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Orçamento do Ontário:

Charles Sousa e Kathleen Wynne destacam novas iniciativas

Conferência de imprensa convocada pelo ministro luso-canadiano incluiu a participação de um painel ministerial integrado pela primeira-ministra

Por João Vicente
Sol Português

Convidados a estarem presentes no hotel Delta de Scarborough na passada terça-feira (3) para assistirem a uma apresentação do ministro das Finanças Charles Sousa acerca do novo orçamento provincial, representantes dos órgãos de comunicação multiculturais depararam-se com um painel de ministros que incluiu a própria primeira-ministra do Ontário, Kathleen Wynne.

A premier deslocou-se acompanhada de uma comitiva de elementos do seu governo, incluindo os ministros Michael Couteau, Mitzie Hunter e Laura Albanese, assim como os deputados Soo Wong e Han Dong, com este último a juntar-se-lhes um pouco mais tarde.

Em antecipação das próximas eleições, marcadas para o Verão, e procurando contrariar as intenções de voto que, segundo as mais recentes sondagens, apontam para uma possível vitória do Partido Conservador, a máquina eleitoral do governo Liberal pretende dar destaque a toda uma série de iniciativas contidas no novo orçamento e que espera venha a alterar essa tendência.

A sessão de informação consistiu de uma apresentação na qual participaram quase todos os elementos do painel ministerial que compareceram à conferência de imprensa, seguida de um período de perguntas e respostas moderado pelo conselheiro sénior de relações com os media, Scott Blodgett.

Trata-se, conforme revelaram os participantes, de um orçamento que prevê grandes investimentos que irão tocar em quase todos os sectores, incluindo saúde, serviços sociais e, especificamente, a prestação de cuidados infantis, cuidados domiciliares e de saúde mental, assim como oportunidades de emprego.

Reservado para este evento estava o anúncio de mais um investimento, desta feita a ser aplicado nos órgãos de comunicação social multiculturais, com a premier a revelar pretenderem "dedicar dois milhões de dólares por ano, durante os próximos três anos, para um novo Fundo de Media Cultural do Ontário"

Segundo Kathleen Wynne este montante destina-se, pelo menos em parte, a incentivar estes órgãos de comunicação a investir na recolha de dados sobre o alcance da informação que publicam e que será condição sine qua non para obterem outras verbas do governo provincial, incluindo qualificarem-se para a colocação de publicidade governamental.

A primeira-ministra aproveitou para expor a sua visão para o Ontário, destacando que a economia está saudável mas que há grandes alterações em curso, desde rápidos avanços tecnológicos a uma crescente proporção de idosos na sociedade.

Prefaciando as suas palavras com a opinião de que "o governo existe para fazer as coisas que as pessoas não conseguem fazer por si sós", a chefe do governo prosseguiu a sua explicação para concluir que é necessário continuar a investir uma vez que nem toda a gente tem vindo a beneficiar da prosperidade da província, enquanto que a velocidade das alterações em curso geram incerteza em relação ao futuro.

Em contraste, referiu a posição tomada pelos Conservadores, de que é preciso reduzir as despesas, para declarar que isso irá afectar a prestação se serviços, numa clara alusão à campanha eleitoral que culminará com as eleições provinciais de 7 de Junho.

Desfiando o rol de investimentos que integram este orçamento, referiu as consultas públicas que se realizaram por toda a província como o ímpeto para a tomada dessas medidas, incluindo o alargamento do acesso gratuito a medicamentos para jovens e idosos e o subsídio para cuidados dentários.

A litania de novas iniciativas continuou com a referência ao subsídio de 750 dólares por ano para idosos que vivem em casa, a prestação de cuidados de saúde ao domicílio, a criação de 30 mil novos leitos para cuidados de longo prazo (incluindo 5000 dedicados a cuidados "culturalmente apropriados" em comunidades multiculturais e indígenas), mais de dois mil milhões de dólares investidos nos serviços de saúde mental, a expansão do programa de propinas gratuitas, o aumento do salário mínimo para 15 dólares/hora e a abertura de mais vagas em creches de qualidade e que, segundo ela, irão devolver à economia alguns dos 60 mil milhões de dólares de produtividade feminina que se estima serem perdidos pelas mães que não têm onde deixar os filhos.

Quanto ao ministro Charles Sousa, que principiou a sua alocução fazendo salientar que este foi o sexto orçamento apresentado por ele, atribuiu a inspiração à primeira-ministra Wynne cuja "visão progressiva, mas fiscalmente responsável", tem sido o factor por trás de todas as medidas propostas até à data.

Charles Sousa referiu os 600 milhões de dólares de saldo positivo registados nas finanças do governo no ano transacto, o que aconteceu pela primeira vez em dez anos, e considerou a decisão consciente de incorrer novamente em dívida como uma forma de dar resposta às necessidades dos residentes do Ontário, afirmar a competitividade da província e estimular a economia.

Na sua opinião, o motivo da economia estar de boa saúde e a taxa de desemprego ter atingido os níveis mais baixos das últimas duas décadas deve-se aos investimentos feitos anteriormente.

