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Covid-19:

Presidente da Câmara de Mississauga faz ponto da situação

Bonnie Crombie mostra-se esperançosa face ao início do diálogo entre municípios e governo federal a propósito do eventual rescaldo da pandemia

Por João Vicente

Sol Português

Tal como Toronto, também a Câmara Municipal de Mississauga decretou na pretérita segunda-feira (23) o estado de emergência, sendo o objectivo conceder à autarquia uma série de poderes que permitam responder de forma mais rápida e adequada aos desafios relacionados com a propagação do vírus Covid-19 e as repercussões daí resultantes.

"Declarar uma emergência conjuntamente com a Região de Peel e a Província do Ontário vai dar-nos a flexibilidade de que precisamos como município para gerir a situação", afirmou a presidente da Câmara, Bonnie Crombie, que num comunicado à imprensa considerou imperativo estarem "prontos a agir quando necessário" e "sinalizar a todos os moradores que esta é uma situação inédita que é preciso levar a sério".

Na passada sexta-feira e em entrevista ao jornal Sol Português a edil fez o ponto da situação e destacou estarem a concentrar-se na "contenção do contágio por forma a atenuar a curva" – o número de infecções registadas – pelo que o município aderiu à proibição de ajuntamentos e à directiva provincial que decreta o encerramento de todos os locais de trabalho que não forem considerados essenciais.

"Ao princípio a directriz interditava [também] os encontros com mais de 50 pessoas, mas a verdade é que até um grupo de 10 já é grande demais", salientou Bonnie Crombie ao lembrar que o próprio edifício da Câmara Municipal de Mississauga foi encerrado e todo o pessoal incentivado a trabalhar de casa, com a excepção dos funcionários essenciais, tais como os que trabalham na prestação dos serviços de água, electricidade e gás, ou de transportes públicos.

De igual modo, as áreas de piquenique, abrigos e outras instalações nos jardins, tais como os parques infantis, as bibliotecas e outras instalações consideradas não-essenciais foram encerradas de imediato, e foram cancelados os campos de férias de Março sob a alçada da Câmara.

Aproveitando a oportunidade para elogiar os empregados das lojas e supermercados que continuam a trabalhar para bem de todos, a edil referiu que quando foi consultada pelas grandes superfícies a propósito da necessidade de contratarem mais funcionários para darem resposta às necessidades do público, só teve de os direccionar para os restaurantes que tiveram de fechar e cujos empregados procuravam emprego.

Para todos os outros, considera que o apoio do governo federal à "continuidade dos negócios", assim como aos proprietários de pequenas empresas e aos desempregados foi muito bem vindo.

Segundo revelou, a última reunião da Assembleia Municipal, na semana anterior, foi meio presencial, meio virtual, com metade dos vereadores a participarem de casa, deixando um lugar vazio entre cada um dos que se encontravam presentes para poderem respeitar as regras de distanciamento social de se manterem afastados pelo menos dois metros.

Contudo, destacou, daqui em diante todas as reuniões serão exclusivamente virtuais.

Bonnie Crombie revelou que foram já tomadas medidas que visam ajudar os residentes de Mississauga a enfrentar a crise financeira provocada pela Covid-19, nomeadamente a oportunidade dos proprietários de propriedades deferirem o pagamento das prestações do imposto predial durante três meses (Abril, Maio e Junho), sem juros, o que, a seu ver, "vai ser um grande alívio a curto prazo".

Também o pagamento da tarifa relativa à água pluvial vai ser deferido pelo mesmo período de tempo, não serão aplicadas tarifas adicionais pelos atrasos no pagamento da taxa de água e de esgoto, e o sistema de transportes público passou a ser gratuito, com entrada nos autocarros pelas portas traseiras para evitar o contacto com o condutor e dar mais oportunidade às pessoas para se espalharem e cumprirem com as regras de distanciamento social.

Além disso deixaram de ser aplicadas as regras relativas à necessidade de pagar para estacionar nas ruas, incluindo com respeito ao tempo-limite e as restrições que eram impostas entre as 02h00 e as 06h00, desde que não bloqueiem as bocas de incêndio nem impeçam a circulação do trânsito.

A propósito dos trabalhadores municipais que continuam a garantir a prestação de serviços designados como essenciais, a autarca refere que estes "seguem as regras e directrizes emanadas do município, do sindicato, etc." no que respeita às "distâncias, máscaras, luvas e protecções de que necessitam", garantindo que "tudo isso deve estar a ser implementado" pois, como fez questão de salientar, a Câmara é "um excelente empregador" e segue "todos os protocolos para proteger os funcionários".

Quando questionada até que ponto será possível continuar a fazê-lo face ao alerta para a falta de máscaras N95 (capazes de filtrar partículas do tamanho de vírus) até para médicos e enfermeiros que estão na primeira linha de combate à pandemia, a presidente da Câmara de Mississauga é peremptória.

Como refere, se de início houve uma corrida às máscaras por parte de todas as entidades e departamentos oficiais, a certa altura esse esforço foi centralizado na Região de Peel, vindo posteriormente a ser centralizado ainda mais a nível provincial.

A autarca explica que isto se deveu ao facto de haver decisões éticas a tomar com respeito à distribuição dessas máscaras, de acordo com a necessidade e o contacto com as pessoas mais doentes, questionando retoricamente, a título de exemplo: "será que ficávamos com elas só porque as encontrámos em Mississauga, em vez de irem para o hospital Sick Kids porque não as têm?".

