1ª PÁGINA


Toronto:

Desfile comemorou 125 anos do Dia do Trabalhador no Canadá

Por João Vicente
Sol Português

Assinalado na América do Norte na primeira segunda-feira de Setembro, foi em 1894 que o Dia do Trabalhador passou a ser feriado oficial no Canadá onde, 125 anos depois, continua a representar uma das vitórias nascidas do movimento laboral.

Na segunda-feira (2) a parada dos trabalhadores e dos sindicatos que os representam mais uma vez atraiu dezenas de milhares de pessoas ao centro de Toronto, de onde partiram numa longa marcha pelas ruas da cidade até à Canadian National Exhibition (CNE).

Como é hábito, o cortejo foi liderado pelo Conselho Laboral de Toronto e da Região de York e integrou representações de dezenas de sindicatos e seus sócios que, ao chegarem à CNE, tiveram direito a entrada gratuita naquela feira de diversões que marca o fim da época estival e o início de mais um ano escolar.

A central sindical LIUNA, na qual estão filiados milhares de portugueses que trabalham no sector da construção civil, fez-se representar por um enorme contingente de veículos e de sócios, constituindo uma das maiores componentes do cortejo.

Ali se integravam também as bandas luso-canadianas Lira de Nossa Senhora de Fátima, à cabeça da secção representativa da filial Local 506 da LIUNA, e Sagrado Coração de Jesus, a fechar a secção da Local 183.

Joseph Mancinelli, vice-presidente da LIUNA responsável pela zona central e oriental do Canadá e que já o ano passado tinha desfilado em idêntica parada na cidade de Hamilton, mais uma vez ficou pela cidade do aço onde desfilou lado-a-lado com o Primeiro-ministro canadiano, Justin Trudeau, que ali se deslocou.

Em Toronto, porém, o dirigente do Concelho Distrital do Ontário da LIUNA (LIUNA OPDC, na sigla em inglês), e administrador da Local 183, Jack Oliveira, integrou o contingente representativo do maior sindicato da construção civil na América do Norte.

Em declarações ao jornal Sol Português o sindicalista luso-canadiano reconheceu e agradeceu o contributo dos sócios e pensionistas da "183" para o movimento sindical.

"Em termos laborais, temos muito trabalho à nossa frente", destacou, lembrando ser um desafio constante não só enfrentar as situações "que acontecem inesperadamente", mas também a luta diária "pela segurança dos nossos trabalhadores, por fazer cumprir os contractos de trabalho" e por "negociar melhores condições para eles".

Jack Oiveira lembrou ainda que a LIUNA celebrou este dia não só em Toronto e em Hamilton, mas um pouco por todo o país e que cabe às futuras gerações terem atenção ao que se passa à sua volta para preservarem as conquistas do movimento laboral e continuarem a lutar por mais regalias, pois "isto é um trabalho que nunca tem fim", daí ser "importante estar sempre atento ao que nos pode beneficiar ou transtornar".

Como destacou, "muita gente não se apercebe que é a classe média – a classe do trabalhador – que move a economia do país".

Enquanto a "183" distribuía t-shirts, a filial irmã, "506", que assinala este ano o seu centenário, distribuía camisolas de hóquei comemorativas junto dos sócios.

O seu administrador, Carmen Principato, que afirmou envergar "orgulhosamente" a camisola comemorativa do centenário do sindicato que dirige, é de opinião que tem havido melhorias no que respeita à segurança laboral, nomeadamente com o aumento do número de inspectores de segurança nos locais de trabalho.

Por seu turno, o presidente da "506", Roli Bernardini, indicou ser com orgulho que passava "por todos estes edifícios e arranha-céus na edificação dos quais trabalharam os nossos sócios" e elogiou a legislação recentemente introduzida pelo governo federal que, disse, abrange "os avisos de mudança de turno", o "tempo mínimo de descanso" e "toda uma série de medidas que criam um ambiente de trabalho melhor para os nossos filiados e para os trabalhadores canadianos em geral".

Em representação da Canadian Construction Workers Unions (CCWU), sindicato igualmente afecto à LIUNA, o seu presidente, Joel Filipe, reconheceu também algum progresso na área da segurança laboral, ressaltando no entanto que a formação contínua e a monitorização dos locais de trabalho pelo sindicato são também factores importantes.

