PENA & LÁPIS


"I can't Breath"! (Eu não consigo respirar!)

Por Inácio Natividade
Sol Português

Quando um polícia branco em Minneapolis matou por asfixia de joelho o cidadão negro de nome George Floyd, ateou o fogo do racial na América. O facto evidenciou que no país existe um vírus muito superior ao Covid-19, o racismo.

A América e o mundo despertaram estupefactos, quiçá incrédulos com as imagens de 4 polícias, um deles num acto deliberado ao pressionar com o joelho no pescoço (provocando a asfixia) um cidadão negro, algemado e deitado no chão.

-"I can't Breath"! George, mesmo assim deixava escapar aflito.

O homem havia sido detido por tentar comprar um maço de cigarros usando uma nota falsa de 20 dólares. Por uns míseros 20 dólares foi assassinado pela polícia. A autópsia não mente, George Floyd morreu por estrangulamento.

Esta é a verdadeira América, a viver entre a bruma da memória saudosista dos tempos das leis de Jim Crows, tempo em que práticas de sevícias e linchamento de afro-americanos às mãos de rufias racistas eram recorrentes do quotidiano político.

E por onde anda a ética policial? Uma sociedade racista molda instituições racistas, assim, a violência policial contra os negros na América, assim como o racismo, constituem uma endemia na sociedade estadunidense e ferem de morte como premissa a lógica da estabilidade democrática.

Passaram-se seis dias do epicentro em Minneapolis, a Nova Iorque, Los Angeles e Washington, DC, as manifestações de protestos contra a violência policial que alastram nos Estados Unidos. Cerca de 45 milhões de afro-americanos e muitos brancos anti-racistas não escondem o coração dilacerado. Esta não é certamente a América que sonhavam…

Em primeiro de tudo, George Floyd nunca deveria ter sido morto sob custódia policial. Eram 4 polícias e estava algemado.

Os quatro polícias envolvidos no incidente foram despedidos, e o agente Derek Chauvin, que colocou o joelho no pescoço de Floyd foi detido, acusado de assassínio em terceiro grau e de homicídio involuntário.

Não se pode branquear a vergonha do sucedido.

As pessoas que se manifestam pacificamente não são rebeldes nem esquerdistas mas seres indignados. O que aflige os americanos é que mesmo sendo um país que abraçou a cultura do racismo, já era tempo de se erradicarem certos procedimentos e de melhorar-se o sistema de justiça criminal.

A própria pandemia descortinou existir uma enorme disparidade racial e evidenciou que o Covid-19, infecta mais os negros e novos imigrantes. E a explicação para esta disparidade, podem ir além dos níveis de pobreza, como sugerem estudos sobre preconceitos raciais implícitos na comunidade médica.

Como se explica que estados com minoria de população negra como Milwaulkee, no estado de Wisconsin, o número de infecções pelo coronavírus em 49 mortes até a semana passada, 72 por cento de mortes eram negros quando estes constituem apenas 26 por cento da população? Esta disparidade repete-se em quase todos os estados americanos.

Vir acusar os segmentos da extrema esquerda do fogo da revolta ateada, demonstra que a administração Trump anda entretida em extremar a ideologia para proveito político. As pessoas protestam e com razão. Trump procura sempre uma verdade alternativa aos factos…

Foi um acto criminoso e vergonhoso. Um agente da autoridade é suposto ser íntegro, protector da ordem pública e não um facínora ou membro da Ku Klux Klan ou de outras organizações supremacistas brancos. Actos destes têm se multiplicado nesta América de Trump e os políticos assobiam de lado. Desta vez porém, o povo decidiu em uníssono gritar "I cant breath!"ou "Black lives matter!"

Embora seja um tema fracturante, existe muita zanga e raiva contida nas ruas da América e um pouco por todo mundo, incluindo Canadá, mas não será quebrando vidros ou promover pilhagens e destruição de infra-estruturas económicas. Esses actos apenas podem eclipsar o essencial do discurso. Como alguém em tempos disse "não basta a pessoa afirmar-se não racista. O importante é ser-se anti-racista."

O polícia asfixiou o homem por ser negro, e este tipo de acções de crueldade ou torturas racialmente motivadas que podem levar alguém à morte, devem ser de imediato denunciadas pelos políticos.

Quando se aguardava que o momento fosse de inflexão a uma ordem desejável para o acalmar de ânimos, Donald Trump preferiu mostrar o quão interessado está em iniciar uma guerra fria com a China. Atacar a República popular da China como país de origem do vírus para escamotear o racismo na América, é tentar tapar o sol com a peneira. E não escamotear a incompetência e a forma miserávelista da sua administração em lidar com o Covid-19.

Mais tarde, do bunker onde esteve escondido na Casa Branca e em vídeo conferência ridicularizou os governadores chamando-os de fracos etc, e que deveriam agir com agressividade contra os manifestantes.

Donald Trump e o responsável pela escalada de violência racial na América. Ele age e actua como o incontestável líder de supremacistas brancos.

Na quinta-feira, a alta comissária da ONU para os Direitos Humanos, Michele Bachelet, condenou o caso, apelando às autoridades para adoptarem "medidas sérias" para pôr termo a estas mortes de afro-americanos.


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