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Em final de mandato:

"Vejo cada vez mais marcas portuguesas na sociedade canadiana", afirma Luís Barros

Em vésperas da partida, o cônsul-geral cessante exprime orgulho pelo sucesso dos portugueses no Canadá e considera que "é tempo de a comunidade olhar para si mesma com outros olhos"

Por João Vicente
Sol Português

O cônsul-geral de Portugal em Toronto, Luís Barros, está a terminar o seu mandato e prepara-se para deixar o Canadá rumo a um novo posto e novos desafios pessoais.

Em entrevista exclusiva para o jornal Sol Português, o diplomata, cuja carreira já o levou, no desempenho de diversas funções, a países tão diversos como a França, a Rússia, a Holanda e Cabo Verde, dá-nos uma breve panorâmica da sua passagem por terras canadianas.

Das suas palavras ressalta sobretudo o seu orgulho no sucesso dos portugueses neste país, como comunidade que se soube afirmar e cujas "marcas", afirma, são cada vez mais evidentes no seio da sociedade de acolhimento.

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Sol Português – Qual foi o primeiro contacto que teve com a comunidade portuguesa no Canadá e qual foi a impressão com que ficou dela na altura?

Luís Barros – Tive vários primeiros contactos com a comunidade: quando acompanhei a visita do Presidente Jorge Sampaio. Depois de assumir funções tive vários primeiros contactos: a primeira vez que falei com pessoas da comunidade, a primeira vez que fui a uma associação, etc.

Gosto de destacar a conversa que tive com uma senhora que veio ao Consulado, dias após eu ter chegado e que não sabia quem eu era. Muito serena e com muita generosidade, partilhou comigo o seu percurso de vida: como tinha três empregos quando chegou, quantos cêntimos ganhava por hora, enfim, como a vida era difícil. Perguntei-lhe: "– E os seus filhos?". Com um grande sorriso de orgulho respondeu-me: "– Todos formados".

Estou muito grato a essa cidadã anónima como a todos os outros que com muita generosidade partilharam comigo os seus percursos e o sucesso das suas vidas, mas também dos seus problemas. Foram milhares com quem falei e a sua abertura permitiu-me ter uma ideia precisa da riqueza da nossa comunidade.

Falei com gente de todas as áreas, com trabalhadores e empresários, com artistas plásticos e professores, com jovens e idosos, com estudantes e músicos, com profissionais de tudo.

Temos gente do Continente, da Madeira e dos Açores, sim, mas também de todas as Áfricas, de Macau, na China, de Goa, na Índia, de França, do Brasil, da Venezuela e da Alemanha. Todos portugueses e orgulhosos de o serem. Gente que lutou e venceu, gente que trabalhou e conseguiu, com capacidade de trabalho, inteligência e generosidade. Foi essa a primeira impressão e foi essa impressão que consolidei ao longo do tempo.

S.P. – Em que é que a sua vinda como cônsul para Toronto lhe mudou a sua impressão inicial da comunidade?

L.B. – Por razões pessoais e familiares o Canadá sempre esteve presente na minha vida e desde muito jovem que tenho tido referências, impressões, da nossa comunidade. Depois, estive aqui primeiro a preparar e depois a acompanhar a visita do Presidente Jorge Sampaio, em 2001, que foi muito marcante nas comunidades do Canadá todo – de Vancouver a São João da Terra Nova (prefiro usar o nome que nós portugueses lhe demos há 500 anos).

Claro que não cheguei cá sem ideias. Na minha profissão temos de estar atentos aos fenómenos sociais, às pessoas, antes de tudo. O que vi – e tenho-o dito a Lisboa nos meus relatórios e aos eleitos portugueses que vêm cá – é que a imagem que havia da comunidade, quer em Portugal quer aqui no Canadá, não correspondia ao que eu encontrei imediatamente quando cheguei. Esta comunidade deu um salto extraordinário que não era visível.

