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Comunidade/Covid-19:

Depois do desconfinamento, vários sectores de actividade dão sinais de recuperação enquanto outros prosseguem inabalados

Por João Vicente
Sol Português

Desde que o governo do Ontário declarou o estado de emergência em consequência da pandemia de Covid-19, a 17 de Março, que o jornal Sol Português tem procurado auscultar a comunidade portuguesa a respeito do impacto das medidas de confinamento então decretadas e que vieram a limitar grande parte da actividade económica, social e recreativa na província.

Entretanto passaram-se já cerca de três meses desde que tomámos o pulso a um leque variado de empresas luso-canadianas, procurando saber como estavam a tentar cumprir com as directrizes do governo, pelo que agora que várias das restrições foram retiradas voltámos a contactá-las para sabermos como tem decorrido o processo de reabertura e como está a corresponder o público seu cliente.

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Carlos Martins, proprietário da churrasqueira Martins, confessa que está "muito, muito ocupado", e que isso é bom sinal.

Como nos diz: "a clientela está a voltar, [o restaurante] está sempre cheio – graças a Deus os nossos clientes cá estão todos", e quanto a irem-se adaptando às novas circunstâncias, responde que "não há outro remédio".

Contudo, "normal ainda não está", precisa Carlos Martins a respeito da situação actual: "estamos a trabalhar talvez a 75 por cento, mas não me posso queixar, com a crise que está a haver aí".

Por isso conclui que "termos saúde e estarmos a ganhar dinheiro para as despesas já não está mau".

Noutro ramo totalmente diferente, a empresa de seguros e serviços financeiros Maia & Associates tem continuado a sua progressão sem registar dificuldades.

"Nós nunca abrandámos", diz-nos Dina Isabel, senior associate manager da firma, que esclarece que isso deve-se ao facto de poderem continuar a servir os clientes de forma virtual.

"Temos trabalhado de casa e agora começamos a reabrir – já atendemos alguns clientes no escritório mas estamos a limitar muito isso pela segurança dos nossos clientes e funcionários", diz-nos, destacando que o espaço de que dispõem permite manter a distância necessária entre os funcionários, mas torna-se mais complicado quanto mais gente receberem.

Em termos da firma e da indústria onde se inserem, Dina Isabel afirma que apesar de terem tido de alterar as circunstâncias em que desenvolvem a sua actividade, o volume de negócios e de clientes manteve-se, passando apenas o atendimento a ser feito 90 por cento de forma virtual e 10 por cento presencial.

Na verdade "em retrospectiva, foi a melhor altura para investir", salienta a propósito dos últimos meses, destacando que "se alguém teve a esperteza de investir em Março já fez muito dinheiro" uma vez que depois de uma quebra inicial, grande número de investimentos têm registado forte crescimento.

Enquanto isso, "ficámos muito contentes de ter podido oferecer o atendimento pelo qual já somos conhecidos e ninguém foi descurado", garante.

Quanto a lidar com o público de forma virtual ou por sistema de tele-presença, refere que a pesar de preferir o contacto cara-a-cara até as gerações mais velhas se têm estado a adaptar bem e, como destaca, os clientes "sabem que assim que forem levantadas as restrições estamos aqui para eles" continuando entretanto "sempre à distância de uma chamada telefónica".

Já para Hélder Costa, co-proprietário da rede de padarias e pastelarias Caldense, este tem sido um período difícil e que lhe parece estar ainda para durar, por isso é peremptório ao afirmar que estarem a operar "perto da normalidade, não".

Como destaca, "até estamos a pensar em tirar as mesas das padarias porque temos nalgumas só três ou quatro e não vale a pena".

Mas há agora pelo menos uma evolução positiva e, como refere, o volume de negócios recuperou "uns 15 a 20 por cento" desde a quebra inicial, no início da pandemia.

Contudo, a sua avaliação é de que face a igual período no ano anterior, a situação está ainda "uns 20 por cento" abaixo do normal.

Por outro lado, o ramo imobiliário – um dos principais sectores da economia canadiana – não só recuperou da quebra inicial como superou todas as expectativas batendo o recorde de venda de imóveis no mês de Julho, algo que Lázaro Ramos, fundador e gerente da Ramos Team, atribui a uma contenção temporária por parte dos compradores.

Como explica, o número de transacções normalmente aumenta na Primavera mas este ano muitas foram adiadas, resultando num influxo de clientes que simultaneamente entraram no mercado na mesma altura.

Este "pico" parece já ter sido ultrapassado e o mercado está agora mais estabilizado, mas, como refere, ainda "quente" e muito activo.

"De certa forma, as pessoas acho que se cansaram de esperar e chegaram à conclusão de que isto [pandemia] não desaparece assim tão depressa", explica Lázaro Ramos.

Como sumariza: "a vida continua e as pessoas continuam a precisar de viver, por conseguinte começaram inicialmente com alguma cautela e estão agora com mais coragem ou optimismo".

