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Dia do Trabalhador 2018:

Desfile em Toronto alterou percurso devido a conflito laboral

Por João Vicente
Sol Português

O desfile que todos os anos percorre o coração de Toronto em honra do Dia do Trabalhador – efeméride celebrada na América do Norte na primeira segunda-feira de Setembro e internacionalmente no 1.º de Maio – mais uma vez mobilizou milhares de participantes que representavam sindicatos de todos os sectores, incluindo algumas das principais organizações laborais do país.

O cortejo, que normalmente se dirige da intersecção da University e Queen até à entrada da Canadian National Exhibition, permitindo aos participantes entrada gratuita nesta feira popular e parque de diversões que assinala o fim do Verão e o regresso à escola e ao trabalho, sofreu este ano uma alteração de forma a que não atravessasse os piquetes montados por elementos do sindicato de trabalhadores teatrais, Local 58, em greve desde Julho.

Assim, os participantes que na segunda-feira (3) nele desfilaram terminaram o seu percurso no estádio Lamport, localizado na rua King Oeste, entre a Dufferin e a Dovercourt, calculando-se que quando os elementos que representavam o Conselho Laboral de Toronto e Região de York, que abriu a parada, estivessem a chegar ao fim do percurso de 3,5 quilómetros, estaria ainda a sair da Queen e University o contingente da central sindical LIUNA, que este ano fechou o cortejo.

Ausente esteve o seu vice-presidente e responsável pela zona central e oriental do Canadá, Joseph Mancinelli, que este ano participou na parada que decorria em Hamilton, mas vários outros elementos desta que é a maior sindical do ramo da construção na América do Norte marcaram presença, incluindo vários luso-canadianos.

"Este é o dia mais importante do ano para o movimento sindical", afirmou à nossa reportagem o sindicalista luso-canadiano Jack Oliveira, responsável pela filial Local 183 da LIUNA, bem como pelo Conselho Distrital do sindicato, destacando que "é o dia em que mostramos ao resto da população que não tem sindicato o que é o sindicalismo e ao mesmo tempo tentamos dar-lhes coragem para que no futuro adiram a um sindicato, seja em que tipo de trabalho for".

Façam-no "para que tenham melhores futuros, pensões e benefícios, o que é muito importante na era actual", incentivou o administrador da "183", destacando que outro dos benefícios de pertencer a um sindicato com a dimensão e o alcance desta filial da LIUNA – que acaba de ultrapassar os 57 mil membros e representa vários sectores da construção, tanto residencial como civil – é que os seus associados podem transitar de um sector para o outro.

Na sua avaliação, isto permite minimizar o impacto das flutuações do mercado nos sócios numa altura em que se projecta um aumento das necessidades laborais no sector de construção de infra-estruturas, e que deverá nivelar o abrandamento previsto para o sector residencial.

Por seu turno, Carmen Principato, o administrador da filial irmã, a Local 506, fez questão de destacar que este ano aproveitaram a parada para enfatizar a importância da segurança no trabalho, motivo porque todos os participantes desfilaram com coletes reflectores, um dos equipamentos que lhes permite aumentar a sua visibilidade.

Questionados sobre a recente contenda entre a LIUNA e o governo de Kathleen Wynne, destronado nas eleições provinciais deste Verão, tanto Jack Oliveira como Carmen Principato disseram não desejar transformar este evento num acontecimento político, opinião de que aparentemente nem todos os participantes partilhavam já que vários contingentes usaram a oportunidade para criticar o novo governo de Doug Ford.

Uma das questões prende-se com o aumento do salário mínimo para 15 dólares à hora, uma campanha que teve início em 2012 e que no Ontário só está previsto tornar-se realidade a partir de 2019, se não houverem alterações.

Entretanto, a porta-voz da organização esquerdista Socialist Fight Back, Sunny Kumar, explicou o motivo da sua oposição ao novo Primeiro-ministro provincial, adiantando que este revelou uma postura anti-laboral ao adoptar como uma das suas primeiras medidas a passagem de legislação que obrigou os assistentes dos professores da Universidade de York a regressarem ao trabalho.

