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"First" aos 63 anos

Funcionários, utentes, sócios e amigos juntaram-se para comemorar aniversário da mais antiga colectividade portuguesa no Ontário

Por João Vicente

Sol Português

Em 1956 o First Portuguese Canadian Cultural Center (FPCCC) constituía-se em Toronto, tornando-se assim no primeiro clube português no Ontário a dinamizar a crescente comunidade lusa através do desporto, do convívio, da animação cultural e da preservação da língua portuguesa.

As componentes educacional e recreativa mantiveram-se ao longo dos anos, mas à medida em que a comunidade se expandiu e uma percentagem maior de idosos revelou existir uma lacuna na prestação de serviços à terceira idade em português, os serviços sociais, principalmente os vocacionados à população sénior, passaram a assumir maior preponderância na lista de actividades do centro.

Nestes 63 anos muito se passou e muitas crises e dificuldades assolaram o FPCCC, incluindo a que atravessa neste momento, mas no passado sábado (28) foi com alegria que esta colectividade pioneira celebrou o seu aniversário.

"É muito emotivo porque são imensos anos – uma história muito grande, muito complexa", referiu à nossa reportagem a presidente do FPCCC, Carina Paradela, que considerou "um prazer imenso celebrar" o 63.º aniversário da colectividade.

No entanto, há uma nuvem negra no horizonte pelo que apesar da alegria que para os funcionários e voluntários do clube representa verem os frutos do seu trabalho e poderem celebrar esta etapa, "o First" – como é carinhosamente apelidado – corre "grave risco", diz-nos.

Fazendo questão de não responsabilizar, nem directa, nem indirectamente, a Direcção anterior, Carina Paradela ressalva que foram as despesas elevadas e uma série de problemas que tiveram de resolver durante este mandato que conduziram o clube à situação actual.

"Eu acho que todos os clubes passam por momentos difíceis [e] neste momento nós estamos a passar por um muito complicado, financeiramente – temos uma renda altíssima para pagar [pois] o edifício não é nosso [e] essa é a maior contribuição para a situação financeira em que nos encontramos – mas estamos a trabalhar para que fique melhor", disse a dirigente, relatando um rol de ocorrências que passam por arranjos de canalização, ar condicionado, aquecimento e outros que recaíram sobre a colectividade em vez do senhorio e que, como destaca, vieram agravar a situação.

Segundo indicou, o mandato desta Direcção termina em Novembro de 2020, pelo que tem esperança de que a situação se componha entretanto, mas por enquanto não há uma resolução à vista.

Apesar disso, a directora da Escola de Português do First, Celina de Melo, é da opinião que tudo se irá resolver e não vale a pena causar alarido – embora confesse não estar muito por dentro da situação financeira da colectividade.

Ainda assim, reconhece que "a renda que estão a pagar é bastante grande – é agressiva mesmo", ressalva, mas considera que a escola, um dos grandes alicerces do FPCCC, "vai bem" e "está bem organizada", tentando "ajudar o First", estando por isso confiante de que a colectividade "não vai fechar enquanto houver duas ou três pessoas pilares".

Quanto a quem considera como "pilares", diz que a si mesma e aos jovens que constituem a Direcção e que "têm muita força e vontade de continuar para a frente", embora ache que a Direcção deva evitar o "monopólio das secções todas".

Celina de Melo lamenta ainda que haja várias pessoas com quem fala que pensam que o "First" até já acabou, o que parece revelar um problema de visibilidade e de projecção numa comunidade que, a seu ver, terá virado as costas ao clube quando este perdeu a sua sede, há alguns anos.

Presente neste convívio esteve também Leo Pereira, um dos ex-presidentes do clube e que durante a sua alocução viria a oferecer à colectividade um exemplar do jornal "First Portuguese Canadian News", publicado por ocasião do 25.° aniversário da instituição que, como deu conta, viu naquele fim-de-semana, em 1981, passar pela sede cerca de 58.000 pessoas.

Os tempos são claramente outros e o ex-dirigente é da opinião que o governo provincial "tem responsabilidade nisto", pois a seu ver o First "desempenha uma função social que não pode ser menosprezada".

Como destaca, "houve uma altura em que o First estava a remar o barco sozinho e estava a poupar muitos milhões ao governo provincial", ao prestar serviços aos idosos.

Pensa por isso ser altura de "criar condições" para apresentar "um projecto viável, porque ele é necessário" para que "com a ajuda da comunidade, mas sobretudo com a obrigação que o governo tem de olhar para nós como cidadãos", o First consiga o apoio a que "tem todo o direito".