Quando me perguntavam quais os seus problemas eu dizia que o primeiro é a imagem ultrapassada que se tem dela, o segundo é um défice de reconhecimento do seu desempenho e o terceiro é uma avidez para dar conteúdo à relação que tem com Portugal. Há franjas, segmentos, com problemas específicos, mas o grosso da comunidade tem os problemas que têm os outros membros da sociedade canadiana a que pertencem. O que é sinal de boa adaptação e integração.

Lembro que o Presidente Sampaio disse aqui: "Sede bons canadianos para serdes bons portugueses". Pois foi isso o que fizeram. Não menos portugueses por serem canadianos nem menos canadianos por serem portugueses.

O que eu vi foi uma comunidade com gente em todas as áreas, com três luso-canadianos no Parlamento provincial um dos quais ministro das Finanças, uma vereadora em Toronto (agora vice-presidente da Câmara) um em Cambridge e outro em Brampton, e um presidente de Câmara no Ontário e outro em Manitoba. Uma comunidade com portugueses em lugares importantes na direcção de grandes empresas e na administração pública, com grandes trabalhadores e grandes sindicalistas, com grandes atletas e magistrados, com académicos que ganham prémios e altas patentes militares, gente nas forças de segurança e nas artes, grande gente em tudo! Enfim, vi gente boa bem integrada e que se afirma na sociedade canadiana a que pertence com orgulho nas suas raízes. Não os ouviu já responderem-me com força e emoção quando lhes pergunto se têm orgulho de serem luso-canadianos? – "Yes! And proud of it!".

É uma comunidade com uma forte tradição associativa, que conheço porque estive em quase todas as associações de Toronto e arredores de Toronto, mas também no resto da Província, em Kingston, Sault St. Marie, Leamigton, Chatham e Kitchener. E ainda na minha outra Província, Manitoba. O tempo foi curto para ir a todas, mas sei que aquelas onde não fui compreenderam que não tivesse podido ir.

É – e isso é muito importante, ou mesmo único – uma comunidade que se estuda a si mesma. O professor Carlos Teixeira – que não conheço pessoalmente – é um grande exemplo, mas conheci jovens brilhantes que continuam esses estudos, entre os quais dois estudantes de doutoramento que estão a escrever dissertações sobre a comunidade.

É, finalmente uma comunidade que se esforça por valorizar e reconhecer os portugueses e luso-descendentes que se distinguiram, o que merece todo o apoio: é tempo de a comunidade olhar para si mesma com outros olhos.

Claro que conseguem, conseguiram e vão conseguir. Vejo cada vez mais marcas portuguesas na sociedade canadiana e isso é bom e significa que a comunidade se afirma, por um lado, e por outro que o que a comunidade traz para o Canadá tem qualidade, que é reconhecida pelos outros.

Esforcei-me por dar uma imagem do que eu vi que a comunidade era, uma imagem actual. Creio ter conseguido: um dos maiores prazeres que tive foi, no final da visita do Senhor Primeiro-Ministro, um colega alto responsável que vinha na Comitiva e que como eu esteve aqui com o Presidente Sampaio ter-me dito, com respeito e admiração: – "Nunca pensei que a Comunidade tivesse dado este salto".

S.P. – Dos sítios por onde já passou e das posições que já ocupou, qual considera o período e o local mais marcante para si, quer pessoal, quer profissionalmente, e porquê?

L.B. – Todas as minhas experiências foram enriquecedoras, e eu estou grato por todos os meus postos, que me permitiram viver em tantos países diferentes e conhecer tão bem tantas sociedades diferentes: a francesa, a russa, a holandesa, a cabo-verdiana e a canadiana. Cada posto foi importante, do ponto de vista pessoal e profissional.

S.P. – É possível que com a redução do número de funcionários se tenha criado uma situação um pouco mais difícil de gerir do que seria normal. Tendo em conta esse e outros factores, como caracterizaria a sua passagem por este posto consular de Toronto?

