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Semana Cultural Beirã:

Célia Leiria e artistas locais brilharam em Noite do Fado

Por João Vicente
Sol Português

Integrada nas comemorações da Semana Cultural Beirã organizada pela Casa das Beiras de Toronto (CBT), a Noite do Fado é habitualmente um dos momentos altos deste certame anual e na passada sexta-feira (27) a mais recente edição voltou a atrair cerca de três centenas de apreciadores desta expressão musical tão caracteristicamente portuguesa.

Embora estes encontros do fado já se realizem há muito, de há cerca de 14 anos para cá têm vindo a ser organizados por João Brito, um confesso entusiasta e praticante da canção nacional que nas últimas três edições tem procurado sobretudo trazer artistas de Portugal.

Tão convicto está da importância da divulgação e da prática desta forma de arte tão lusitana que afirma mesmo que "a noite de fado devia ser importante em todas as semanas culturais, em todas as associações portuguesas", independentemente da região que representam.

Isto porque, como João Brito explica, a "canção urbana de Lisboa galgou fronteiras", especialmente desde que foi considerada Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO e deve-se corresponder à aderência dos estrangeiros a esta arte – até porque "nunca é demais divulgar aquilo que é nosso, principalmente porque é nosso", ressalva.

Há dois anos apresentou na CBT o Grupo de Fado da Estudantina Universitária de Coimbra, em 2018 trouxe até nós Jorge Fernando – um notório nome do fado – e o filho, Jorge Nunes, e desta feita lançou o convite à fadista Célia Leiria, que classifica como "uma das grandes vozes da actualidade".

Embora admita que a artista "não estará muito divulgada, até porque tem uma aproximação ao fado um pouco diferente das outras vozes [...] canta muito bem, está no circuito de fado há muitos anos, tem um à-vontade incrível em palco e foi lançada pelo grande Carlos Zel nas `Quartas de Fado', no Casino do Estoril", o que na sua opinião constitui "um grande cartão de apresentação".

"Sinto vontade de continuar [estas realizações] porque as pessoas apoiam-me", diz-nos, salientando que as noites de fado têm custo zero para a Casa das Beiras, já que são totalmente da sua responsabilidade, tanto em termos de organização como de financiamento, com a ajuda de "alguns amigos de bolsos mais fundos".

Antes do espectáculo, o público pôde deleitar-se com uma refeição típica, confeccionada pelo chefe de cozinha do Palace Restaurante de Viseu, Luís Almeida, convidado a trazer a esta Semana Cultural a gastronomia das Beiras – Alta, Baixa e Litoral – ao longo de toda a semana.

O prato tradicional para uma noite de fado, porém, independentemente da região, pertence ao fiel amigo, o bacalhau, e foi isso mesmo que o chefe elaborou para o jantar e que o público pôde apreciar.

Na sua primeira passagem pelo Canadá e prestes a concluir a sua participação neste certame, Luís Almeida fez um balanço positivo da visita, aprazendo-se com o acolhimento caloroso que recebeu, ao mesmo tempo que reconhecia a experiência como "intensa, mas que não foge à rotina" e louvava os voluntários da CBT que, na sua avaliação, tornaram tudo isto possível.

No final da refeição e já cerca das 22h30, deu-se então início ao espectáculo com o mestre-de-cerimónias, o radialista António César da emissora CHIN, a chamar ao palco os músicos Manuel Moscatel (guitarra), Januário Araújo (viola) e João Carlos Silva (viola-baixo) para as primeiras notas de uma rapsódia musical.

Pouco depois juntava-se-lhes em palco João Brito que começou a sua actuação com o tema "Ausência", de Linhares Barbosa, desde logo tornando notável a afinidade que por ele sente o público apreciador de fado.

Depois de vários temas e ao terminar a sua intervenção, João Brito destacou a presença na sala de uma grande apreciadora de fado, Lurdes Palombo, ao dedicar-lhe o clássico popularizado por Alfredo Marceneiro, "Cabelo Branco é Saudade".

A senhora, que padece de cancro em fase terminal, fez questão de assistir a este espectáculo e fez-se acompanhar da sua enfermeira pois, como revela, adora "de coração" a canção nacional e prometeu a si mesma: "onde houver fado e eu possa chegar, vou sempre".

Desde que adoeceu que encontra no fado conforto e alegria, e até a enfermeira, Célia Rodrigues, que é brasileira, diz ter aprendido a gostar de fado com ela.

Apesar das lágrimas que verteu aquando da dedicatória de João Brito, foi o sorriso que lhe encheu o rosto durante todo o serão que se tornou mais evidente.