Nas suas capacidades oficiais estiveram também presentes nesta comemoração o cônsul-geral de Portugal em Toronto, Rui Gomes, e a deputada federal Julie Dzerowicz, tendo ambos aproveitado não só para endereçarem votos de parabéns ao FPCC pela efeméride, como para incentivarem o público a votar nas eleições que se aproximam em ambos os países. – nas legislativas em Portugal, no dia 6, e nas federais no Canadá, a 21.

Ao expressar a sua convicção de que estes momentos menos bons que o "First" atravessa são "conjunturais e virão a ser ultrapassados", o diplomata português avançou com a sugestão de que a Direcção formule uma candidatura aos apoios ao associativismo disponibilizados pelo governo português através da Direcção Geral dos Assuntos Consulares e Comunidades Portuguesas.

Por sua vez, a deputada declarou-se confiante de que numa comunidade tão próspera como a portuguesa, onde há tantos profissionais e empresas de sucesso, decerto haverá quem ajude o "First" a superar estas dificuldades.

"First Portuguese tão carinhoso/Que nos tira da solidão/Recebe sempre um idoso/De alma e coração.

"Ali chega um velhinho/vem triste e tão carente/Sente logo o carinho/como não tem de nenhum parente".

Assim rezam duas das quadras criadas por Zélia Farias e que dedicou ao clube do qual é utente no centro de dia para idosos, assim como sócia há muitos anos.

São principalmente as cerca de cinco a seis dezenas de pessoas como ela – ou até em situações piores de carência financeira ou afectiva, incluindo mesmo solidão – que serão as mais fortemente afectadas caso o First não leve este barco a bom porto, mas são também todos os jovens que frequentam a sua escola, assim como o seu campo de férias, que irão sofrer.

Como ressalvam os responsáveis, o FPCCC tem o único campo de férias em português de toda esta região – um programa que de tão popular já tem crianças em lista de espera para se registarem assim que abrirem as inscrições para o ano que vem.

Perante tudo isto, e apesar do momento ser menos feliz financeiramente para o clube, há um misto de esperança de que a situação se venha a resolver e de confiança na capacidade e vontade desta Direcção para superar as dificuldades.

Daí que o 63.º aniversário do First fosse uma ocasião festejada pelos seus apoiantes, que ergueram os copos de espumante, cantaram os parabéns e conviveram com alegria num serão que viria a terminar com um animado baile a cargo do DJ RMP, Adriano de Sousa, e na expectativa de continuarem a comemorar muitos mais.

"Apelamos à comunidade nesse sentido", declarou à nossa reportagem Aurianne Fazendeiro, vice-presidente do FPCCC que lançou um convite: "juntem-se a nós, associem-se a nós, façam parte das nossas festas, venham aos nossos eventos – venham-nos conhecer acima de tudo", destacou.

"Queremos juntar mais gente nova à comunidade e ao movimento associativo, [por isso] se quiserem começar por algum lado, comecem pelo First", solicitou, convidando os portugueses para que "venham ter connosco, façam voluntariado, cheguem-se a nós".

Como nos diz, não sabe como se passavam as coisas em Direcções anteriores quanto ao receio ou relutância em admitir que o clube estava em dificuldades, mas consideram que é essencial ser frontal e directo com a comunidade.

"Somos apologistas de honestidade acima de tudo, porque não queremos que de hoje para amanhã aconteça alguma coisa [e as pessoas digam;] `não tinha a mínima ideia, eu se calhar até podia ter ajudado, mas não sabia'".

"Estamos um pouco – se assim podemos dizer – em campanha, a bater de porta em porta e a ir ter com elementos da comunidade que fazem o que nós fazemos com outras instituições e são bem sucedidos", explicou Aurianne Fazendeiro que destacou: "queremos rodear-nos de pessoas de sucesso porque acreditamos que aí vamos atingir mais sucesso também".

Carina Paradela adianta que desde que ganharam a coragem de admitir que as coisas estavam más, há cerca de duas semanas, têm vindo a sentir algum apoio a surgir da parte da comunidade mas, e especialmente dada a situação, esta nunca será demais.

Como ressalva, os apoios podem ser dados de diferentes formas, contactando directamente a organização através do telefone 416 531-9971, dirigindo-se à sede – sita ao 60 da Caledonia Road – através do envio de donativos por e-mail para fpccc@firstportuguese.com, ou simplesmente participando nas iniciativas do First.

Este mês, por exemplo, vai realizar-se o Festival de Sopas no dia 19, das 11h00 às 17h00, enquanto que para 16 de Novembro está projectada uma Noite de Fado e Petiscos, ambas a terem lugar na sede e com o objectivo de angariar fundos para o clube.


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