1ª PÁGINA


Parque Madeira:

Tourada à corda e folclore deram mote para fim-de-semana ao ar livre

Por João Vicente
Sol Português

Julho terminou com um fim-de-semana em cheio no parque Madeira, graças às condições climatéricas agradáveis e a um programa de actividades que fizeram as delícias de quem até lá se deslocou, sobretudo no sábado (29) quando ali se realizou uma popular tourada à corda, seguida de um festival folclórico.

Com as temperaturas a rondarem os vinte e cinco graus, uma brisa fresca proporcionava algum alívio para o sol abrasador da tarde, num dia que teve um começo lento visto que as pessoas tardaram a chegar.

Isto levou a que a bezerrada, agendada para as 13h00, só começasse mais tarde, assim como a tourada, que se previa para as 16h00, e até as tradicionais mal-assadas só começaram a ser feitas já da parte da tarde.

A pouco e pouco, porém, foram chegando mais pessoas e a festa brava fez-se, segundo Louisa Leal, da ganadaria Sol e Toiros, com cerca de 350 ingressos vendidos.

Decididamente menos do que duas semanas antes, mas o empenho dos organizadores e o prazer de quem participou e assistiu não foi menor pois o espectáculo taurino satisfez os desejos e matou a saudade dos apreciadores.

Foi o caso de Nélia Aguiar, que mal podia esperar pelo começo da tourada. Natural da freguesia das Fontinhas, na ilha Terceira, onde as touradas à corda originaram, explicou à nossa reportagem que até a nora, que não é portuguesa, já adora este espectáculo.

À festa brava, desta vez juntou-se também a comemoração dos anos da neta, Reina, pelo que reuniram no parque cerca de 40 familiares para a ocasião.

Roberto, filho de Nélia Aguiar e pai da pequena aniversariante, indicou que este foi o primeiro ano em que a pequenina realmente apreciou a tourada, por isso decidiram regressar e juntar os dois eventos.

Já a nossa cicerone nesse dia, Louisa Leal, admitiu que não cresceu com esta tradição, pois é natural da ilha do Pico, mas com ela "casou" pois o marido, Élio Leal, é um dos sócios da ganadaria Sol e Toiros, responsável por estes espectáculos.

Como nos explicou, começaram a fazer touradas à corda há 15 anos e este recinto no parque Madeira foi construído há uns 12, pelo que já é longa esta colaboração com a Casa da Madeira.

Rick Coelho, que preside à colectividade, concorda, referindo que esta simbiose tem funcionado bastante bem no passado, com os visitantes do parque a reforçarem a assistência da tourada e vice-versa.

Antes da tourada, porém, uma simples bezerrada divertiu os mais pequenos, permitindo-lhes agir como fazem os mais velhos – fingindo chamar o "touro", para depois fugirem em animadas correrias pelo recinto.

A assistir ao espectáculo encontrámos Manuel e Mercês Neves, naturais da Terceira, e quisemos saber o que estavam a achar.

"É bonito, é um dia bem passado", afirmou Manuel Neves, salientando que "agora é que está para vir o melhor" e que apesar dos touros aqui não serem tão bravos como nos Açores, sempre "dá prazer ver e serve para matar saudades".

E assim foi. O "aperitivo" abriu o apetite e após retirada a divisória que havia sido temporariamente instalada a meio do recinto, para conter a bezerrada, foi altura de apreciar então os cinco touros que correram durante o resto dessa tarde – até já ser quase noite.

Aí sim, os capinhas puderam mostrar como se faz, usando as capas ou sombrinhas – como é tradição – para fintar o touro e fazê-lo rodopiar, para gáudio da assistência que recompensava o seu esforço, valentia e perícia com aplausos.

Estiveram de serviço Nelson Mendes, Brandon Lima e José Luís Costa, embora vários outros se tenham aventurado a entrar na arena para tentarem a sua sorte face aos touros.

Nelson Mendes, que é o cabo do Grupo de Forcados Amadores do Canadá, demonstrou grande habilidade também nesta arte de lidar com touros e brilhou, não só por se meter em situações difíceis mas também por sair delas incólume e com estilo.

Este, porém, é um divertimento arriscado e os erros podem pagar-se caro, como o comprovou José Luís Costa que nos diz ter conhecido o continente, o Canadá e a Espanha através dos touros mas que ainda assim, apesar de toda a sua experiência, acabou por ser colhido nessa tarde, embora sem gravidade.