Tal como outros representantes de vários níveis de governo, também a edil de Mississauga expressa a sua frustração com a desobediência de algumas pessoas aos pedidos de isolamento, assim justificando a necessidade de encerrarem as instalações nos jardins públicos pois ainda no dia anterior tinha reparado que nelas se continuavam a congregar grupos de pessoas.

"Não queremos ter a mão pesada e ir lá dizer que estamos a encerrar o parque infantil se não houver necessidade, mas constatámos que as pessoas estavam a usá-lo como ponto de encontro e havia grupos de 50 pais com os filhos, o que além de não ser permitido é um comportamento irresponsável que põe toda a gente em risco", explica a autarca.

Como destaca, o propósito da proibição é proteger as pessoas com problemas de saúde e por isso mais susceptíveis de adoecerem gravemente com o vírus da Covid-19, como pode acontecer por exemplo, e por ironia, aos pais e familiares idosos das pessoas que infringem as regras de distanciamento social, bem como a outros familiares, amigos ou vizinhos que estejam nos grupos de maior risco, como as pessoas com o sistema imunitário debilitado ou as grávidas, e que por eles podem ser infectados.

Em resposta às vozes que sugerem que talvez não se tenha agido com a rapidez necessária ou feito o suficiente para travar a propagação do vírus, Bonnie Crombie afirma que tudo tem sido feito "gradualmente, se necessário e quando necessário".

Pede por isso que todos tenham tolerância com aqueles que têm de ir e vir dos seus empregos e fazer as suas vidas pois, como ressalva, o Canadá "não é uma ditadura, é uma democracia, e as pessoas continuam a precisar de chegar ao trabalho para nos servirem".

Dito isto, a autarca considera que as próximas medidas a tomar irão apertar o cumprimento das regras em torno do distanciamento social pois, como refere, ela própria já teve de se aproximar de um grupo de jovens que jogavam basquetebol e pedir para que não o fizessem.

Na sua avaliação, é dever de todos os cidadãos chamarem à atenção quem não cumpre com as regras e no caso das empresas não-essenciais sugere que telefonem para o 311 e denunciem as que infringirem a lei.

Questionada sobre o que prevê a curto prazo, prognostica que a situação "vai piorar antes de melhorar", uma vez que muita gente se ausentou nas férias de Março e só agora regressou, pelo que vai haver um período em que o número de casos vai continuar a aumentar, dado que "só quando toda a gente regressar a casa e ficar em casa é que podemos acabar com isto".

A Região de Peel tem três locais onde se realizam testes de despistagem da Covid-19 mas os resultados só se sabem cinco a sete dias depois pelo que a seu ver este período, bem como o aumento no número de testes realizados, contribuiu para o ligeiro aumento no números de infectados que se registava à altura em que se realizou esta entrevista.

Se nessa terça-feira (24) os casos de Covid-19 confirmados em Mississauga eram 36, no sábado (28) chegavam aos 110.

A edil mostrou-se esperançosa de que em meados de Abril o número de infectados comece a diminuir mas isso, realça, só acontecerá como resultado da auto-disciplina e do civismo da população no cumprimento das regras de distanciamento social, de higiene e de outras directrizes emanadas dos vários níveis de governo.

Bonnie Crombie relatou com alegria que já se tinham iniciado conversações entre os presidentes das Câmaras das 23 maiores cidades do país e a vice primeira-ministra Chrystia Freeland sobre a "fase de recuperação".

Segundo indicou, essa recuperação vai ter muito a ver com a "liquidez", isto é, a disponibilidade de verbas para dar resposta às necessidades, mas para já põe-se outro problema maior que é a lei que proíbe as autarquias de terem défices orçamentais o que, como realça, neste momento "não há como evitar".

Para além da vice primeira-ministra, os autarcas mantiveram ainda conversações com o ministro das Finanças do Ontário, Rod Phillips, e com o ministro dos Assuntos Municipais, Steve Clark, aos quais Bonnie Crombie reconheceu empenho ao afirmar que continuam abertos a prestar auxilio aos municípios, mas principalmente ao sistema de saúde.

Ao longo desta entrevista Bonnie Crombie tossiu várias vezes pelo que achámos por bem perguntar-lhe se tinha alergias ou se já tinha feito a despistagem da Covid-19, caso desconfiasse de algo mais grave.

Com uma gargalhada, a líder da Câmara Municipal de Mississauga respondeu que se tratava de uma tosse teimosa que já a afligia desde Novembro e que se vai prolongando devido a problemas de sinusite, mas que está de perfeita saúde à excepção disso.

A autarca destacou a existência de uma série de recursos para os residentes na cidade e na Região de Peel a propósito da Covid-19, podendo obter mais informações nos portais electrónicos peelregion.ca/coronavirus e mississauga.ca/coronavirus.

Quem pretender determinar se poderá estar infectado – os sintomas variam entre os tão ligeiros que passam despercebidos e os graves ao ponto de poderem ser fatais – o governo provincial tem uma ferramenta para auto-diagnosticação, caso os sintomas não sejam fortes, e que podem acessar em ontario.ca/coronavirus.

Entretanto, quem suspeitar que está infectado e resida na Região de Peel (Brampton, Caledon ou Mississauga) deve telefonar para o 905 799-7700 ou, caso tenha sintomas graves, telefonar de imediato para o 911.

A presidente da Câmara de Mississauga deixa ainda um apelo final a todos para que "fiquem saudáveis, fiquem em casa", mantendo-se distantes dos outros e assim permanecerem "seguros".


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