COMUNIDADES EM FOCO


Lusófonas em cidade dos EUA pedem mais participação da população

Rita Mendes e Tina Cardoso, membros do conselho municipal da cidade norte-americana, onde vive uma grande comunidade cabo-verdiana, destacaram na passada semana a importância da participação cívica e pediram mais envolvimento da população.

A advogada de origem brasileira Rita Mendes e a enfermeira cabo-verdiana Tina Cardoso, ambas do conselho municipal de Brockton, no estado de Massachusetts (costa nordeste dos Estados Unidos), falavam numa conferência sobre direitos cívicos e participação política.

Primeira cabo-verdiana eleita para o conselho da cidade em 2019, Tina Cardoso declarou sentir orgulho quando os residentes telefonam e interagem com o gabinete do presidente da Câmara Municipal (`mayor').

"Cada vez que os meus irmãos e irmãs, pessoas de cor de Brockton falam, ou escrevem um e-mail aos conselheiros do `mayor', fico tão orgulhosa. (…) Estão envolvidos e participativos e é refrescante. Lutámos durante muito tempo para que as pessoas de cor estejam mais envolvidas civicamente", disse Tina Cardoso.

A conferência centrou-se na desigualdade racial nos Estados Unidos e a enfermeira cabo-verdiana lamentou que parte da população branca de Brockton veja os negros como causadores de problemas ou agitadores.

A participação cívica de grupos minoritários, no entanto, é menos do que a necessária, considerou, por seu lado, Rita Mendes.

"O problema de comunidades negras e imigrantes é que não se manifestam, não são aqueles que nos telefonam a dizer que querem impedir algum projecto, muitas vezes nem sabem até que esteja em votação, porque estão demasiado ocupados a trabalhar em dois ou três empregos diferentes e como pais solteiros têm de tomar conta dos filhos", disse a advogada e agente imobiliária brasileira.

"É melhor que participem, que falem connosco, dêem voz às suas opiniões, mas isso não acontece grande parte das vezes", acrescentou.

Tina Cardoso destacou que a violência vista nos Estados Unidos, exacerbada nos últimos meses em protestos pelo movimento Black Lives Matter e por apoiantes do antigo Presidente Donald Trump, é resultado de diferentes "frustrações que não estão a ser canalizadas de forma adequada".

"Às vezes, as pessoas tornam-se tão emocionais e frustradas por não serem escutadas" que só se sentem ouvidas quando protestam violentamente, considerou a conselheira da cidade, presidente do grupo de prevenção da violência doméstica Cape Verdean Woman United (Mulheres cabo-verdianas unidas).

Para prevenir a escalada de tensões e actos de violência, Tina Cardoso defendeu um trabalho "mais profundo" dentro da comunidade e da população, com mais empatia, compreensão e diálogo.

"Temos de decidir como educar jovens a canalizar as frustrações de uma maneira positiva", declarou.

A conselheira com origens cabo-verdianas destacou a necessidade de haver mais compreensão entre diferentes grupos populacionais dentro do mesmo círculo eleitoral.

"Os meus eleitores negros telefonam por uma grande gama de razões (…) porque estão a sofrer, estão com sede e fome por alguém a quem possam chegar que fale a mesma língua, que se assemelhe a eles, que tenha passado por onde passam e com as mesmas experiências", explicou a responsável.

Entre os assuntos destacados pelos eleitores negros, Tina Cardoso salientou a violência doméstica vivida nas comunidades, falta de dinheiro para pagar rendas ou hipotecas e necessidades de alimentação.

"Os meus eleitores brancos só me telefonam quando há um desenvolvimento na área onde vivem", contrapôs a conselheira, acrescentando que os diferentes grupos populacionais precisam de união e confluência.

Rita Mendes aconselhou a reunião de pessoas a causas em organizações ou associações porque uma voz só não chega longe, mas ganha mais força quando está num coro de vozes com o mesmo objectivo.

Entre os assuntos discutidos na conferência, moderada pelo presidente da comissão da diversidade de Brockton, Tony Branch, estiveram ainda projectos em votação e formas de aumentar a participação política e de atrair mais representantes de diversas comunidades.


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