PENA & LÁPIS


Folhetim:

Não tinha comparação!

Por Jorge Moreira Leonardo

Sol Português

Certo dia, ao fim da tarde, a Maria comunicou à patroa que no dia seguinte não poderia vir trabalhar pois ia com a sua Esnoveva (Genoveva) à cidade fazer umas mercas para as festas da freguesia pois a sua filha não era nada menos que as outras.

Essa afirmação mais não era do que um excesso de modéstia da boa mulher pois a sua Esnoveva, se não era menos do que as outras na sua dimensão espiritual – como filha de Deus – fisicamente até era muito mais do que o comum das moças.

A Esnoveva tinha de altura 1,83 m com 150 quilos de carne e osso onde, obviamente, a carne representava muito mais do que o osso. E – corai ó elegantes deste mundo! – para sustentar tamanha estrutura calçava 41/42, conforme o jeito do sapato.

Enquanto se tratou da vestimenta não houve dificuldade de maior, pois no que o corte (uma quantidade de fazenda considerada suficiente para um vestido para uma mulher normal e até com padrões exclusivos) se revelava escasso, recorria-se à peça.

Ao tempo não havia o pronto a vestir. Nós, homens, no alfaiate e as senhoras nas costureiras, suávamos as estopinhas até sairmos de lá com fato ou vestido.

Mas quando chegou a vez dos sapatos, Santo Deus! Sapatos para aquela antítese da Cinderela era coisa que não havia.

Sempre que a Esnoveva se enamorava dum modelo, logo surgia o problema da medida. Os empregados, para não ofenderem a moça, diziam que o pezinho era realmente um bocadinho avantajado.

Quando tudo parecia perdido, um empregado mais atencioso e empenhado, quando se apercebeu que ela se enamorara de determinado modelo, disse que a menina não ficasse com esse desgosto pois encomendavam o seu número e a tempo da festa.

Mãe e filha regressaram a casa já mais animadas e ficaram aguardando.

Um belo dia, Maria entrou em casa da patroa chorando baba e ranho e dizendo que a filha também ficara em casa a chorar. É que tinham ido a Angra buscar os sapatos, mas que estes não tinham comparação com o que tinham visto.

Realmente um elegante par de sapatinhos 34/35 aumentados o suficiente para lá introduzir as patas da Esnoveva mais pareciam barcaças.


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