PENA & LÁPIS


Europeísta iliberal, mas não tolo

Por Hélio Bernardo Lopes
Sol Português

Como já todos sabem, a aprovação de vacinas contra a Covid-19 tornou-se numa verdadeira mensagem de alegria. A verdade, contudo, é que as pessoas, em proporção não desprezável, estão longe de dar um crédito absoluto ao valor desses fármacos.

De modo concomitante, o anunciado pelas empresas farmacêuticas ocidentais está muito longe de se nos mostrar capaz, antes deixando de si transparecer a ideia de uma enorme falta de organização, mostrando-se incapazes de cumprir acordos livremente celebrados.

Também vai transparecendo, no meio deste falhanço contratual, que a aprovação das vacinas estará sujeita a grande pressão política, bem como a necessidades ingentes em face da hecatombe económica para que o Ocidente se deixou levar.

No meio de toda esta balbúrdia estão as grandes potências e outras que o não são, mas que olham para os seus interesses e não para os do Ocidente, ou da União Europeia. Refiro-me aqui aos casos da Alemanha, que se deitou a contratar para lá do estabelecido por Bruxelas, e da Hungria, cujo Governo resolveu defender o interesse do país e dos húngaros, recorrendo a um contrato com as autoridades russas a fim de adquirir a vacina Sputnik V.

Costuma dizer-se que tem de dar-se a cada um o que merece, e o que é verdade é que Órban não esteve com meias medidas: em face do comportamento alemão e perante a situação dos húngaros, determinou-se a comprar a vacina russa, Sputnik V, bem como a da Astrazeneca. Será europeísta e objectivamente iliberal, mas não é tolo.

Deste modo, a Hungria passou a ser o primeiro Estado da União Europeia a adquirir a Sputnik V, ainda não aprovada pela Autoridade Europeia do Medicamento. E fez bem.

Recentemente, os Ministros da Saúde da Rússia e da Hungria expuseram esta realidade ao mundo, em conferência de imprensa conjunta, ficando a saber-se que o Regulador de Saúde da Hungria aprovou o uso da vacina Sputnik V e da Astrazeneca, embora a Agência Europeia do Medicamento ainda não tenha aprovado nenhuma delas.

É como escrevi atrás: o Primeiro-Ministro húngaro, Órban, é um europeísta iliberal, mas não é tolo. Perante as circunstâncias de impasse, mais que visíveis, com as empresas ocidentais, andou para diante, sabendo compreender o real papel da propaganda ocidental contra a Rússia, bem presente neste caso das vacinas contra a Covid-19.

Um ponto muito positivo em favor de Órban, mesmo sendo iliberal.


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