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CATPor:

Simpósio marca apresentação oficial de Associação de Professores de Português no Canadá

Por João Vicente
Sol Português

O simpósio de professores de português que no passado sábado (28) se realizou na Universidade de Toronto (UofT) foi também a apresentação oficial da Canadian Association of Teachers of Portuguese (CATPor), organismo que acaba de se constituir para representar os docentes da língua de Camões neste país.

Trata-se de uma organização que não só vem preencher um vácuo criado pela dissolução de uma associação de professores dos Estados Unidos e Canadá, como visa dar resposta aos anseios dos docentes deste lado da fronteira e que há tempos clamavam por um organismo capaz de os representar adequadamente, explica Ana Paula Ribeiro.

Ao chegar a este país, em 2011, a coordenadora do ensino do português no Canadá constatou existir alguma insatisfação por parte dos professores de português em relação à associação que então existia e cujos membros estavam espalhados pelos continente norte-americano.

"Era uma associação dos dois países, mas muito mais virada para os Estados Unidos", recorda, pelo que quando esta acabou por se extinguir, lançou o repto para que se constituísse uma nova organização, algo que só se veio a verificar já no final do ano lectivo em 2017, quando Anabela Rato aceitou tomar as rédeas e assumir a presidência.

Professora e investigadora, Anabela Rato veio da Universidade do Minho (Uminho) para a UofT, onde passou a exercer funções há cerca de dois anos.

Professora convidada auxiliar no Departamento de Inglês e Estudos Norte-Americanos na Uminho, ao terminar o seu doutoramento em Ciências da Linguagem concorreu à posição de professora auxiliar no Departamento de Espanhol e Português da UofT, onde ensina língua e linguística portuguesas.

Como nos explica, embora a sua intenção inicial fosse ficar pela Europa, conheceu alguns dos colegas da UofT numa conferência e gostou do trabalho de investigação que apresentaram numa área que é a dela: aprendizagem ou aquisição de uma língua segunda.

Nessa mesma altura inteirou-se da existência de uma vaga de professora auxiliar que considerou ter as condições ideais pois, como refere, o foco aqui é a investigação, enquanto que em Portugal, devido à conjuntura económica da altura, se estava a cortar nessa área.

"A Fundação para a Ciência e Tecnologia esteve um bocadinho parada – não houve investimento, não tínhamos alunos de doutoramento, não estávamos a conseguir fazer investigação", explica Anabela Rato, salientando que "a realidade aqui é muito diferente; faz parte da minha função fazer investigação científica e esse é o meu trabalho de sonho".

Ao assumir a presidência da CATPor, espera que esta nova associação de professores venha a ser uma mais-valia, não só para quem ensina o português, mas também para as comunidades lusófonas radicadas no Canadá.

Entretanto, Deolinda Silva, que é vice-presidente da CATPor e professora do First Portuguese e da Direcção Escolar Católica de Toronto, elucida que a associação pretende ser uma organização aberta e participativa, que leve à interacção e intercâmbio de informações entre os membros.

"Esta associação não é vitalícia", esclarece, adiantando que o que se pretende é que "haja uma mais ou menos todos os anos" para que "haja renovação dos órgãos da Direcção" e possa vir a realizar-se também "noutras cidades do Canadá".

O simpósio que sábado se realizou não só foi palco do anúncio oficial mas também a primeira manifestação prática da missão da CATPor, que é "promover um espaço para diálogo entre os professores dos vários níveis de ensino".

O ensino de português no Canadá

No decorrer do certame, que contou com o apoio do Instituto Camões e da UofT, e o patrocínio da Caixa Geral de Depósitos e da Padaria e Pastelaria Golden Wheat, uma série de actividades e apresentações por parte de professores universitários dos EUA e de Portugal abordaram assuntos diversos, entre eles a formação de professores, que foi o foco principal do simpósio.

No final, uma mesa redonda sobre as "diferentes realidades" do ensino do português no Canadá registou os pareceres de professores de vários pontos do país, incluindo alguns que por se encontrarem em lugares mais distantes ou impossibilitados de estarem presente pessoalmente, se expressaram através de apresentações em vídeo e Powerpoint.

Para Patrícia Vieira, professora do Camões, Centro de Línguas, e do George Brown College, é preciso evitar o isolamento dos professores, assim como conjugar e unir os objectivos comuns.

"O mundo está diferente, as necessidades são diferentes, o nosso público-alvo é diferente [e] nós precisamos de acompanhar esse progresso, portanto novas ideias e um treinamento dos professores é necessário e também ver as realidades de cada professor aqui é encorajador, dá ideias e faz-nos querer continuar nesta missão, que é promover a língua e a cultura portuguesas", refere.

Odete Parente, que veio de Montreal, onde ensina português na escola de Santa Cruz, sendo também docente no sistema público de escolas da cidade, confessa que foi a curiosidade que a trouxe até este simpósio.

Veio com a impressão que na Área da Grande Toronto, por ser um centro maior, talvez houvesse mais facilidade em ensinar o português, mas apercebeu-se de que existem paralelos inevitáveis que tornam o ensino do idioma a segundas, terceiras e quartas gerações numa luta, seja onde for.

Apesar disso, diz-nos voltar a Montreal com bastantes ideias e de "bagagem cheia" com tudo o que observou e ouviu.

Ao longo do dia, entre os vários conteúdos a que os docentes estiveram expostos, destaque para as apresentações das editoras Lidel e Porto Editora referentes a materiais virados para o ensino do português como língua de herança ou segunda língua.

Nuno Marques, assessor pedagógico da Lidel, indicou que a sua visita pretendeu "promover a língua, e promover os materiais e a forma como eles se ajustam às necessidades dos professores e, sobretudo, dos alunos".

Dada a sua linha de trabalho, Nuno Marques visita vários países e nota que há um aumento da procura do ensino da língua a nível global.

Quanto ao Canadá, reconhece o empenho dos docentes e afirma ter detectado uma evolução enorme nas práticas pedagógicas – algo que atribui não só ao trabalho desenvolvido pela coordenadora do ensino, mas também ao contributo e empenho dos professores.

No rescaldo das actividades, Ana Paula Ribeiro mostrou-se satisfeita: "tivemos bastante público", destacou, considerando que "tudo correu muito bem" e "a associação já tem muitos membros e é um bom ponto de partida".

Após o encerramento da sessão de trabalho teve lugar um jantar convívio na Casa do Alentejo de Toronto, que juntou vários dos participantes.

Entretanto, o Departamento de Espanhol e Português da UofT promoveu ainda dois outros eventos de relevo na semana que agora finda: uma sessão de trabalho intitulada ExPortLi (Experimental Portuguese Linguistics Workshop), na segunda-feira (30), e uma palestra do professor Ocke-Schwen Bohn, da Universidade de Aarhus (Dinamarca).

Segundo os responsáveis pela CATPor, podem pertencer à associação todos os professores de português no Canadá, independentemente do nível de ensino ou formação, bastando que exerçam essas funções ou as tenham exercido no passado, e mediante o pagamento de uma cota de 30 dólares.

A organização mantém um portal na Internet (www.catpor.ca) e uma página no facebook (facebook.com/catpor.ca) onde os interessados podem obter mais informações.


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