Joel Filipe congratulou-se também com a prosperidade do sector da construção civil onde, reconheceu, "felizmente tem havido muito trabalho".

Integrada no desfile, a deputada Julie Dzerowicz – que a nível federal representa o distrito com maior concentração de portugueses no país, Davenport – envergou também uma camisola da "183" pois, segundo ela, é na sua circunscrição que provavelmente reside o maior número de sócios desta sindical, daí que achasse por bem demonstrar-lhes o seu apoio.

"Estou aqui para saudá-los e às suas famílias e agradecer-lhes por ajudarem a construir as nossas cidades e o nosso país, por trabalharem tão arduamente e por serem tão bons elementos da nossa comunidade", declarou a deputada.

Julie Dzerowicz chamou a atenção para o facto do país ter actualmente a taxa de desemprego mais baixa dos últimos 40 anos e haver falta de mão de obra especializada, circunstância que, afirmou, demonstra a necessidade de regularizar a situação dos trabalhadores indocumentados e que diz "será prioridade" caso seja reeleita em Outubro.

Também o ministro federal da Imigração, Refugiados e Cidadania, Ahmed Hussen, envergava uma camisola da "183" e em declarações à nossa reportagem indicou que o governo "continua a esforçar-se por investir em comunidades e nas pessoas, certificando-se que há mais canadianos da classe média com acesso a bons empregos a tempo inteiro", ao mesmo tempo que "continua a trabalhar mais do que nunca no sentido de melhorar a segurança dos trabalhadores".

Na sua avaliação, "o movimento sindical é um excelente parceiro para o governo em todas essas áreas" pois partilham os mesmos objectivos, classificando a sua presença neste desfile como "um sinal de que o governo de Justin Trudeau vai estar sempre do lado das pessoas que constroem as nossas comunidades e o nosso país".

Por seu turno, a vice-presidente da Câmara de Toronto, Ana Bailão, desfilou logo no início do cortejo acompanhada do vereador Joe Mihevc, mas antes teve oportunidade de prestar algumas declarações à nossa reportagem durante as quais professou ter raízes na classe trabalhadora.

Segundo referiu, ao longo deste ano apresentou algumas moções para garantir que o município torontino dá prioridade à contratação de trabalhadores sindicalizados, nomeadamente através da celebração de um contracto com a LIUNA.

"Tive o privilégio de dirigir essa luta", declarou a vereadora, destacando tratar-se de "uma questão pessoal" ao afirmar": "é quem eu sou – venho da classe trabalhadora, a minha família é uma família trabalhadora e a minha comunidade é trabalhadora", adiantando que é preciso "defender os nossos e aquilo que é correcto"

Estas medidas, a seu ver, ajudam a criar "uma classe média mais robusta e no fundo ajudam a economia do país", salientou.

Mesmo com um pé numa tala após uma operação ao tendão de Aquiles, o presidente da Câmara de Toronto, John Tory, também caminhou ao lado dos sindicalistas, afirmando que são "cada vez mais [nossos] parceiros" e expressando um agradecimento pela sua contribuição pois os sócios "não só trabalham arduamente dia após dia" para construirem "uma grande cidade", como ainda "nos ajudam com a formação profissional dos trabalhadores, certificando-se de que têm condições de segurança" nos locais de trabalho.

Contrastando a actual situação com "dias que já lá vão, em que eram adversários", destacou que "precisamos dos sindicatos e dos seus sócios para avançarmos com formação profissional e de segurança", declarando-se por isso "grato pelo papel que a mão-de-obra sindicalizada desempenha para atingirmos esses objectivos".

Com um forte contingente também, o líder do partido NDP federal, Jagmeet Singh encabeçou a representação neo-democrata para elogiar os resultados alcançados pelo movimento laboral e a chamar a atenção para a sua proposta de aumento do salário mínimo a nível nacional para 15 dólares/hora, valor que defende seja subsequentemente ajustado ao índice do custo de vida.

O dirigente do partido de orientação esquerdista avançou também com propostas no sentido de compensar os trabalhadores a contrato pela falta de benefícios de que auferem, por forma a incentivar a sua contratação em regime permanente.

A participação de muitas famílias e de jovens, que mais tarde viriam a divertir-se na feira CNE, viria também a contribuir para dar a este desfile que anualmente celebra os trabalhadores e o movimento laboral que os representa um ar ainda mais alegre e colorido.


Voltar a Sol Português