PENA & LÁPIS


Correspondente da Califórnia:

Cem mil Mortos sem direito a Luto

"Não há luto como o que não se expressa"

Henry Longfellow

Poeta americano (1807-1982)

Por Diniz Borges

Sol Português

Os Estados Unidos ultrapassaram mais de 100 mil pessoas mortas pelo coronavírus, em cerca de 3 meses, o dobro das vítimas americanas na guerra do Vietname. Todos os dias, cerca de 20 mil pessoas são diagnosticadas com o Covid-19 e, apesar de um decréscimo significativo nos últimos dias, cerca de 1000 pessoas morrem vítimas da doença diariamente. Milhares de famílias foram afectadas, porém ninguém pensa num luto nacional.

Numa sociedade altamente polarizada, os americanos voltam, aos poucos, a uma nova normalidade, que em várias regiões do país não difere do mundo pré-pandemia. E o feriado do Memorial Day, em que os americanos lembram os heróis americanos falecidos em tempo de guerra, assim como os seus próprios familiares e amigos, passou-se, sem qualquer menção aos 100 mil (nesse dia ainda 99.784) americanos, que sucumbiram ao inimigo silencioso. Nem uma única lágrima colectiva. Nem tão pouco um momento de unidade nacional em respeito pelas vítimas.

As vivências da sociedade americana em torno desta pandemia são muito diferentes dos outros momentos difíceis que a América tem ultrapassado. Quando o porto de Pearl Harbor foi atacado em 1941, o Presidente Roosevelt movimentou um país para entrar na guerra com palavras de profundo sentimento para com as vítimas do bombardeamento.

Quando a nave espacial Challenger explodiu em 1986, tornando as salas de aula em espaços de pesar e dor, o presidente Ronald Reagan fez uma comunicação ao país falando directamente da ferida. Após o 11 de Setembro de 2001, o presidente George W. Bush realizou uma série de eventos e a América viveu uma onda de cerimónias que serviram como catarse nacional para o choque colectivo e em homenagem às 3 mil vítimas. As cem mil vidas ceifadas pelo coronavírus, foram memorizadas com a bandeira a meia haste, depois dos líderes democratas da Câmara e do Senado terem insistido, e Donald Trump a jogar golfe. Pela população os tradicionais desfiles de bandeira em nome dos mortos em tempos idos, com muitos cidadãos americanos (incluindo luso-americanos) insultando-se nas redes sociais sobre o confinamento. Ainda mais uma vez, a falta de empatia do Presidente marca a sociedade e torna-nos muito mais selváticos. É que tal como escreveu Vitor Hugo: quem não chora, não vê.

Na realidade a pandemia tem afectado, como se disse, muitas famílias americanas. Enquanto que os cidadãos americanos têm sofrido algumas dificuldades desde Março, incluindo cerca de 40 milhões de homens e mulheres agora no fundo do desemprego, e dezenas de milhões restringidos às suas casas, a carnificina afecta a sociedade americana com uma enorme desigualdade, resultado do que andámos a semear durante muito tempo. Como ouvi algures, podemos estar na mesma tempestade, mas estamos em barcos diferentes. Esta pandemia trouxe à flor da pele (para quem queira ir além da confecção de produtos da panificação e do desespero de não poder ir ao bar da esquina ou ao adro da igreja para o tradicional mexerico), as várias Américas que existem na América.

Ao recusar debruçar-se sobre estes números sombrios, o Presidente alimenta a polarização e o divisionismo, fragmentando o país, distraindo a população, enquanto deparamos-nos com número de mortes inexplicável. Na realidade, Trump compreende que só com a fragmentação da sociedade americana, que apenas com uma trajectória ilusória em que viramos a cara a esta tragédia nacional, em que os tweets e as afirmações bombásticas colocam cidadão contra cidadão, famílias contra famílias, amigos contra amigos, ciência contra opiniões despojadas dos conhecimentos mínimos que se aprende numa aula básica de matemática, só com tudo isto, poderá ter possibilidade de ganhar as eleições em Novembro. Se não se falar dos mortos e dos que sofrem, porque estamos ocupados com o insulto e a vaidade, Donald Trump ganha as eleições. Ele sabe isso como sabem os seus assessores. Bastou uma simples notícia com uma nova sondagem indicando que os religiosos mais fundamentalistas, os ditos evangélicos, estavam a distanciar-se dele, e de repente, aparece nas câmaras da televisão exigindo que as igrejas, as sinagogas e as mesquitas reabrissem e já. Sabendo de antemão que constitucionalmente não tem qualquer poder sobre essa decisão. Foi o suficiente para provocar mais um incêndio nas redes sociais. Mais uma acha no lume constante do divisionismo.