A impopular greve, que já se arrastava há quase cinco meses e afectou dezenas de milhares de alunos, muitos dos quais se viram impossibilitados de terminar os seus cursos, já havia sido alvo de uma iniciativa semelhante por parte do governo anterior em vésperas das eleições, mas a proposta não conseguiu o número de votos necessários por oposição do partido NDP.

Quando o novo governo Conservador tomou posse com maioria absoluta, a legislação foi imediatamente aprovada o que, segundo ela, "envia uma mensagem ao movimento laboral de que [este governo] vai retirar o direito de greve, não é preciso negociar [com os sindicatos] e o patronato vai controlar a província", algo contra o qual promete lutar.

Também Andrea Howard ali se manifestava contra uma medida proposta por Doug Ford, nomeadamente a sua intenção de privatizar a venda de canábis, algo que considera contraproducente pois na sua opinião o foco no lucro poderá deixar de lado os melhores interesses do público.

Notável foi a participação de muitas famílias em todas as secções da parada, representando sindicatos e organizações representativas de trabalhadores, tanto do sector público como do privado e de áreas tão díspares como enfermeiras e operários siderúrgicos, bombeiros, professores, actores, cinematógrafos e muitos outros.

Brian White é sócio do sindicato IATSE, Local 667, desde os 16 anos de idade e fez questão de participar com a filha, Lucy, dizendo fazê-lo para demonstrar o seu apoio aos grevistas da Local 58, que se encontravam do lado de fora dos portões da CNE.

Ali ao lado, a beber um café com a esposa numa esplanada e a apreciar o desfile, Peter, um empregado da empresa de telecomunicações Bell afirmava que as coisas estão a ficar piores para os trabalhadores, mesmo os que têm sindicato como ele, porque as empresas conseguem contornar as leis laborais, referindo ter perdido benefícios na reforma, entre outros.

Nem todos concordam com essa avaliação e Jorge Loureiro, que é sócio da CUPE, Local 79, é da opinião que as coisas estão a melhorar para os trabalhadores sindicalizados.

Em contrapartida, Maria Delfina Richards, filiada na Unite Here, Local 75, diz notar um declínio, mesmo para quem está sindicalizado, salientando a necessidade de uma maior união entre os trabalhadores e de travar uma luta contínua para conseguirem pelo menos que os salários acompanhem o aumento do custo de vida.

O contingente da LIUNA, que encerrou o cortejo, foi o maior dos que este ano participaram e mais uma vez se apresentou acompanhado por duas filarmónicas luso-canadianas, designadamente a Banda Lira Nossa Senhora de Fátima, da paróquia de St.ª Inês, que marchou à frente dos elementos da filial Local 506, bem como a Banda do Sagrado Coração de Jesus, de St.ª Helena, à retaguarda dos elementos da Local 183.

Desfilaram ainda vários políticos, entre eles o presidente e a vice-presidente da autarquia torontina, John Tory e Ana Bailão, respectivamente, tendo ambos tido oportunidade de socializar com elementos do público e das organizações participantes ainda antes do início do cortejo.

Jagmeet Singh, Andrea Horwath e Marit Stiles, respectivamente os líderes federal e provincial do partido NDP, e a deputada provincial por aquele que é o distrito de maior expressão luso-canadiana, Davenport, assim como vários outros candidatos a posições municipais, entre eles Jennifer Keesmat, que irá defrontar John Tory nas eleições autárquicas em Outubro, foram outras das entidades políticas que integraram o desfile.

Destaque ainda para a presença do cônsul-geral de Portugal em Toronto, Luís Barros, que a caminho do trabalho fez questão de tirar alguns minutos para manifestar a sua solidariedade a título pessoal e despedir-se de várias pessoas que se preparavam para desfilar, pois parte no final desta semana para um novo posto noutro país.

Quanto ao público, apesar da elevada representação sindical no desfile notou-se um decréscimo no número de espectadores em relação ao ano anterior.


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