontário desde 15 de Janeiro, ficando-se assim a saber que cerca de metade estão a ser tratados em unidades de saúde de Toronto e arredores, e que a infecção tanto afecta homens como mulheres pois as percentagens de doentes de ambos os sexos são essencialmente iguais.

Cerca de 25 por cento das pessoas tinham viajado nas duas semanas antes de adoecerem e apenas 10 por cento tinham tido contacto com alguém a quem já tivesse sido identificada a doença, enquanto que 17% nem viajaram nem tiveram contacto próximo com ninguém infectado.

Em cerca de 47 por cento dos casos a forma como haviam contraído a doença estava por determinar e, de todos os infectados, 11 por centro necessitaram ser hospitalizados.

Segundo o doutor David Williams, director dos Serviços Médicos do Ontário, o aumento súbito no número de casos provavelmente ficou a dever-se ao regresso das pessoas que viajaram durante as férias de Março, o que, dado o período de incubação da Covid-19, levaria a que esse salto se reflectisse duas semanas depois.

"Contamos que o número de hospitalizações e de ventiladores venha a aumentar proporcionalmente nos próximos dias", referiu

O responsável pelos Serviços Médicos provinciais repetiu o alerta que já tinha sido dado dias antes no sentido de que o público não saia da cidade para se refugiar nas suas casas de férias ou procurar guarida em regiões rurais ou isoladas onde não existe a mesma capacidade para tratar deste tipo de situação, muito menos para dar resposta ao potencial influxo de utentes durante a época baixa.

O Primeiro-ministro do Ontário, Doug Ford, confirmou entretanto o encerramento das escolas durante pelo menos mais um mês, dizendo-se preparado para prolongar este prazo como forma de "proteger as nossas crianças, caso seja necessário".

Doug Ford anunciou ainda que os exames de fim de ano nas instituições de ensino pós-secundário financiadas pelo erário público vão estar disponíveis online, tendo sido tomado medidas "que preservam a privacidade dos estudantes" ao mesmo tempo que se assegura "a integridade da avaliação académica".

O governo provincial anunciou uma verba de 25 milhões de dólares para as escolas superiores técnicas, universidades e institutos indígenas, para ajudar a fazer face a despesas derivadas da Covid-19, nomeadamente desinfecção, aquisição de equipamento e prestação de apoio psicológico.

Enquanto isso as principais direcções escolares da Área da Grande Toronto começaram a anunciar estarem quase prontas para voltar ao ensino liderado por professores a partir de 6 de Abril, por meios electrónicos.

"Estamos cientes de que talvez venhamos a sentir alguma turbulência após a descolagem, mas contamos poder apoiar e chegar a todos os alunos nos próximos dias", afirmou o director de Educação da Direcção Escolar de Peel, Peter Joshua.

A nível da autarquia torontina, a Comissão de Transportes Públicos de Toronto (TTC, na sigla em inglês) passou a pedir aos utentes que evitem nove rotas que considera "muito movimentadas" durante as horas de ponta matinais, sugerindo que viagem depois das 7h30 a fim de aliviar o congestionamento e manter a necessária distância.

Posteriormente, seria anunciado um reforço no número de autocarros em várias carreiras, por forma a que não circulem tão cheios.

Tal como já aconteceu com alguns funcionários da TTC, também o Departamento da Polícia de Toronto anunciou terem sido identificados casos de Covid-19 nas forças da ordem, neste caso um total – na altura – de cinco agentes que testaram positivo, um na esquadra principal, três na esquadra 14 e um na 23.

Como forma de apoio aos funcionários que trabalham em sectores considerados essenciais, a Câmara abriu quatro jardins-escola de emergência, que passaram a funcionar 24 horas por dia, sete dias por semana, acolhendo 705 crianças de 487 famílias.

Cada um destes centros pode acomodar até 30 crianças de cada vez, por forma a respeitar as normas de distanciamento.

A nível de actividades de grupo, o governo municipal anunciou o cancelamento de todos os eventos públicos agendados até ao fim de Junho, decisão que será avaliada a cada duas semanas e, caso necessário, prolongada.

Além do cancelamento de eventos já aprovados, a autarquia anunciou a suspensão de outros como o Doors Open, o Festival de Artes Indígenas, o desfile Pride Toronto e o festival de música NXNE, até que haja um pronunciamento das autoridades médicas em contrário.

Isto implica também a suspensão da Parada do Dia de Portugal, no início de Junho, tendo entretanto a comissão ad hoc que dirige a Aliança dos Clubes e Associações Portuguesas do Ontário (ACAPO) anunciado o adiamento dos eventos que estavam planeados para a Semana de Portugal 2020, que estava prevista abranger actividades várias entre 2 de Maio e 28 de Junho.


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