Além da perna das calças, rasgada de alto a baixo, o único ferimento que sofreu terá sido no seu orgulho, por isso mesmo voltou de imediato à lide.

"Adoro chamar touros aqui", dizia-nos assim que terminou a festa taurina, passando a explicar que houve um erro doutra pessoa na arena, o que fez com que o touro ficasse enviesado e "quando ele não vem a direito, é um problema".

Nelson Mendes, porém, fez uma leitura diferente da situação, afirmando que o touro já tinha mostrado tendência "a favorecer virar para um lado" e foi daí que originou o ocorrido.

Festival de Folclore alegra a noite

Ao terminar a festa tauromáquica deu-se início a um festival de folclore que envolveu três grupos, incluindo o rancho da casa, e que decorreu no pavilhão coberto.

Sob a direcção da sua fundadora e ensaiadora, Luísa Coquim, o grupo cultural Raízes Portuguesas, de Bradford, inaugurou o evento e não só dançou como apresentou um quadro vivo que representou Portugal inteiro através de trajes variados.

Entre os exemplos, destacavam-se o casal de pescadores da Nazaré, a camponesa, a vendedora de flores, a vendedora de tremoços e a lavadeira.

A dada altura, enquanto dois dos homens seguravam o fio onde se foram estendendo as roupas lavadas, os elementos do grupo iam desempenhando os seus papéis, com a vendedora de tremoços a apregoá-los e a oferecer alguns às pessoas que assistiam.

O grupo finalizou a sua actuação com mais algumas danças, uma das quais com elementos do público convidados a participar.

No entretanto, o porco no espeto, cozinhado ao longo do dia, ia desaparecendo, as mal-assadas também, e o bazar, com bibelots e outros artigos para o lar, ia recebendo também as suas visitas, enquanto o ex-presidente da Casa da Madeira, Salomé Gonçalves, ia fazendo o papel de mestre-de-cerimónias.

Quando o grupo da casa subiu ao palco, o seu ensaiador, José de Freitas, passou a apresentar as músicas e danças que fazem parte do repertório do rancho, e que incluíram os tradicionais "Bailinho da Madeira", "Baila que Baila", "Ponta do Sol" e "Chamarrita", como não podia deixar de ser.

Seguiu-se ainda uma rapsódia e a marcha "Madeira, Terra Querida", que o ensaiador identificou como sendo uma das suas favoritas, escrita por alguém de Almada.

A última actuação coube às vozes e concertinas do Grupo de Cantares Estrelas do Norte, um agrupamento que embora constituído por naturais do Minho tem também no seu repertório músicas de outras regiões.

E foi exactamente essa variedade que este grupo, criado em 2014 e encabeçado por Lina Pedrosa, apresentou no Parque Madeira e que pôs muita gente a dançar.

Além do repertório que traziam preparado, e visto serem os últimos em palco e não terem outro grupo à espera para actuar, responderam ao entusiasmo do público com a interpretação de mais algumas músicas a pedido, desde "Canas verdes" e "Viras" até exemplos do cante alentejano, passando por música açoriana e pelo "Bailinho da Madeira", numa vénia aos anfitriões deste evento.

Mas a festa não ficou por aí e dado que muita gente foi para acampar e dormiu no parque de um dia para o outro, já o ponteiro das horas estava quase a passar para a madrugada de domingo e ainda havia pessoas a dançar ao som da música proporcionada pelo DJ Electric Som.

Embora não houvesse nada agendado para domingo em termos de eventos, o parque continuou aberto pelo que houve quem aproveitasse para simplesmente desfrutar e apreciar o ar puro e a calma longe da cidade.

Segundo apurámos, a próxima tourada à corda à moda da Terceira vai ter lugar neste parque já no dia 12 de Agosto, por ocasião do piquenique do programa Gente da Nossa, e Louisa Leal apelou à participação do público pois, como referiu, as touradas são algo que fazem por gosto e não porque dê dinheiro, portanto sem apoio à altura fica difícil, senão mesmo impossível, dar continuidade a esta tradição lusitana.

Entretanto, segundo os responsáveis da Casa da Madeira, a colectividade tem também programadas para os dias 19 e 20 de Agosto as festas de Nossa Senhora do Monte, que mais uma vez se irão realizar neste parque.


Voltar a Sol Português