PENA & LÁPIS


Redes sociais, protecção e liberdade

Por Inácio Natividade

Sol Português

Alguém em tempos alertou para o perigo das redes sociais, que instigam os piores instintos da humanidade. Sem um regulamento que reja o uso das redes sociais, vivemos à mercê de invasores de espaço alheio cujo limite é a própria esquizofrenia.

Além da neurose comportamental de quem consome de forma compulsiva a net, o espaço vem sendo preenchido pelos que odeiam a liberdade de pensar e julgam poder monitorizar o mundo para além da sua condição neurótica.

O uso das redes sociais e as interacções sociais nelas desenvolvidas abarcam todas as características das relações presenciais. Sendo verdade, tenho vindo a descobrir que o espaço vem sendo delimitado abusivamente, pelos que consideram que a web é uma terra sem lei.

Enganam-se, pois a própria lei define quais são os crimes que afectam a honra do ofendido: a calúnia, a difamação e a injúria. Existe uma jurisprudência apropriada que pune os que usam a net para vituperar ou difamar pessoas, assim como para aqueles que esvaziam contas pessoais de outrem no Snaptchat, Redddit, Linked, Facebook, Twitter, Instagram ou outras redes sociais...

Entre a neurose comportamental, fruto de podcasts de vários gostos e exigências, existem os que não se conformam com acumulação de derrotas pessoais e, ressabiados pelo destino, volta e meia damos com eles a lutarem com os seus próprios demónios.

Não se pode pôr em mãos de pessoas derrotadas pela vida uma ferramenta preciosa para uso inusitado de perseguição ideológica, como se o universo narrativo na net vivesse desregulado. Em tudo existem normas, mas as normas podem ser seguidas por pessoas razoáveis, que obedecem ao civismo.

A máquina redutora que tenta destruir o pensamento alternativo não deve ter lugar. Não podemos viver num universo real, transformando a anormalidade virtual em normalidade. Não basta o pensamento ser livre e soberano. Este deve ser protegido para além da fronteira da criatividade e o Estado usar força e dissuasão para protegê-lo.

Pessoas mentalmente perturbadas não toleram quem pense diferente deles e o quadro agrava-se quando se tem de lidar com a diversidade racial e cultural.

O ódio colonial remanesce em muitas mentes do ocidente. Choca-me quando ouço falar na defesa da civilização, como se o ocidente fosse o centro do universo, superior a todas as culturas e civilizações.

Conheço um pouco do mundo islâmico, oriental e hindu, fontes de conhecimento, ciência, poesia arte e história. Nascemos, crescemos e à medida que o conhecimento real amadurece, os neurónios e as convicções reproduzem-se em catadupa. Várias raças, culturas e civilizações têm contribuído para engrandecer a humanidade.

Crescemos a julgar que a democracia era uma miragem. Crescemos assombrados de fantasmas e ditadores, entre o conhecimento empírico e científico. O poder de uma consciência livre individual, enraizada em convicções individuais, é superior a agir só com palavras. O futuro pode não ser a democracia, mas a liberdade sem democracia.

Quando a democracia chegou com participação de alguns, a conclusão a que chegámos é que mesmo depois de experimentada e solidificada, ainda resta muito a fazer. Os mitos do antigamente continuam vivos e se há um ritual sobre liberdade e inclusão, o parlamento somente abarca parte dos anseios. O povo nem sempre entende, uma expressão eleitoral à boca das urnas, num diálogo que deveria ser permanente. E não parece haver ligação nem aproximação.

Quem não vota perde excelente oportunidade de participar. Mas participar em quê, se depois das eleições ninguém quer saber de ninguém?

De tempos a tempos, no mundo moderno ouvimos dirigentes ocidentais a falar em civilização e, tentativamente, a dar lições de democraticidade. Várias guerras, desde a Coreia ao Vietname, tiveram a ideologia como motivo e todas foram perdidas. A Coreia separou-se e o Vietname uniu-se. Nenhuma guerra é fruto do acaso. São planeadas, mesmo em Cabo Delgado, Moçambique, onde decorre uma guerra planeada por alguém que nunca deu a cara.

Na actual guerra entre a Rússia e a Ucrânia, não se imaginava um confronto militar directo entre a aliança militar OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte/NATO) e a Rússia. Se a Rússia se sentiu com força capaz de invadir a Ucrânia, isso faz parte do capítulo do equilíbrio de poderes entre o ocidente, liderado pelos Estados Unidos, e a Rússia.

As guerras fazem parte da história da humanidade. Quando Vladimir Putin, presidente da Rússia, ameaça usar armas nucleares, devemos levá-lo a sério. Não podemos pensar que se trata de treta ou imaginação. Existe um sério risco que o conflito se agudize e que as armas tácticas venham a ser substituídas pelas nucleares.

O grande empenho da NATO – liderado pelo grupo anglo-saxónico constituído por americanos e ingleses – neste medir de forças na Ucrânia, leva-me a pensar que, para além de questões geopolítico estratégicas, haverá algo muito maior em jogo e sobre o qual apenas o final da guerra conseguirá elucidar-nos.


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