No decorrer de um período de perguntas e respostas, vários interlocu-tores manifestaram o cepticismo das comunidades que representam em relação ao agravamento da dívida pública, com o ministro das Finanças e a primeira-ministra a defenderem essa decisão.

Kathleen Wynne referiu a importância de investir por forma a permitir devolver trabalhadores ao activo, designadamente mães, pais ou outras pessoas que cuidam de familiares idosos ou deficientes.

Charles Sousa destacou ainda o facto de que cinco dos oito orçamentos provinciais equilibrados apresentados no Ontário nos últimos 40 anos partiram dos Liberais e realçou que enquanto no ano 2000 15 cêntimos de cada dólar se destinavam a pagar a dívida pública, essa despesa é actualmente de apenas 8 cêntimos.

Por forma a colocarem alguns dos valores em perspectiva, a premier e o ministro das finanças realçaram ainda a grandiosi-dade da economia do Ontário, tanto em tamanho como em volume de negócios, e que os cálculos estão a ser feitos em relação ao PIB (Produto Interno Bruto).

Na sua opinião, os investimentos feitos, incluindo na área da educação, têm permitido atrair mais investimento estrangeiro de gigantes corporativos como a Amazon ou Google, companhias que criam mais postos de trabalho e que apenas consideram instalar-se na província devido às condições sociais, educacionais e parcerias criadas pelo governo com empresas privadas.

Katlheen Wynne citou o exemplo da agência noticiosa Reuters, que se fixou no Ontário ciente de que durante anos irá poder continuar a contratar profissionais qualificados, enquanto Charles Sousa citou estudos independentes que apontam para uma mais valia desses investimentos, na ordem de seis dólares de rendimento por cada dólar investido.

Confrontados ainda com questões ligadas ao surgimento de tecnologias como inteligência artificial, robôs e carros autónomos, que se prevê venham a afectar profundamente o mercado de trabalho nos anos vindouros, tanto a ministra da Educação como o ministro das Finanças expressaram a sua opinião de que se trata de uma evolução que é inevitável, motivo pelo qual estão a investir na formação dos profissionais que irão ter um papel activo no desenvolvimento dessas tecnologias, bem como na descentra-lização de investimentos e na criação de parcerias entre empresas, escolas e o governo.

Menos precisas, porém, foram as informações referentes a medidas preventivas ou um plano estruturado para lidar com o impacto dessas mudanças no mercado de trabalho, além do treino e recer-tificação dos trabalhadores na esperança de que encontrem emprego noutras áreas, uma vez afastados dos seus empregos iniciais pelo avanço dessas tecnologias.

Este foi um de uma série de eventos semelhantes destinados a esclarecer o público sobre o novo orçamento, tendo decorrido uma segunda sessão em Mississauga no dia seguinte.

Já na semana anterior a deputada Cristina Martins tinha organizado um evento semelhante em Toronto, no distrito que representa, Davenport, e no qual estiveram representados vários sectores empresariais e comunitários.

A sessão informativa, que decorreu na manhã de quinta-feira, 29 de Março, após a apresentação na véspera do novo orçamento provincial na Assembleia do Ontário pelo ministro das Finanças Charles Sousa, teve lugar na sala comunitária da esquadra 14 da Polícia onde o público reagiu de forma positiva às medidas anunciadas.

Apresentado pela deputada como "um investimento nas pessoas da província do Ontário", dado haver "quem não esteja a sentir" a prosperidade que a pro-víncia e o país atravessam, Cristina Martins destacou uma série de iniciativas previstas neste orçamento e que, indicou, vão tocar quase todas as pessoas.

Entre estas, referiu o alargamento do plano de saúde OHIP+ por forma a garantir medicamentos gratuitos para as pessoas com mais de 65 anos, à semelhança do que aconteceu em Janeiro com os jovens, e a criação de um subsídio para a limpeza de neve ou jardinagem, até 750 dólares por ano, iniciativa que pretende ajudar a população sénior a poder continuar a viver nas suas próprias casas, mesmo quando estas tarefas se tornam já difíceis ou impossíveis.

São investimentos avultados e que contribuem para o alargamento do défice, mas que Cristina Martins considera serem justificados por deles haver necessidade.

É o caso do subsídio que se destina a facilitar o acesso a tratamentos dentários e que prevê a comparticipação por parte do governo dos primeiros 400 dólares (no caso de pessoas solteiras; 600 dólares por casal ou 700 para uma família de quatro pessoas) para quem não tem seguros privados ou OHIP+ – um investimento estimado em 800 milhões de dólares nos primeiros dois anos do programa.

A deputada realçou ainda investimentos na área da educação, nomeadamente no programa de empréstimos para estudantes (OSAP), e de infra-estrutura, que considerou irem beneficiar especificamente o distrito de Davenport – onde reside a maior percentagem de portugueses e luso-canadianos do país – incluindo a construção de três novas estações de comboios da rede GO.


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