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Entrevista ao Director Regional das Comunidades

"Sempre entendi, e considero cada vez mais, que os Açores só ficam completos com a sua décima ilha e que a Açorianidade acontece onde quer que se encontre um açoriano",
afirma José Andrade

Por Rómulo Ávila

Sol Português

Sol Português (SP): Para quem não conhece, quem é José Andrade?

José Andrade (JA): Nasci em Ponta Delgada, vivo em São Miguel e sou dos Açores. Sempre fui apaixonado por todas as nove ilhas e gosto, especialmente, da décima. Tenho 56 anos, duas filhas e um neto. Licenciei-me em Ciências Sociais, na especialidade de Ciência Política, e tenho 25 livros publicados.

Sou um profissional da comunicação social que tem estado emprestado à política institucional, exercendo sucessivas funções de interesse público, desde 1988, como adjunto do subsecretário Regional da Comunicação Social, assessor de imprensa do presidente do governo, chefe de gabinete de cinco presidentes da Câmara Municipal de Ponta Delgada, vereador municipal da Cultura e Acção Social, director-geral da Sociedade Coliseu Micaelense, deputado à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores e, agora, director regional das Comunidades. Sempre encarei cada um desses cargos como um encargo ao serviço do bem comum.

SP: Pertence aos quadros laborais da RTP/Açores. Este facto tem importância na sua vida?

JA: Tenho gosto e orgulho na minha profissão. Desde 1984, estou ligado ao Centro Regional dos Açores da Radiodifusão Portuguesa, a RDP/Açores, agora Antena 1 Açores e integrada na RTP – Rádio e Televisão de Portugal. Esta condição conferiu-me, desde cedo, a devida consciência e o profundo conhecimento da nossa realidade arquipelágica, reconhecendo e valorizando que os Açores valem como um todo e que cada uma das ilhas tem uma importância indelegável.

Em boa verdade, sempre estive associado à comunicação social. O meu avô, Cícero de Medeiros, foi director do "Correio dos Açores" e fundador do então diário "Açores". O meu pai, Manuel Jacinto Andrade, era chefe de redacção do "Açoriano Oriental". Eu próprio sou colaborador esporádico dos três jornais diários de Ponta Delgada.

SP: No actual Governo Regional, é director regional das Comunidades. Como vê o cargo?

JA: Vejo-o como um serviço prestado aos Açores em benefício da Açorianidade sem fronteiras. É uma oportunidade concreta para dar um contributo modesto, mas empenhado e determinado, a favor de uma crescente valorização das nossas queridas comunidades.

Depois do trabalho pioneiro de Duarte Mendes, como director do Gabinete de Emigração e Apoio às Comunidades Açorianas nos primeiros 20 anos, e do trabalho subsequente dos sucessivos directores regionais das Comunidades – Alzira Silva, Graça Castanho, Rita Dias e Paulo Teves, desde 1997 – só espero ser bem sucedido na missão que agora me cabe, independentemente da sua duração, que já conta quase dois anos, um do quais ainda em plena pandemia.

SP: Quais os desafios com que se depara para este mandato?

JA: As duas áreas principais da Direcção Regional são as comunidades emigradas e as comunidades imigradas. As comunidades emigradas corresponderão a um universo estimado de dois milhões de açorianos e açor-descendentes de várias gerações, que vivem especialmente na América do Sul (Brasil e Uruguai) e na América do Norte (Estados Unidos, Canadá e Bermuda). Aqui, deparamo-nos com três grandes desafios.

Primeiro, o desafio geográfico. Sem menosprezar os destinos históricos e tradicionais da emigração açoriana, devemos atentar também nas novas comunidades que começam a afirmar-se em diferentes geografias – não apenas nas Américas, mas também na Europa e até na África ou na Ásia.

Depois, o desafio sectorial. Sem desconsiderar que a nossa diáspora tem uma motivação social e uma sustentação cultural, devemos apostar igualmente nas potencialidades económicas que ela própria inclui ou impulsiona, seja como investimento directo, seja como emissor turístico.

