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Associação Cultural 25 de Abril assinala 44.° aniversário da revolução dos cravos

Por João Vicente
Sol Português

A Associação Cultural 25 de Abril, Núcleo Capitão Salgueiro Maia (AC25A), sedeada em Toronto, celebrou na passada sexta-feira (27) os 44 anos da revolução de 25 de Abril de 1974 num encontro em que participaram como convidados especiais os coronéis Jorge Henriques Caetano e António Marques Lopes.

Os convidados de honra, que aqui se deslocaram em representação da Associação 25 de Abril de Portugal, foram os principais oradores do convívio, que teve lugar no restaurante New Casa Abril e que juntou algumas dezenas de pessoas intentas em recordar a intervenção militar que depôs o regime do Estado Novo e levou à instituição de um governo democrático.

Para o presidente do Executivo da AC25A, Carlos Morgadinho, esta é uma efeméride marcada por um sentimento de nostalgia pois, como faz questão de destacar, nasceu e viveu durante a ditadura fascista, foi para a guerra por causa do fascismo e por isso o 25 de Abril foi para ele uma alegria.

Em Angola, onde vivia na altura, recorda que "ninguém trabalhou naquele dia, só se falava em revoluções" e na possibilidade de guerra civil, dividindo-se as pessoas entre optimistas e pessimistas.

Dez mil pereceram na guerra colonial e diz-se, embora não sejam números oficiais, que cerca de 85 mil ficaram afectados física ou mentalmente, incluindo-se Carlos Morgadinho neste grupo.

A guerra, que tantos pesadelos lhe causou, tenta esquecê-la, mas Angola e o povo angolano são fonte de memórias que traz junto ao coração.

Vê o Portugal actual com bons olhos – "apesar de não estar perfeito", ressalta – mas gostaria de ver também os problemas da saúde e dos sem-abrigo serem resolvidos, embora o facto de se viver hoje em democracia e haver acesso a instituições de educação superior um pouco por todo o país sejam claras mais-valias.

Neste encontro o mestre-de-cerimónias foi José Lima, que começou por chamar o vice-presidente da assembleia geral, Luís Morgadinho, para proferir algumas palavras.

A interpretação dos hinos do Canadá e de Portugal ficou a cargo de Manuel Goulart, que os tocou em harmónica, escutando-se de seguida o Toque do Silêncio, interpretado pelo trompetista Leandro Silva, da Banda do Sagrado Coração de Jesus.

Os discursos incluíram intervenções de vários políticos locais, a começar pela deputada provincial Cristina Martins que após congratular a organização pela sua dedicação em manter viva a memória e o significado do 25 de Abril entregou um certificado ao presidente do Executivo em seu nome, bem como um em nome da ministra da Imigração do Ontário, Laura Albanese.

Entretanto, o vereador torontino Joe Mihevc fez questão de relatar um pouco da sua visita a Portugal, uma experiência que diz ter adorado, dando ainda os parabéns aos portugueses "por terem mostrado ao mundo que era possível fazer uma revolução pacífica".

Por seu turno, o ex-deputado federal Joe Volpe relatou o momento em que pela primeira vez se falou português no Parlamento em Otava, numa intervenção de que se orgulha e que fez a pedido de Tony Letra e da esposa, passando a ler o texto desse discurso.

Também o cônsul-geral de Portugal em Toronto, Luís Barros, se viria a pronunciar, aproveitando para se referir ao papel e aos direitos das mulheres antes e depois do 25 de Abril, e apelando mais uma vez à participação cívica dos portugueses e luso-canadianos como forma de celebrarem as liberdades de que usufruem.

A noite alongou-se um pouco mais do que era esperado, pelo que os convidados de honra vindos de Portugal discursaram brevemente no final do encontro, mas não sem que antes se procedesse à entrega de uma bolsa de estudo que contemplou a jovem Jessica Couto Rio, aluna do professor Chris Freitas na Harbord Collegiate.

"A guerra colonial foi uma grande fatalidade", afirmou o coronel António Marques Lopes ao destacar que nela "morreram 10 mil jovens" a mando de um regime que "tinha que acabar".

Alferes na Guiné, conta como depois de se recuperar dos sofrimentos provocados pela explosão de uma mina anti-carro e na qual dois colegas pereceram ao tentarem despoletar o engenho, foi convencido a regressar à Guiné e a desempenhar uma missão de subversão para convencer os camaradas de que a guerra "era uma estupidez sem fim" e de que deveriam um dia apoiar o movimento que viria eventualmente a surgir.

Como relata, o incidente onde ficou ferido talvez o tenha marcado tanto como uma noite que passou sozinho, à beira de uma base do PAIGC.

Em 2006, numa visita à Guiné, foi encontrar-se com o comandante dessa base, Lúcio Soares. Almoçaram juntos e recordaram.

"Eu disse-lhe que ele tinha sido o culpado de me mandar para o hospital", diz Marques Lopes com um sorriso, adiantando que "ele pediu muita desculpa mas disse: `eu estava a lutar pela minha terra' e eu disse; `olha, eu também me mandaram para cá lutar e estávamos os dois a lutar mal um contra o outro'", conclui, mantendo o sorriso e revelando que se mantêm amigos até hoje.

Como ressalta, os portugueses não estavam na Guiné com ódio e ainda hoje são recebidos de braços abertos, apesar da guerra.

O coronel Jorge Henriques Caetano, capitão de infantaria à altura da revolução, declarou o seu prazer em fazer parte desta comemoração, ressaltando que é importante que se continue a assinalar a data.

"Justifica-se que seja continuado por muitos anos [...] atendendo às características do fenómeno, que não pode ser encarado apenas, na minha opinião, claro está, como uma alteração de um regime em Portugal – o movimento em si tem repercussões universais", referiu Henriques Caetano.

Também Carlos Morgadinho adverte para a importância de "celebrar Abril todos os dias, porque as ditaduras aparecem com máscaras", como refere, destacando que governos e medidas que poderão ser populares e aparentemente direccionados para o bem do povo podem ser corrompidos ou sofrer alterações de curso, sendo por isso necessário estar alerta.

O presidente do Executivo viria ainda a revelar que se prepara para abdicar do cargo e passar o testemunho a Rogério Vieira durante a próxima Assembleia-Geral da AC25A, que terá lugar este mês, pelo que o futuro presidente usou da palavra para garantir que a Associação não vai fechar, apelando ao apoio dos membros para lhe darem seguimento.

Salpicada ao longo de algumas horas com vivas a Portugal e ao 25 de Abril, a noite finalizou com actuações da Luso-Can Tuna e dos cantores Herman Vargas e Victor Martins, num espectáculo com som a cargo do DJ Zip Zip.


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