Manny Andrade, proprietário e gerente da firma de imobiliária Royal LePage Supreme, considera que a primeira semana de Abril foi o ponto mais baixo em termos dos receios da pandemia e do seu efeito no mercado, pelo que a situação "desde então tem vindo a melhorar de dia para dia".

Na sua avaliação, "o que está a acontecer agora é que a indústria, o público, todos em geral, aprenderam a trabalhar com todas as precauções relativas à Covid-19" o que resultou num mês de Julho notável para a indústria, com um aumento de vendas de "cerca de 20 por cento" em relação a 2019.

Segundo refere, os dados recolhidos no primeiro trimestre deste ano já indicavam que vinham aí meses prósperos, pelo que apesar do impacto da pandemia, "a nossa indústria reagiu bem, nós dentro da indústria reagimos bem e o público reagiu bem", estando-se agora a ver os resultados.

"Temos falta de [imóveis], juros historicamente baixos [e] dentro da indústria estamos confiantes, as pessoas estão confiantes e sabem que podem comprar e vender com todas as cautelas, sem risco de contaminação" pelo que "a oferta e a procura continuam como se nada tivesse acontecido", acrescenta.

Como explica, há muitos compradores activos no mercado e uma proporção de pessoas que compram pela primeira vez, na ordem dos 40 por cento, muitos dos quais continuam a ser "empurrados" para fora de Toronto pelo preço alto dos imóveis na cidade.

Essa procura mais elevada nos subúrbios está a estimular a subida de preços também nas regiões circunvizinhas.

"Aceitamos que esta é a nossa realidade agora, estamos a trabalhar com precauções e para a frente é que é caminho", conclui com pragmatismo.

Também o corretor Jonathan Silva, da imobiliária Homelife/City Hill, considera que Março e Abril foram "meses assustadores", em parte por causa da incerteza do que viria a acontecer, o que afectou drasticamente o mercado imobiliário, "mas nos dois últimos meses a situação inverteu-se".

"O mercado subiu bem mais alto do que estava antes da Covid-19 e os preços ficaram um bocadinho fora de controlo, com múltiplas ofertas" nas propriedades colocadas à venda, como refere.

Do ponto de vista de vendas, actualmente "estamos melhor do que antes [da pandemia] e a única coisa que realmente mudou foram os protocolos em termos da limpeza, desinfecção das mãos, uso de luvas, máscaras e tudo isso", destaca.

David Macedo, da Macedo Winery, verificou exactamente o contrário no seu sector, onde a incerteza inicialmente levou os apreciadores de vinho a abastecerem-se com quantidades maiores do que é habitual, não fosse haver alguma interrupção no abastecimento.

Contudo, com o passar do tempo a tendência do mercado foi de voltar aos níveis normais de vendas, que é o que nota neste momento, com o público a observar as regras de segurança ditadas pelas autoridades de saúde.

"As pessoas estão-se a acautelar muito e já estão mais educadas a respeito da Covid-19", destaca ao referir que muitas "antes de entrar já vêm com a sua máscara e esperam na fila à distância certa".

Considera por isso que "está tudo a ir para o lugar certo" e embora reconheça que há "sempre um aqui, outro ali que falha um bocadito", em geral "as pessoas estão a ser muito educadas – muito mesmo".

Entretanto, o mercado automóvel dá sinais de recuperação depois do que foi uma quebra brusca e repentina nas vendas.

Joe da Costa, vendedor de veículos na firma Addison, verificou um forte crescimento recentemente, o que atribui ao facto de muita gente estar a optar por utilizar o dinheiro que tinham destinado para fazerem férias em Portugal na compra de uma viatura nova, depois de se verem impossibilitados ou não se sentirem confortáveis a viajar.

"Não foi só connosco", diz-nos com convicção, ao salientar que este Verão "a indústria automóvel tem tido uma aceleração incrível" no volume de vendas.

Contudo, acautela para o facto de que "na economia as coisas estão mais ou menos estáveis enquanto o governo estiver a dar dinheiro" e que os subsídios estatais não vão durar para sempre.

"Continuamos com horas limitadas no nosso trabalho, não fazemos o dia inteiro ainda", elucida, ao ressalvar que "já não faz falta fazer marcação" como era necessário antes da pandemia – situação que considera geral a "todas as casas desta indústria".

Contudo, considera que "a seu tempo isso vai voltar ao normal – já está praticamente lá", ressalva.

Quanto ao futuro, "é um ponto de interrogação e não sabemos o que vai acontecer", conclui.

É para esta questão que o jornal Sol Português vai continuar a tentar obter respostas e a esclarecer os leitores, colhendo, analisando e transmitindo informações sobre a forma como a comunidade luso-canadiana está a ser afectada e a reagir face à pandemia.

* Na próxima edição continuaremos com a segunda parte deste inquérito sobre a forma como estão a reagir algumas das principais firmas luso-canadianas à pandemia.


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