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Eleições federais: "Se realmente me apoiam, incentivo todos a irem votar", diz representante do distrito mais português do país

Preparada para duelo renhido em
Davenport, Julie Dzerowicz quer dar
continuidade ao trabalho desenvolvido
ao longo dos últimos seis anos

Por Luís Aparício

Sol Português

As campanhas políticas para as próximas eleições federais ultrapassaram já a primeira metade dos 36 dias que lhes foram dedicadas – o mínimo exigido por lei – antes dos canadianos escolherem, no dia 20 de Setembro, o novo governo para os próximos quatro anos.

A disputa promete ser feroz em boa parte dos distritos de Toronto, incluindo Davenport, onde os observadores políticos prevêem uma luta titânica entre a candidata Liberal Julie Dzerowicz, que desde 2015 representa em Otava este distrito – onde reside o maior número de portugueses e luso-descendentes no país – e Alejandra Bravo, candidata do partido NDP no mesmo circulo eleitoral

A circunscrição eleitoral, que desde os anos `60 se tornou numa fortaleza Liberal, assistiu pela primeira vez a uma mudança política em meio século quando, em 2011, transitou para o NDP com a eleição de Andrew Cash como deputado, que derrotou o então incumbente luso-canadiano, Mário Silva.

Seria, contudo, uma vitória de um mandato e em 2015 a ex-executiva financeira Julie Dzerowicz reconquistou o distrito para os Liberais por uma diferença de 1.441 votos face a Andrew Cash.

Em 2019 a dupla voltou a enfrentar-se, com Julie Dzerowicz novamente a vencer a contenda por uma diferença de 1.439 votos.

Perante novo cenário de eleições – convocadas antecipadamente, a meio do mandato do actual governo de minoria Liberal – e em declarações ao jornal Sol Português, Julie Dzerowicz reconhece que tem um adversário forte do lado do NDP na pessoa de Alejandra Bravo.

Além disso, considera que o dirigente do NDP, Jagmeet Singh, tornou-se mais popular a nível nacional e, como enfatiza, "no Canadá os líderes nacionais desempenham um papel importante na forma como as pessoas se sentem nas eleições locais".

Pela avaliação que tem feito junto dos eleitores e em particular ao falar com um número significativo de pessoas da comunidade portuguesa, muitas manifestam-lhe o seu apoio. Contudo, a situação pode ser uma faca de dois gumes.

Elas dizem: "Julie, gostamos muito de si. Não se preocupe, você vai ser reeleita!". E eu respondo: "Oh meu Deus, tenho receio que me tenham dito isso, porque o que acontece é que eu sei que ao dizerem-no não irão sair para votar", lembrando a tendência à complacência face a candidatos populares.

Como reafirma "a única forma de vencer é com as pessoas que acreditam em mim, acham que tenho sido uma boa representante deste distrito eleitoral e querem que continue a ser a sua representante a irem votar".

Com as várias opções de voto possíveis – pelo correio, em urnas antecipadas e no próprio dia da eleição – a incumbente incentiva os eleitores da comunidade portugueses a votarem, destacando sobretudo a vantagem da votação antecipada por permitir votar com mais segurança e numa data e hora que lhes é mais conveniente, uma vez que as urnas estarão abertas das 9h00 às 21h00.

A agência responsável pelas eleições federais, Elections Canada, vai enviar um cartão a cada eleitor registado que indica onde podem exercer o voto antecipado, entre os dias 10 e 13 de Setembro.

Tratam-se de informações importantes, porque este ano os locais de votação mudaram e as datas antecipadas foram escolhidas por forma a dar maior flexibilidade e escolha aos eleitores.

A deputada ressalva ainda que não devem recear deslocar-se para votar e recorda que a Elections Canada aprendeu algumas lições com as eleições intercalares nos distritos de York-Centro e Toronto-Centro, que foram realizadas durante a pandemia, sem esquecer que o processo de vacinação em curso está numa fase mais adiantada do que acontecia há um ano.

"Continuo a dizer às pessoas para não pensarem que vai ser [uma vitória] fácil para mim. Se realmente me apoiam, incentivo todos a irem votar".

Concluir o trabalho iniciado

Sem querer dar muita importância às últimas sondagens nacionais que apontam para uma quebra dos Liberais na intenção de voto – actualmente num empate estatístico com o Partido Conservador – Julie Dzerowicz prefere concentrar-se em vencer a representação de Davenport e obter um terceiro mandato para poder concluir o trabalho que iniciou em 2015.

Na sua opinião, não tem dúvidas de que a plataforma do dirigente Liberal Justin Trudeau, e por consequência a sua, é a única com um plano realista para ajudar a comunidade e construir um futuro "mais saudável, justo, verde e próspero para todos" e destaca alguns dos aspectos que defende.

Desde logo salienta o compromisso do governo em dedicar milhares de milhões de dólares para cumprir a promessa de criar uma rede nacional de creches – o designado programa "National Child Care" – que conta já com acordos firmados entre o governo federal e oito províncias (embora ainda sem o Ontário) e territórios.

Outra prioridade urgente e que a ser ver pede uma "atitude mais enérgica" é a questão das alterações climáticas que estão a "abalar o mundo de forma mais rápida do que pensávamos".

A respeito disso, fala do plano de acção climática do governo, uma iniciativa altamente detalhada para reduzir as emissões de carbono até 2030, que inclui ainda a plantação de 2.000 milhões de árvores, a proibição de plásticos descartáveis e a protecção de 25% dos terrenos e cursos de água nacionais até 2025.

Defende também que é extremamente importante reforçar o sistema de saúde e disponibilizar mais apoios à população idosa, nomeadamente a nível financeiro e na prestação de melhores cuidados de saúde.

Todavia, sublinha que "a menos que tenhamos empregos e uma economia próspera, não poderemos pagar por tudo isso".

Entretanto e com respeito a outros assuntos prementes, Julie Dzerowicz destaca o novo plano do partido Liberal para a construção de habitação acessível e o processo de reconciliação com os povos indígenas, tudo isto numa altura em que não se poder perder de vista o objectivo de finalizar a luta contra a Covid.

Mas há também a promessa da criação de um sistema de Rendimento Básico Garantido (RBG), que ela propôs no Parlamento e que diz enquadrar-se no que define como uma "alteração transformativa", pensada por forma a modernizar e transformar o sistema de assistência social – criado noutra era (pós-Segunda Guerra Mundial) – e que na sua avaliação não responde às necessidades da população canadiana do século XXI.

A candidata complementa ainda que o caminho de prosperidade passa por uma economia mais sustentável no futuro e por um país igualmente mais compassivo.

As suas últimas palavras, porém, são para agradecer o carinho e o apoio que tem recebido da comunidade portuguesa ao mesmo tempo que destaca que "a comunidade sabe o quanto me preocupo com ela".

Por isso não hesita em pedir um "esforço extra" para irem votar e concederem-lhe um novo mandato para que possa continuar a lutar pelos interesses dos residentes do distrito mais português do Canadá.


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