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Sexta-feira Santa:

Procissões destacam paixão e morte de Jesus Cristo

Por João Vicente e Noémia Gomes
Sol Português

Na tarde de Sexta-feira Santa (30) a famosa procissão da paróquia de São Francisco de Assis mais uma vez atraiu milhares de fiéis às imediações da igreja, onde as estações da cruz foram retratadas de forma dramática, por vezes até gráfica, por actores que as levam à cena de forma vívida e realista.

Trata-se de uma tradição que se iniciou na década de 1950 pela comunidade italiana e que desde então cresceu e tem vindo a atrair a participação de cada vez mais gente de diferentes comunidades de inspiração cristã, incluindo um grande número de particulares e organizações luso-canadianas.

Dada a localização desta igreja numa zona que já foi maioritariamente italiana, na Rua Grace, entre as ruas College e Dundas e a poucos passos da igreja de Santa Inês, que tem uma componente maioritária de paroquianos portugueses, é natural que ao longo dos anos tenha havido alguma interacção entre as duas comunidades na organização desta festa.

A comprová-lo esteve a Banda Lira Nossa Senhora de Fátima, sedeada na paróquia de Santa Inês, que mais uma vez foi convidada a abrir a procissão e que com o som dos seus instrumentos atraiu os fiéis residentes nas imediações, muitos dos quais acorrem anualmente a este evento, seja como participantes ou apenas como espectadores.

Esta é considerada a maior procissão dedicada à temática da Sexta-feira Santa no norte da América e já faz parte da agenda de eventos de muitas famílias católicas, e não só, havendo até quem há décadas, sem falta, se desloque a esta zona da cidade só para assistir à imponência do espectáculo.

Joe Maneli, que organiza este cortejo há mais de 50 anos, encarrega-se de tudo: desde a escolha dos actores aos mais ínfimos pormenores que permitem que tudo decorra como uma máquina bem oleada.

Também o actor que carrega a cruz, Joseph Rauti, há já cerca de meio século que todos os anos tem vindo a desempenhar esse papel.

Ambos rondam já os 80 anos de idade e, seja por devoção ou tradição, garantem que enquanto puderem tencionam continuar a dedicar-se a este evento com o mesmo empenho de sempre.

No princípio havia apenas duas imagens que desfilavam nesta procissão, em representação de Nossa Senhora das Dores e do corpo de Jesus Cristo, mas com o passar dos anos tudo foi crescendo em tamanho, aparato e pormenor.

Desta vez foram dez os carros alegóricos que se incorporaram no cortejo, a par das múltiplas representações de Jesus e Maria, quer por actores quer por imagens.

Grande número de grupos comunitários e religiosos desfilaram também, através dos seus elementos representantes, sendo de destacar a participação de outra banda luso-canadiana, a Lira Portuguesa de Brampton, a par da italo-canadiana Meridione Italian Band.

Para além dos párocos de São Francisco de Assis, destaque ainda para a presença do bispo de Toronto, John Boissonneau, que mais uma vez se incorporou nesta procissão.

Pela sua imponência, o desfile atrai várias figuras proeminentes da política e de outros sectores e este ano não foi excepção, sendo visível o presidente da Câmara de Toronto, John Tory, a deputada provincial Cristina Martins (Davenport), os vereadores Martin Medeiros (Câmara de Brampton) e Mike Layton (Trinity-Spadina, em Toronto) e o líder dos Conservadores do Ontário, Doug Ford, bem como representantes da Polícia de Toronto, entre outros.

Apesar de ser a maior, esta não é a única procissão de Sexta-feira Santa em Toronto e ao fim da tarde, por volta das 19h00, também a igreja de Santa Helena deu início à sua: um cortejo organizado em torno da imagem do Senhor morto.

O estandarte roxo deitado encabeçava o desfile, como é tradição, mas aqui em Toronto este é habitualmente seguido por um grupo de romeiros que entoam preces e cânticos.

Aldina da Rosa, que tem vindo a organizar o cortejo desde há uns cinco anos, dizia-nos o ano passado, quando falámos com ela, que aquele seria o último a seu cargo pois ia de vez para os Açores.

No entanto, parece ter tido saudades e por isso cá esteve de novo com o marido, Américo Rego, a fazer os preparativos com a ajuda de um grupo de voluntários.

"O que me trouxe foi a paixão que tenho pelas crianças", referiu à nossa reportagem, notando com orgulho que "são cada vez mais".

De facto, envergando trajes de pastores, beduínos ou anjos, e acompanhadas pelos pais orgulhosos, um número impressionante de crianças banharam o cortejo de cor e vida.

Segundo Aldina da Rosa, este ano decidiram incorporar também os sinais da Quaresma na procissão, para "lembrar que esta é a história da Páscoa, que começa na quarta-feira de cinzas e continua até à morte – é a Semana Santa", realçou.

Acompanhada pela Banda do Sagrado Coração de Jesus, pertencente à paróquia de Santa Helena, a procissão seguiu pela Rua St. Clarens até à College, dirigindo-se depois para a avenida Sheridan, onde enveredou na direcção sul até entrar na Dundas, por onde seguiu até regressar à igreja.

Atrás da imagem do corpo de Cristo seguia o padre John Cabral, desta paróquia, acompanhado de outros sacerdotes, encerrando o cortejo com a banda e uma multidão de fiéis.


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