L.B. – Recebi um Consulado-Geral que tinha acabado de perder metade dos funcionários e que serve uma comunidade de 324.000 (de acordo com o Censo Canadá 2016) ou mais portugueses, luso-canadianos e luso-descendentes, numa Província que tem a área de Portugal, Espanha e quase a França toda. Até a secretária do cônsul-geral tinha saído. Fui o único cônsul-geral que não teve secretária, porque ir buscar alguém para me secretariar significava ter menos uma pessoa para o atendimento do público. Além disso os funcionários tinham tido cortes de salários, bloqueio nas carreiras e aumento do horário de trabalho.

Por outro lado, o trabalho aumenta porque a comunidade aumenta naturalmente – não apenas pelos que chegam de novo, mas pelo número crescente de luso-descendentes que, já adultos, vêm reivindicar a sua nacionalidade. Aumenta ainda pelos nascimentos e hoje em dia mal as crianças nascem os pais trazem-nas ao Consulado para as registarem. É gratificante e motivo de muito orgulho mas é mais trabalho no presente e no futuro.

Desde que cheguei, há quatro anos, que tenho insistido muito com o Ministério dos Negócios Estrangeiros para me darem mais pessoal. Tenho esgrimido sem parar todos os argumentos, sobretudo o de que a comunidade precisa e merece. Há dois anos o senhor secretário de Estado das Comunidades Portuguesas prometeu à comunidade uma recuperação de funcionários e cumpriu: no final do ano passado autorizaram-me a fazer concurso para admitir mais um funcionário. Recentemente, na visita do senhor Primeiro-Ministro prometeram mais funcionários e igualmente foi cumprido: na semana passada autorizaram-me a contratar mais dois, que devem iniciar funções em Agosto. Tenho o prazer de deixar ao meu sucessor um Consulado-Geral com mais funcionários do que recebi. Foi um desafio mas consegui.

Há uma função do Consulado de que os torontinos não se apercebem: as presenças consulares. Basicamente é isto: funcionários do Consulado vão às localidades mais distantes, de Thunder Bay a Leamingtion, de Cambridge a Kitchener, levar, com um aparelho portátil, o serviço consular às comunidade portuguesas do resto da Província e ainda a Winnipeg. São também portugueses e não podem ser nem são esquecidos. Nestes quatro anos continuámos e até reforçámos esse programa. Enfim, foi difícil mas conseguiu-se. Posso também informar que estamos a preparar um "site" para o Consulado-Geral, que dará informação ao público, o que aliviará os funcionários e facilitará a vida dos portugueses. Bem sei que nem todos dominam as tecnologias modernas, mas será muito útil para muitos.

Deixe-me deixar aqui uma palavra de muito apreço, gratidão e reconhecimento aos meus funcionários, que apesar das condições que descrevi, e com uma carga de trabalho acrescida, têm mostrado um espírito de serviço público, de dever e responsabilidade e de serviço para a comunidade notáveis: dão, sem que eu lhes peça muito mais horas do que é devido, porque são responsáveis e dedicados. O horário de abertura ao público é das 8:00 às 14:00 (o de trabalho é mais longo, porque há trabalho de retaguarda a fazer: fecharmos ao público não quer dizer que se pare de trabalhar). Se eu chegar, como muitas vezes faço, antes das 7h30, já cá encontro funcionários, que acabam por sair muito depois da hora devida. Merecem o meu reconhecimento e o meu agradecimento.

S.P. – A título pessoal, qual é a memória que leva de Toronto? Há algo que julgue que lhe vá deixar saudades?

L.B. – Claro que levo boas memórias e que vou ter saudades! Das pessoas, tantas, talvez milhares, com quem tenho falado. Do calor, da cortesia, amizade e ternura com que me recebem nas associações! Do amor a Portugal que tenho visto. Da generosidade e espírito de solidariedade da Comunidade quando se mobiliza por boas causas. E do país em si, da natureza, da beleza da terra e da educação e simpatia das gentes. É um grande país que foi uma boa terra para tantos portugueses.


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