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Consulado abre portas a jovens artistas luso-canadianos

Por João Vicente
Sol Português

Perante cerca de duas dezenas de pessoas, o Consulado-Geral de Portugal em Toronto inaugurou oficialmente na pretérita quinta-feira (27), na Galeria Almada Negreiros, uma exposição de quadros dos jovens artistas plásticos Carla Antunes e Daniel Ramalho.

"Estou aqui há pouco tempo, mas nunca vi esta sala tão bonita", afirmou o cônsul-geral, Rui Gomes, que considerou a iniciativa uma resposta a " uma sugestão e um desafio" que lhe foram feitos no dia em que se apresentou à comunidade portuguesa, naquele preciso local.

"Quando fiz aqui uma recepção, poucos dias depois de ter chegado a Toronto, uma das pessoas que participou dessa recepção desafiou-me: `deveríamos fazer uma exposição orientada para os mais jovens'", referiu o diplomata.

"Quando tive oportunidade, disse que sim, que gostaria de conhecer jovens talentos da comunidade portuguesa", explica Rui Gomes, acrescentando que "foi fácil chegar ao Daniel e à Carla", pois a mãe dele, Linda Correia, fez a sugestão, e Carla, que é repórter da FPTV, encontrava-se no local a dar cobertura ao acontecimento.

Agora "a ideia é repetir esta iniciativa, mas com outros jovens talentos da comunidade portuguesa", disse o diplomata, que agradeceu também o papel da comunicação social na divulgação do evento e dos jovens artistas,

"Gostaria também que outros jovens talentos da comunidade portuguesa se dessem a conhecer para que nós, com alguma periodicidade, pudéssemos abrir novamente as portas desta galeria para novos quadros de outros pintores portugueses – e quem diz pintores,

[diz] outros artistas da comunidade portuguesa", realçou o cônsul.

Carla Antunes apresentou uma série de quadros com forte base "na iconografia portuguesa numa forma mais ilustrativa, com textura e relevo – ou seja, que provoca um pouco de sensação de movimento e que poderá ser interpretado pelas pessoas de uma maneira completamente diferente", como descreve.

Por seu turno, a maioria das peças expostas por Daniel Ramalho revelam inspiração na iconografia pop, na veia de Andy Warhol – cuja famosa pintura de Marylin Monroe serviu literalmente de pano de fundo para uma das criações do jovem artista.

Segundo a mãe, Linda Correia, dirigente do Centro Comunitário dos Poveiros, o filho sempre gostou de desenhar e notou desde muito cedo a sua afinidade para os detalhes pois, como relata, quando ele tinha apenas ano e meio já desenhava mãos e pernas nos bonequinhos, e com quatro ou cinco já colocava um cinto nos bonecos do sexo masculino e pestanas longas nos do sexo feminino.

O jovem artista plástico afirma que gosta de "pop art" e "de pintar pessoas", por isso tenta conjugar as duas vertentes no seu trabalho, onde as cores são o ponto de partida e ao qual gosta depois de "incorporar ícones como a Marylin Monroe, o Mighty Mouse, o Donald Duck" e outros do género.

Como explica, usa aquilo que já conhece, desde as cores aos personagens de desenhos animados que ficaram com ele da sua infância – aquilo que é para si "importante e natural".

Desde que há cinco anos descobriu a sua paixão por tinta de óleo, na altura ainda na escola secundária, nunca mais parou e, na sua avaliação, cada peça que produz é única e independente das outras.

Segundo o cônsul Rui Gomes fez questão de salientar, algumas das obras expostas estão à venda e os jovens artistas também aceitam encomendas, citando como um dos objectivos desta iniciativa "dar a conhecer estes talentos que por terem esta proximidade com Portugal conseguem pintar temas em que é possível reconhecer [o país] nas suas obras".

A seu ver, restaurantes e outros estabelecimentos públicos têm também um papel a desempenhar nesse sentido: "expor arte, para que a comunidade portuguesa saiba onde procurar, que artistas procurar [e] que encomendas possa pedir a um determinado jovem", realçou.

O diplomata deu como exemplo o Centro Cultural Português de Mississauga (CCPM), que além de já ter adquirido algumas das peças destes jovens artistas – as quais fez a gentileza de emprestar para a exposição – tem também vindo a apoiar, entre outros, Carla Antunes que nos últimos três anos tem sido convidada a expor e a vender as suas obras durante o festival multicultural Carassauga.

Na verdade, a temática escolhida pela jovem artista foi directamente vocacionada para a Carassauga e no sentido de oferecer um pouco de Portugal aos visitantes que passam pelo pavilhão português, mas tudo isto aconteceu um pouco por força das circunstâncias pois, como explica, caso tivesse permanecido em Portugal talvez nunca tivesse dado o devido valor e enveredado pela pintura de peças da iconografia lusa.

"Quando saí de Portugal, nunca pensei que iria sentir falta do meu país", refere a artista que é licenciada em design gráfico com formação em ilustração gráfica.

Como explica: "quando partimos nesta aventura, só pensamos na aventura e no que [ela] nos vai trazer, mas o facto de emigrar e estar em Toronto é uma porta aberta para os meus sonhos se tornarem realidade"

"Talvez se estivesse em Portugal, nunca iria dar o devido valor ao meu país nem ia talvez descobrir o facto de gostar de pintar e ilustrar algo que pertencesse a símbolos portugueses, ou seja, nunca na vida talvez iria dar com esse valor", destaca.

Para o vice-presidente do CCPM, Jorge Mouselo, "é muito importante" apoiar a cultura portuguesa e estas novas gerações, "por uma razão muito simples: não deixar morrer as nossas tradições e apoiar quem tem habilidade, como estes dois jovens artistas que temos aqui", referiu.

Apelou por isso ao apoio dos portugueses pois "é um orgulho na nossa comunidade termos dois jovens como estes que conseguem fazer duas artes totalmente diferentes um do outro, mas artes que dá brilho e dá gosto", afirmou.

Foi Jorge Mouselo quem comprou o quadro de Amália da autoria de Daniel Ramalho e o ofereceu ao CCPM, onde passou a figurar junto ao espólio da diva do fado já existente no clube, assim como algumas obras de Carla Antunes, que voltarão ao seu lugar nas paredes daquela colectividade uma vez terminada esta exposição.

Segundo o cônsul Rui Gomes, os interessados em expor as suas obras na Galeria Almada Negreiros ou que desejem sugerir outros artistas podem contactar o consulado através do e-mail geral: consulado.toronto@mne.pt.

Esta exposição tem estado patente ao público desde 10 de Fevereiro e pode ser visitada nos dias úteis, entre as 8h00 e as 14h00, até terça-feira, dia 10 de Março.


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