PENA & LÁPIS


Correspondente de Portugal:

As coisas engraçadas da vida

Por Hélio B. Lopes
Sol Português

A recente pandemia da Covid-19 veio mostrar como é sempre limitado o conhecimento do mundo de que fazemos parte, apesar do extraordinário desenvolvimento conseguido aos níveis da ciência e da tecnologia. E quando até já se dava por adquirido que algo deste tipo poderia estar para vir, mais ano, menos ano, bom, aí o temos. E mesmo agora, com quase todo o mundo à procura de vacinas que resolvam o problema, já se refere que outros casos envolvendo vírus poderão chegar, ao mesmo tempo que começa a perceber-se que uma vacina a contento pode até nunca ser conseguida.

Como já se percebeu, fruto das poucas conversas diárias, existe alguma perplexidade em face do que está agora a passar-se, tal era já a sedimentação da ideia de que o ser humano se tornara profundamente dominador de quase toda a Natureza.

Desde muito novito, fui ouvindo a referência a que os signos do Zodíaco eram mera conversa, sem real fundamente científico. E assim fui acreditando, sendo que, nunca deixei de reparar no facto de que muito do que se dizia de cada um dos signos batia quase em cheio com as personalidades que eu mesmo conhecia, e se encontravam em certo signo.

Ora, em certo dia de Verão, há já umas boas décadas, estando a ler numa esplanada da minha zona residencial, sozinho, com a família em Almeida, ocorreu-me esta ideia: talvez possa existir uma causa para a coincidência forte entre signos e temperamentos pessoais... E continuei a pensar, entre calado e falando baixinho: o cérebro é, ainda hoje, profundamente desconhecido, pelo que pode existir no seu seio uma estrutura que seja impressionável pelas forças determinadas pelas disposições astrais, das mais próximas às mais distantes, das maiores às menores, etc..

E então, ocorreu-me este meu modelo explicativo: pode ser que exista, no cérebro, um cristal líquido, mas que endurece, digamos assim, após o nascimento da pessoa, assumindo uma das formas presentes num dos sete sistemas cristalinos possíveis, com as suas diversas classes de simetria... A verdade é que nunca referi esta minha ideia a ninguém realmente conhecedor da Cristalografia, da Astronomia, ou da Medicina.

Os anos passaram e num outro Verão, por acaso na mesma excelente esplanada, expus este meu modelo explicativo ao melhor aluno do seu curso no Técnico, já a trabalhar numa das maiores empresas de Portugal, e com trabalhos assinados em co-autoria com um catedrático daquela escola, embora o seu nome figurasse com uma letra de tamanho menor: um era catedrático, o outro, mestre e assistente. E então, o jovem, hoje com 46 anos, deu um pulo, alteou a voz, e disse: oiça, isso é uma explicação científica, e pode ter fundamento, porque se conhece mal o cérebro e essa ideia do cristal líquido é fabulosa... é possível... é um modelo explicativo científico!

Este jovem, com quem ainda hoje contacto de quando em vez, nunca mais esqueceu o tal meu modelo explicativo. Chega mesmo a apresentar-me a colegas da empresa, tal como à própria mulher, como o tal amigo que criou aquele modelo explicativo para os efeitos dos signos do Zodíaco sobre o comportamento médio humano, fruto da sua acção, à nascença, sobre o endurecimento do tal hipotético cristal líquido, ainda hoje não identificado.

Ora, há uns meses, tive a oportunidade de ler uma notícia, a cuja luz estudos realizados por médicos, se não erro, nos Estados Unidos, mostraram que 30% das pessoas nascidas no Século XX têm uma outra artéria (desconhecida) num dos braços. Devo dizer que tal me causou espanto, porque a Anatomia do Corpo Humano é conhecida desde há muito. Todavia, a realidade não deve ser bem assim, porque se descobriu agora o que descrevo antes. E logo associei esta realidade com a tal minha ideia da possível existência de um cristal líquido no feto, antes de nascer, que endurece após o nascimento. Um endurecimento que não será instantâneo, podendo levar umas horas, adquirindo, então, uma configuração – sistema cristalino e classe de simetria – que irá depois condicionar o restante da estrutura cerebral.

Mas os meses passaram, vindo agora a tomar conhecimento de um trabalho de médicos holandeses publicado em Setembro na revista científica Radiotherapy and Oncology.

Este trabalho expõe uma descoberta anatómica surpreendente: encontrou-se o que parece ser um misterioso conjunto de glândulas salivares escondidas dentro da cabeça humana. Os médicos holandeses designaram estas novas estruturas por glândulas tubárias, referindo-se à sua localização anatómica – acima do tórus tubário. Ora, até onde se sabe, esta estrutura não se encaixa nas descrições anatómicas anteriores. Além do mais, foi confirmada a respectiva presença numa centena de pessoas vivas, mas também em corpos já em situação de cadáver.

O que estes dois casos da Medicina mostram é que a realidade da estrutura do corpo humano contém ainda muito de desconhecido. O que significa que não é assim tão impossível a existência do tal cristal líquido no cérebro do feto, que depois endurece, conduzindo ao cristal num dado sistema cristalino e em certa classe de simetria. Todavia, não é um cristal sólido, como os que se costumam estudar. Em síntese: somos constantemente assaltados por mil e uma coisas engraçadas – e desconhecidas – da vida.


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