Por fim, mas certamente em primeiro lugar, o desafio geracional. Sem esquecer os nossos emigrantes ainda naturais dos Açores, devemos também saber chegar aos seus filhos e netos, já nascidos nos diferentes países de acolhimento, para que não percam o domínio da língua portuguesa e a referência da identidade açoriana.

Inversamente, as comunidades imigradas correspondem hoje a mais de 4.000 cidadãos estrangeiros, de mais de 90 nacionalidades diferentes, que escolheram os Açores para desenvolverem o seu projecto de vida, com vantagem para o próprio desenvolvimento de cada uma das ilhas. Aqui, o grande desafio é consciencializar e capacitar a sociedade açoriana para acolher e integrar estes novos concidadãos numa Região que queremos, cada vez mais, cosmopolita, intercultural, respeitadora das diferenças.

SP: Tem dito que a emigração faz parte da sua vida. Porquê?

JA: A emigração faz parte da minha vida por razões familiares e vocacionais. Como todas as famílias açorianas, também a minha se reparte pelos dois lados do Atlântico. A minha bisavó materna era natural do Brasil, os meus avós paternos emigraram para os Estados Unidos, tenho uma tia e três cunhadas a viverem no Canadá – ela em Winnipeg, elas em Toronto.

Por outro lado, nas sucessivas funções públicas que exerci, dediquei sempre a devida atenção à questão emigratória, que é indissociável da própria condição açoriana. Por exemplo, no Município de Ponta Delgada tinha o pelouro das relações com a diáspora e no Parlamento dos Açores mantinha o acompanhamento dos assuntos das Comunidades.

Sempre entendi, e considero cada vez mais, que os Açores só ficam completos com a sua décima ilha e que a Açorianidade acontece onde quer que se encontre um açoriano.

SP: Considera que as Casas dos Açores são importantes para manter a ligação com a população emigrante?

JA: Em geral, o movimento associativo é determinante para a afirmação e para a dinamização das nossas comunidades, através das centenas de clubes e associações de carácter cultural, social, desportivo, económico ou religioso que mobilizam muitos milhares de açorianos do Atlântico ao Pacífico.

Em particular, as Casas dos Açores são especialmente abrangentes e representativas, assumindo-se como verdadeiras "embaixadas" da açorianidade nas diferentes sociedades de acolhimento. Desde a mais antiga, fundada na capital portuguesa em 1927, até à mais recente, criada no estado brasileiro do Espírito Santo já em 2022, contamos hoje com 17 Casas dos Açores sucessivamente implantadas no Rio de Janeiro, Califórnia, Quebeque, Norte [de Portugal], São Paulo, Bahia, Ontário, Nova Inglaterra, Winnipeg, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Uruguai, Bermuda, Maranhão e Madeira.

Tenho gosto de conhecer cada uma delas, inicialmente até em visitas particulares de iniciativa pessoal, e escrevi sobre todas no livro "Açores no Mundo", editado pela editora açoriana Letras Lavadas, em 2017, com prefácio do Senhor Presidente da República Portuguesa, Professor Marcelo Rebelo de Sousa.

SP: Que mensagem gostaria de deixar aos leitores do jornal Sol Português, o maior jornal de língua portuguesa no Canadá?

JA: Ao jornal Sol Português, que acompanho semanalmente com o maior interesse, quero agradecer a amabilidade do convite e a oportunidade da entrevista.

Aos leitores do Sol Português, quero pedir que continuem a interessar-se pelo nosso País, pela nossa Região e pela nossa Comunidade, para preservarmos e desenvolvermos a nossa própria identidade na grande nação canadiana.

Do Ontário ao Quebeque e a Manitoba, sem esquecer a Colúmbia Britânica e Alberta, os Açores acontecem onde esteja um açoriano. Por isso aqui fica um abraço das nossas ilhas para todo o Canadá.


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