PENA & LÁPIS


Dia da Espiga – Um encanto de tradição bem nossa!

Por Idalina da Silva

Sol Português

No passado dia 21 do mês findo, recebi de uma amiga uma mensagem a desejar um Feliz dia da Espiga. Caramba, como era possível, ela de Timor lembrou-se e eu não. Com as suas palavras vivi o que há 53 anos não celebro, o Dia da Espiga.

Na nossa casa era um dia especial, não por ser quinta-feira da Ascensão, uma festa Católica, mas por ser o primeiro piquenique do ano, ir até ao campo, apanhar os vários componentes que fazem parte desse raminho tradicional.

Tempos jamais esquecidos, éramos como os três mosqueteiros, "um para três e três para um". Todos os anos, com o nosso almoço na mala do carro, geralmente pastéis de bacalhau com arroz de grelos ou carapaus fritos com arroz de feijão e salada, uma manta Alentejana para estender à sombra de uma árvore e umas almofadas para dar um pouco mais de conforto à soneca depois do almoço, partíamos à descoberta dos prados na Região Saloia, onde houvesse lugar para merendar.

Na última vez fomos até Almeirim. Os meus pais adoravam o tradicional melão verde riscado e nesses tempos comprava-se aos agricultores na borda das estradas (nos dias de hoje em vias de extinção, vencido pelo aumento de produção de melão branco), que nessa época fez famosa esta cidade ribatejana, o pão da fornada matinal, e o nosso paraíso estava pronto.

Como eu adorava correr pelos pardos com os braços abertos como se fosse um avião, tocando nas espigas como se fosse um avião, nas papoilas, abraçar oliveiras e deixar um segredinho de criança lá guardado. Chegávamos a Lisboa com o sol poente. Eram experiências mágicas demais. Guardei cada passo, cada sorriso, cada choro e teimosia, no meu coração, essas raízes moldaram a minha infância, a minha adolescência.

Tradicionalmente, o Ramo da Espiga era colocado atrás da porta principal da casa e ficava lá todo o ano, até ser substituído no ano seguinte por um ramo novo. Este ramo tido como um símbolo de prosperidade e ao mesmo de sorte.

A última vez que celebramos o Dia da Espiga tinha eu 13 anos e acreditem que o raminho veio no ano seguinte para Toronto. Não por ser supersticiosa, mas porque sabia que não voltaríamos tão cedo a festejar essa celebração. E assim foi, nunca mais o fizemos.

A Festa da Ascensão, ou quinta-feira da Ascensão é uma festa marcadamente Católica, sendo feriado municipal em muitos concelhos de Portugal. No entanto, em simultâneo com ela, e provavelmente com maior adesão, celebra-se o Dia da Espiga, ou quinta-feira da Espiga. Uma origem e tradição dos rituais pagãos, com especial enfoque nas culturas célticas e romanas, a celebração das primeiras colheitas, pedir pela qualidade e quantidade destas, remontam a esses tempos.

Era costume pelo meio da Primavera, mais ou menos em Maio, e sempre tiveram grande implementação Popular. Com a chegada do Cristianismo, e tendo em conta as datas das celebrações da Páscoa, em Portugal acabou -se por juntar à Festa da Ascensão, celebrada 39 dias depois da Páscoa.

O fim deste Feriado Nacional foi em 1952. No entanto, muitos Concelhos mantiveram-no agora como feriado Municipal. Foi assim que também nasceu o negócio, muito visível em Lisboa, do Dia da Espiga. Da região Saloia, especialmente de Mafra visto manter o feriado, pessoas do campo vinham para a cidade vender estes ramos a quem trabalha ou vive na capital. Em muitos mercados da cidade também se continua a ver as vendedoras locais a venderem o Ramo da Espiga.

As espigas devem ser sempre em número ímpar, e são a parte mais importante do ramo. Podem ser de trigo, centeio, aveia, ou qualquer outro cereal. Representam o pão, como a base do sustento da família, e a fecundidade. Com a sua cor vibrante a Papoila significa neste ramo o amor, e a vida. Sendo a parte mais garrida do ramo acaba por ser também aquele que mais se decai com o passar do tempo, ao escurecer e secar. O malmequer simboliza no ramo a riqueza, e os terrenos. Isto pelo seu branco simbolizar a Prata, e ao mesmo tempo o amarelo simbolizar o Ouro. A Oliveira acaba por ter um duplo significado no Ramo da Espiga.

Em parte significa a Paz, o desejo pela mesma. Sendo que é um dos símbolos da Paz desde a antiguidade. Ao mesmo tempo é o símbolo da Luz, visto do seu óleo, azeite, se encherem as lâmpadas que alumiavam as casas. Sendo que esta Luz pode ser interpretada como o sentido divido da mesma, significando a sabedoria divina.

Tal como a Oliveira, o alecrim é uma presença constante pelo mediterrâneo. Com o seu cheiro forte e duradouro, e sendo uma planta que resiste a quase tudo, simboliza no ramo a força e a resistência.

Ao contrário da Papoila avançando no tempo o seu cheiro vai-se aguentando, e a sua presença torna-se cada vez mais notada no ramo. A Videira usada em alguns lugares representa o vinho, também a associação à alegria, ligada ao Vinho na nossa cultura.

Estas são as plantas principais do Ramo da Espiga, sendo que tradicionalmente qualquer outra planta que surja durante a caminhada do Dia da Espiga pode ser adicionada para embelezar. No entanto reza a tradição que não falte nenhuma delas, para não faltar o que ela representa.


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