Decerto terá apreciado também a actuação de fadista seguinte, a luso-canadiana Jeniffer Bettencourt, que começou a sua interpretação com o tema "Por ti!", popularizado por Mariza, e prosseguiu depois com fados tornados clássicos pela voz de Amália e de outros artistas, alternando entre marchas e temas mais sóbrios.

Ao chegar-se ao intervalo, o mestre-de-cerimónias viria a confessar que quando aceitou o cargo se tinha esquecido de que era também o aniversário da esposa, Adriana, pelo que a feliz ocasião foi celebrada ali mesmo – e não foi a única já que o guitarrista Bernardo Saldanha viria igualmente a celebrar os seus anos no final do espectáculo.

Entretanto, o interregno no espectáculo serviu também para que fosse servido chouriço assado, como manda a tradição, após o que se deu início à segunda parte com uma intervenção musical à guitarra pelo fundador do "Clube de Fado" no bairro de Alfama, em Lisboa, Mário Pacheco, e à viola por Bernardo Saldanha.

Foi então que depois deste interlúdio musical, e que António César descreveu como "um mini-concerto de guitarra", se lhes juntou em palco a artista convidada e cabeça de cartaz, Célia Leiria, que de imediato conquistou o público.

Com um timbre forte e distinto, e uma presença em palco descontraída mas dominante, a fadista elevou o espectáculo a outro patamar e satisfez a plateia com uma selecção de temas que, mesmo não sendo dos mais conhecidos ou populares, não deixaram de soar familiares e acolhedores na sua voz.

Esse à-vontade com que actua já lhe está no sangue pois, como revelaria mais tarde ao jornal Sol Português, nasceu numa família de fadistas e já em pequenina "cantava uns fadinhos e umas marchinhas", além de acompanhar o pai às noites de fado na região de Santarém, de onde é natural.

"Entretanto tive uma zanga com o fado", diz-nos, explicando que tinha na altura "uns sete ou oito anos" e achava que as noites eram longas: "eu tinha muito sono, depois adormecia, depois iam acordar-me para ir cantar e aquilo não funcionava muito bem", recorda.

Essa "zanga" não durou muito e aos 14, quando foi com o pai a uma noite de fados, a meio do serão disse-lhe que queria cantar um fado.

Interpretou "O amor é louco", pois era um tema de que ainda se lembrava de cor, e embora só mais tarde viesse a seguir a carreira fadista, recorda que foi aí que "o bichinho" a mordeu de vez.

Chegou a trabalhar numa pastelaria – para "pagar a carta de condução", como nos diz – e mais tarde ingressou no ramo da publicidade, e foi então que uma digressão ao Luxemburgo, e quando outra saída ao estrangeiro se revelou em conflito com o emprego, a levou a assumir-se como fadista e a mudar de carreira.

Depois de em 2001 ter sido convidada a cantar nas "Quartas de Fado" do Casino do Estoril pelo grande fadista Carlos Zel, viu abrirem-se-lhe as portas de algumas das melhores salas de Portugal, além de mais algumas visitas ao estrangeiro.

Em 2011 publicou o álbum "Caminhos do Fado" e pelo meio tem dado a sua contribuição em espectáculos e projectos como a gala "O Fado Acontece", o CD/livro "Fadário", o show "Fado in Chiado" e o concerto "Lágrimas de Lisboa", em Antuérpia, tendo inaugurado ainda a Sala Península do Casino de Chaves e participado do Festival de Castilla y León, em Zamora.

Embora reconheça a influência familiar, acredita que é necessário "nascer com o fado no sangue" para seguir esta vida como profissão.

Contudo, confessa que foi o "toma lá, dá cá" – a interacção e intercâmbio que sentiu com os espectadores – que a atraiu mais profundamente e a levou a ver o fado como o seu destino, decisão pela qual o público que sábado assistiu a este espectáculo com certeza estará grato e assim manifestou em efusivos aplausos..

No final das actuações, os presidentes do Executivo da CBT, Bernardino Nascimento, e da Assembleia-Geral, Alberto Costa, subiram ao palco onde procederam à entrega de placas comemorativas aos artistas, ao organizador e ao apresentador, havendo depois ainda um momento para o contacto directo entre artistas e o público.

A Semana Cultural Beirã 2019 encerrou oficialmente no fia seguinte, sábado (28), num convívio que contou com a presença do deputado da Assembleia da República José Cesário e teve como entretenimento um baile com o grupo musical Mexe-Mexe e o artista Henrik Cipriano.


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