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Canadá/Covid-19: Ontário vai adoptar "passaporte de vacinação"

Com cerca de 22.500 novos casos de Covid-19 e 102 óbitos a nível nacional na última semana, a quarta vaga da pandemia continua a intensificar-se, ainda que a um ritmo mais lento do que há duas semanas se registava.

Apesar disso, a taxa de recuperação continua superior a 96 por cento, com o país a registar cerca de 1,5 milhões de infectados desde o início da pandemia, dos quais 26.962 faleceram, 1,44 milhões já recuperaram e quase 32.000 constam da lista de casos activos.

No Ontário, confrontado com a ameaça dum "vaga substancial" de casos de Covid-19 que está prevista atingir a província no Outono, o governo anunciou quarta-feira (1) a adopção dum sistema de "passaportes de vacinação" que irão servir como comprovativo do estatuto de inoculação do portador.

A partir do dia 22 de Setembro estes comprovativos vão começar a ser exigidos a quem pretender frequentar estabelecimentos que são considerados "não essenciais", incluindo ginásios, cinemas, casinos e salas de espectáculo, bem como restaurantes e bares (interior).

Esta exigência não se aplica às lojas de retalho, barbeiros e cabeleireiros, bancos, igrejas e casas de culto, locais de trabalho, serviços essenciais ou esplanadas, pátios e outros espaços ao ar livre, uma vez que, segundo as autoridades, os dados revelam não serem locais onde há grande propagação do coronavírus.

Em conferência de imprensa, o primeiro-ministro do Ontário, Doug Ford, indicou não ser a sua solução preferida, mas face aos conselhos médicos que consideram que o uso destes comprovativos de vacinação será uma medida que pode ajudar a controlar a propagação da doença, o governo acabou por aceder.

A pressão sobre o governo tem vindo a intensificar-se nas últimas semanas, especialmente à medida em que outras províncias adoptam sistemas semelhantes, nomeadamente a Colúmbia Britânica, o Quebeque e Manitoba.

Segundo o primeiro-ministro, a adopção do certificado é necessária para evitar ter de decretar o encerramento de muitos dos estabelecimentos que são designados não essenciais, perante a crescente quarta vaga de Covid-19 que está a ser impulsionada pela variante Delta do coronavírus, considerada substancialmente mais perigosa e infecciosa.

"Temos duas opções: ou fazemos isto [implementação do sistema de certificados de vacinação] ou arriscamo-nos a ter de fechar a economia, o que seria ainda pior, com os hospitais a funcionarem ao máximo da sua capacidade e perto do ponto de ruptura, as crianças a terem de ficar em casa e os alunos dos institutos técnicos e das universidades a terem de voltar ao ensino online", justificou Doug Ford, salientando que "é isso que estamos a tentar evitar".

Para obterem o certificado de vacinação os requerentes terão que estar inoculados com ambas as doses duma vacina aprovada pelo governo.

Isentos da apresentação deste documento estão as crianças com menos de 12 anos e todos os que não se podem vacinar por motivos de saúde.

Segundo o governo, a implementação do certificado de vacinação em formato digital – que utiliza um código QR que pode ser lido por vários aparelhos, incluindo smartphones – está prevista para o final de Outubro, valendo no entretanto o recibo de vacinação que é emitido aos vacinados e que se encontra disponível em formato PDF no portal do governo.

Está igualmente em desenvolvimento um aplicativo que as empresas irão usar para confirmar a validade do código QR, uma vez em funcionamento, e que confirmará o estatuto de vacinação do utente.

Para além de ter como objectivo procurar reduzir a propagação da doença, a exigência do certificado para frequentar certos estabelecimentos e aceder a locais não essenciais pretende incentivar os que continuam relutantes a vacinarem-se a fazerem-no.

De acordo com o dr. Isaac Bogoch, especialista em doenças infecciosas em Toronto, espera-se que haja um aumento no número de vacinados. que neste momento ronda 76 por cento da população com mais de 12 anos (83 por cento com uma dose).

Foi o que aconteceu em França, no Quebeque e na Colúmbia Britânica, jurisdições que adoptaram idênticos sistemas de comprovativo de vacinação e onde muitos dos seus cidadãos que mostravam relutância em se vacinar acabaram por o fazer para não serem excluídos de participar em várias actividades.

Actualmente,o número de vacinados que contraíram a doença representa menos de um por cento das infecções, cerca de um por cento das hospitalizações e 1,4 por cento dos óbitos.

Apesar da insistência dos governos e das autoridades médicas na importância da inoculação, vários peritos alertam para o facto de que as vacinas só por si não serão suficientes para travar a quarta vaga de Covid-19.

Isto porque embora o Canadá tenha uma elevada percentagem de vacinados entre a população elegível, há ainda cerca de 10 milhões (1,5 milhões no Ontário) que estão por vacinar, incluindo todas as crianças com menos de 12 anos.

Segundo o Dr. Isaac Bogoch, isso significa que mesmo que todos os que podem receber a vacina o façam, continuaria a haver cinco milhões de pessoas em todo o país que neste momento não podem ser vacinadas

Por isso as autoridades sugerem que mesmo os que estão inoculados continuem a seguir os protocolos de higiene decretados durante a pandemia, incluindo o uso de máscaras, testes de despistagem e o cumprimento das regras de distanciamento e lavagem frequente das mãos para evitarem o contágio e a necessidade de decretar novos confinamentos.

Os peritos alertam que a capacidade das unidades de cuidados intensivos no Canadá, em comparação com outros países, é relativamente fraca e que em várias jurisdições os hospitais continuam perto do ponto de ruptura.

Por esse motivo foi necessário decretar extensos períodos de confinamento, enquanto os hospitais tentavam dar resposta ao número de doentes que acorriam às urgências.

Segundo Craig Jenne, pesquisador na Universidade de Calgary, o número de infecções tem estado a aumentar significativamente o que, em comparação com o ano passado, quando estas só se intensificaram em Setembro, começou a notar-se cerca de um mês mais cedo.

Como explica, "há muita gente que olha para os números e pensa que não são nada de mais, mas é como um comboio em movimento; ganha balanço e as medidas que adoptarmos agora poderão levar semanas a ter efeito".

Com a chegada do tempo frio, e à medida em que a população volta a refugiar-se nas suas casas e as crianças voltam às aulas, as infecções têm tendência a aumentar.

Dada a rápida propagação da doença, será mais difícil travá-la quando os números indicarem um aumento exponencial.

Uma das grandes incógnitas é o impacto da Covid-19 nas crianças, especialmente as que por terem menos de 12 anos não se podem vacinar.

Desde que a pandemia foi decretada que o consenso das autoridades é que os mais novos não adoecem gravemente.

Contudo, o número crescente de casos parece contradizer esta teoria e a existência comprovada de complicações graves também em crianças está a levar a uma nova avaliação dos dados.

Enquanto os menores de 12 anos não puderem ser vacinados, porém, as medidas preventivas (uso de máscara, lavagem frequente das mãos e distanciamento) bem como a vacinação dos pais e encarregados de educação, continuam a ser as únicas formas de os proteger do contágio, destaca a dra. Lisa Barrett, especialista em doenças infecciosas sedeada em Halifax.

Depois do período inicial, a Covid-19 é actualmente vista como uma doença "evitável" dada a existência de vacinas e de maiores conhecimentos sobre a sua propagação.

Contudo, face à incerteza que persiste em torno da variante Delta do coronavírus, os peritos continuam a aconselhar vigilância e prevenção – que começa por optar evitar o contacto com outros, sempre que possível.


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