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À hora da partida:

Coordenadora do Ensino de Português no Canadá faz balanço dos últimos oito anos

Por João Vicente
Sol Português

Foi em Outubro de 2010 que Ana Paula Ribeiro assumiu a coordenação do ensino de português no Canadá, um mandato que está agora prestes a terminar e que classifica como "um desafio que deu muitos frutos".

Em declarações ao jornal Sol Português, a representante do Instituto Camões no Canadá fez um balanço da situação e dos progressos registados nos últimos oito anos, salientando a crescente interna-cio-nalização do português como língua de negócios e de trabalho.

Autora de manuais de português como língua segunda, estrangeira ou de herança, foi com alguma curiosidade que Ana Paula Ribeiro veio descobrir no terreno e em primeira pessoa que o português estava a ser aqui ensinado como língua materna.

Na sua avaliação, isso era desadequado ao ambiente e à experiência vivida pelos portugueses no Canadá onde, destaca, o inglês é o idioma mais falado em família.

Desde o início que o cargo – que à partida se afigurava como a coordenação do ensino da língua de Camões nas escolas comunitárias e nas universidades – viria a englobar também o ensino do português nas escolas das Direcções Escolares ao aperceber-se que a maioria dos alunos de português no Canadá, especialmente no Ontário, aprendiam a língua nas escolas que frequentavam no dia-a-dia.

Essa constatação levou a que fossem estabelecidos vários protocolos de cooperação com Direcções Escolares do Ontário no sentido de incentivar e preservar o ensino da língua por essas Direcções Escolares.

Entretanto, outras iniciativas e medidas vieram a dar maior visibilidade à língua portuguesa e ao seu ensino no Canadá, incluindo, como salienta, o estabelecimento de laços formais com os institutos culturais europeus existentes no país, nomeadamente o Goethe, da Alemanha, a Alliance Française e o Instituto Italiano de Cultura.

O facto do Instituto Camões deter na altura a presidência da EUNIC (European Union National Institutes for Culture) em Bruxelas, terá talvez ajudado também a abrir a porta à sua inclusão no organismo EUNIC Canadá – que desde então já se subdividiu em secções em Otava, Toronto, Montreal e Vancouver – e ao qual Ana Ribeiro já presidiu por duas vezes

Isso permitiu expandir a visibilidade do Instituto Camões e da coordenação do ensino fora da comunidade lusa, com a participação ou organização de vários eventos, incluindo clubes literários, o Festival Internacional de Escritores, o Dia Europeu das Línguas, e outros.

A língua e literatura foram também factores motivantes para trazer escritores lusófonos ao Canadá, não só a festivais mas também às escolas, e não apenas autores virados para o público adulto mas também para os leitores infanto-juvenis.

Entretanto, para o Instituo Camões, assumir a responsabilidade pelo Ensino de Português no Estrangeiro, em 2010, e familiarizar-se com as diferentes realidades vividas pelas comunidades espalhadas pelo mundo permitiu desenvolver outras actividades, entre elas a certificação das aprendizagens em língua portuguesa.

O Canadá foi um dos países que participaram desde o início nesta iniciativa, tendo já facultado duas épocas de exames que neste momento são feitos em seis centros: Toronto, Montreal, Edmonton, Winnipeg, Waterloo e Otava.

Ana Ribeiro é da opinião que a iniciativa veio credibilizar o ensino da língua portuguesa pois, apesar de alguma relutância inicial dos professores, o consenso é de que o estabelecimento de um padrão de aprendizado é benéfico para todos os envolvidos.

A par de tudo isto, a formação de professores assim como a aquisição e distribuição de materiais e manuais de ensino foram outras áreas na qual se investiu, ainda que, confessa, nem sempre tenha sido fácil devido à vastidão do país e aos limites do orçamento.

No meio de tudo isto, a coordenadora do Ensino de Português diz-se imensamente grata aos pais, pois é deles a iniciativa dos filhos aprenderem português e de os levarem à escola ao sábado de manh㠖 muitas vezes contra a vontade das crianças – e ainda pagam por isso.

Mas tem também um agradecimento especial para a comunicação social, que considerou uma componente crucial para fazer chegar informação pertinente às famílias e dar-lhes a conhecer as acções e iniciativas da coordenação do ensino.

Entre outras iniciativas, programas de rádio em Toronto e Montreal permitiram a leitura de histórias em directo, assim como abordar questões relacionadas com a língua e a literatura de forma mais alargada.

Mais recentemente, cita a formação da Associação de Professores de Português como um projecto que ambicionava realizar já há algum tempo e que finalmente se concretizou este ano, com a ajuda da professora Anabela Rato que aceitou o desafio e assumiu a liderança da organização.

De igual modo, a passagem do Centro de Língua Portuguesa Camões das instalações do Consulado de Portugal para a Universidade de Toronto é uma iniciativa com a qual Ana Ribeiro se apraz pois considera que vai levar a língua portuguesa mais longe.

Como ressalva, a tendência com gerações subsequentes será de que o português se vá perdendo, por vários motivos, por isso considera que a aposta deve ser na sua internacionali-zação, para que os canadia-nos passem a encará-la, não como uma língua de herança ou de imigração, mas como uma língua com potencial económico, de negócios e de trabalho.

Por tudo isso, Ana Ribeiro considera importante a continuação da inclusão do português como língua integrada no currículo dos sistemas escolares e deixa uma advertência: "a língua portuguesa está na vossa mão – qualquer cônsul, qualquer coordenador que venha, vem tentar ajudar, mas a comunidade é que tem de ter consciência da importância da língua portuguesa".

Por isso incentiva a comunidade em todas as suas vertentes – desde indivíduos a colectividades e organizações de cúpula – a fazer-se ouvir nesse sentido, não permitindo que o ensino do português fique em situação de risco.

Pela sua parte, ao preparar-se para voltar a Portugal com o marido e a filha, no final de Agosto, olha essa decisão com um misto de emoções.

"Aprendi muito, não só com os contactos que tive com os professores, mas com a comunidade portuguesa em geral", afirma, acrescentando: "penso que foi uma experiência fantástica a todos os níveis. Todas as coisas menos boas que aconteceram – porque acontecem sempre em todas as experiências – não são relevantes quando se põem na balança e o outro lado tem aspectos positivos muito mais importantes e que fazem com que a minha avaliação neste momento seja de estar grata pela oportunidade de ter vindo aqui crescer como pessoa e dar um contributo de alguma forma para que a língua portuguesa fosse promovida".

A sua intenção é regressar às suas funções na escola de línguas CIAL e na Faculdade de Letras, onde ministrará cursos a estrangeiros, além de retomar também a formação de professores e a criação de manuais escolares, mas antes vai defender a sua tese de doutoramento sobre o ensino de português no Canadá, enquanto que o marido retomará as suas funções no Ministério da Justiça.

Muito lhe custou ter deixado o filho para trás e agora está feliz por a família voltar a estar toda junta, do mesmo lado do Atlântico.

"Sei que vou sentir falta de pessoas, de momentos, de muita coisa, mas neste momento acho que foi o passo certo".

Quanto a voltar a assumir funções no estrangeiro, considera que é uma possibilidade pois esta experiência "deixou um bichinho", mas, caso isso aconteça, cingir-se-á à Europa pois não quer voltar a ter "tanto mar pelo meio".


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