PENA & LÁPIS


Covid-19 e distracções: Um passo em frente e dois atrás

Por Inácio Natividade
Sol Português

A humanidade deu um grande passo no uso da ciência e tecnologia como estratégia de desenvolvimento humano, e da mesma forma na produção de pessoas treinadas a ver-se como maximizadoras racionais de lucros.

Mas existe outra face da moeda: coabitamos ainda com muita pobreza intelectual e obscurantismo, a funcionar como pedra de bloqueio e a impedir que se saia da incapacidade de pensar e processar a informação de acordo com padrões universais aceitáveis.

As massas eventualmente escutam o que as entretém e convém. Ora, ninguém mais do que políticos e religiosos com o dom de palavra possuem capacidade mobilizadora que lhes supere. Uns a prometer o céu na terra e outros a assumir que, por intervenção divina, lhes é outorgado prometer o céu, condenar ao inferno ou manter os crentes presos no limbo.

O medo de uma potencial infecção pelo vírus Covid-19 é generalizado, bem como do desfecho da doença. Existem medos reais, angústias e ansiedade, mas nada existe de apelativo em a pessoa ser ignorante e burra.

Temos gente, doentiamente carente e céptica, a dar mais crédito às fofocas e desinformação plantadas por lunáticos e religiosos do que no governo. O descrédito no governo e na democracia não deixa espaço ao diálogo com a ciência em tempos de pandemia. Abre portas a bruxos e cartomantes.

O facto é que a Covid-19, globalmente, já ceifou a vida a milhões e infectou milhões de outros, além de deixar um vasto rasto de desempregados a viver na precariedade. Negar a existência da Covid-19 e as suas variantes sul-africana, brasileira e do Reino Unido, ou recusar o uso da máscara e a tomada da vacina é loucura absoluta.

A humanidade deu um passo em frente e dois atrás. Há muito ruído, teorias de desinformação no ar escudadas na liberdade de expressão e fanatismo religioso com potencial de colocar a saúde em risco. Em algumas dessas teorias considera-se que a vacina é "marca da besta" ou que irá provocar a esterilização em mulheres. Outros acham que o coronavírus não é real, mas invenção do governo. Em vários países há manifestações contra o confinamento... Coisas de doidos varridos.

Depois das festas entrámos numa espiral aguda de contaminação do vírus, a ponto de julgar que todas as medidas de confinamento a que estamos sujeitos iriam desabar. Os números diários de infecções na cidade de Toronto chegaram a superar as mil por dia e das mortes as dezenas.

Tirando profissionais de saúde, não estamos habituados a lidar com a morte, que começou a acontecer nesta fase com mais assiduidade. A todo o custo, a morte deve ser retardada até à velhice, caso contrário morremos antes de finar o dia. Em alguns casos, basta um infectado para causar um surto e espalhar a doença por diversas regiões.

Nem todos nos conformamos com a ideia do vírus ter vindo transformar o modo de vida para sempre.

As festas fizeram com que irresponsavelmente relaxássemos as defesas: desinfectámos menos as mãos, emocionalmente desrespeitámos o distanciamento social, o uso da máscara e quebrámos a receita de limites ao ajuntamento de pessoas em recintos fechados.

Se de certa forma o stress causado pela Covid-19 pode explicar a necessidade de afecto familiar, o Natal e as festas do Ano Novo constituíram o momento ideal para a propagação do vírus. Beijinhos aqui, abraços ali, cantos e danças, conversas animadas no círculo de parentes e amigos… Só que a Covid-19 não veio para animar a festa, mas para arruinar-nos a vida e fazer-nos reflectir sobre a nossa existência como raça humana.

Todos conhecíamos os riscos. Não se trata de uma doença inteligente, somos certamente mais inteligentes. Foi um momento de distracção e fraqueza a reforçar a ideia de que, com sacrifício e disciplina, podemos resistir à Covid-19 até à chegada da vacina que permite criar os anticorpos de defesa necessários para a sobrevivência da espécie humana.


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