Infelizmente as sondagens e inquéritos mostram-nos enormes fracções nas vivências americanas nestes tempos da pandemia. Há uma clara disgregação que engloba raça, geografia e, como era de esperar, partido político. Apesar de haver muito mais famílias afectadas pelo Covid-19 do que o ataque terrorista de 11 de Setembro, não existe a união de há quase 19 anos. Neste momento vivemos duas narrativas antagónicas. Não há união. Vários grupos minoritários têm tido maiores proporções em infecções e mortes.

As comunidades afro-americana e hispânica têm sido atingidas severamente, particularmente por motivos socioeconómicos. As comunidades mais vulneráveis, e economicamente desfavorecidas, não têm o mesmo acesso aos cuidados de saúde da classe média e dos mais afluentes. Acresce-se, que depois da desastrosa propagação do vírus em superlotadíssimos centros urbanos, como Detroit, Chicago e New Orleans, tradicionalmente mais liberais, o Covid-19 alastrou-se a meios rurais, tipicamente mais conservadores. Mas aí o maior número de vítimas foi, essencialmente: os imigrantes que trabalham nas fábricas de processão de carnes, os reclusos em prisões e os idosos em lares da terceira idade. Tudo gente que não vota e da qual a actual sociedade americana não tem tempo para reflectir, muito menos dar-lhes espaço na narrativa nacional.

Como a pandemia não tem o espectáculo televisivo, repetido ad nauseam nas redes sociais, com a exibição simultânea 100 mil caixões em procissão pelas ruas americanas, as pessoas ficam-se pelo desconforto de dois meses de confinamento e pelos estragos na economia, que nos Estados Unidos, e pelos vistos, em várias outras partes do mundo, fala mais alto. A confusão semeada pelo Presidente e o excessivo zelo de alguns Governadores democratas, semeia uma grande balbúrdia num povo que está habituado a ver o mal além-fronteiras. Este número exorbitante de 100 mil mortos nuns escassos meses, são manipulados pelo Presidente e os seus aliados. É mais do que óbvio que falando dos números retira-se a parte humana. As cem mil pessoas mortas tornam-se em meras estatísticas, sem uma cara, uma vida, uma família. Sem o direito ao luto. O Presidente iliba-se de qualquer responsabilidade e o país de qualquer remorso.

Em tempos de crise, a América tem tido momentos que marcaram não só os Presidentes, mas também a idiossincrasia estadunidense. Podemos ir à história e citar a alocução de Abraham Lincoln no cemitério de Gettysburg, onde ainda hoje se sentem os gritos de guerra quando se visita aquele chão sagrado, com o derrame de sangue de primos e irmãos. O célebre discurso deu espaço para as lágrimas e a esperança. Já neste século XXI, foi marcante o improviso de George W. Bush (com quem quase sempre discordei em termos de política interna e externa) após o 11 de Setembro, empunhando um megafone e um braço por cima de um bombeiro. Em 2015, o solo "Amazing Grace" cantado por Barack Obama, numa cerimónia em honra de nove pessoas mortas dentro de uma igreja, foi um momento único para a sua presidência. Com mais de 100 mil mortes, com zonas tremendamente afectadas e com tanta incerteza, Donald Trump, optou por, durante os momentos mais tensos e de maior número de perda de vidas, usar o púlpito presidencial para insultar jornalistas. Nem um abraço numa única família, nem uma visita a um hospital, nem tão pouco usa a máscara que os seus próprios assessores e epidemiologistas recomendam que usemos durante algum tempo. Ao longo das várias semanas, nas suas múltiplas vociferações na Twitter, nem uma palavra sobre as vítimas ou os que choram a perda dos seus familiares, amigos, colegas e vizinhos. Preferiu que o seu habitual, e preferido contacto directo através de tweets, fosse composto por assaltos explosivos aos seus adversários, à China, à Organização Mundial da Saúde, à comunicação social e como sempre a tudo e todos que antevê como potenciais inimigos, reais e imagináveis.

A primeira página do New York Times, com os nomes das vítimas do coronavírus no domingo que antecedeu o Memorial Day, criou algum desconforto, e ainda bem. Como o jornal nos relembrou não são apenas nomes numa mera lista ou a estatística de uma pandemia, são homens e mulheres, velhos e novos: Somos nós. Num momento em as pessoas morriam, e ainda morrem, no confinamento de um quarto de hospital ou de um lar de idosos, sem o amparo de qualquer familiar ou amigo, é lamentável que não tenhamos tido momentos colectivos de pesar. Que a nível nacional não tenha havido a empatia de permitir que, como sociedade, tivéssemos tido um momento de luto comum que servisse como catarse para as famílias em dor e para que que o país, em momento de paragem, tivesse uma necessária reflexão. Para que tivéssemos, como o fizemos em outros momentos de crise nacional, partilhado a dor de 100 mil famílias. Fez-nos falta uma lágrima nacional.


Voltar a Pena & Lápis


Voltar a Sol Português