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Abrigo inaugurou novo elevador para pessoas com problemas de mobilidade

Cerimónia ficou marcada pela emoção sentida por utentes e apoiantes deste centro de apoio

Por João Vicente
Sol Português

"Hoje é dia de festa/Todos com grande alegria/Já chegou o elevador/Festejamos este dia", assim reza a primeira quadra do poema composto por Maria Otília Leite, que foi a "estrela" da inauguração que na pretérita quinta-feira (30) se realizou no Centro Abrigo, em Toronto.

Entre os vários convidados e entidades políticas que estiveram presentes na inauguração do novo elevador, foi Otília Leite quem esteve no centro das atenções pois, como foi referido, foi graças a ela que o problema de acesso ao segundo piso do Abrigo foi resolvido.

Assim o explicou o administrador do sindicato LIUNA Local 183, Jack Oliveira, enquanto se esforçava por conter as lágrimas ao contar a história que o levou a angariar fundos para o projecto.

Quando há cerca de dois anos visitou este centro na companhia do secretário-tesoureiro do sindicato, Luís Câmara, para procederem à entrega de um cheque angariado no decorrer de um torneio de golfe beneficente, viu que uma senhora ficou sozinha no andar de baixo, o que lhe despertou a atenção.

Ao indagar sobre o motivo daquela senhora não estar na festa, foi-lhe explicado que Otília Leite não podia subir as escadas e que o centro não dispunha de um elevador.

De imediato se começaram a desenvolver esforços para remediar a situação e atrás da generosa oferta de 110 mil dólares da "183" e de cerca de 30 mil dólares angariados pelo próprio Centro Abrigo, uma verba complementar, no valor de 136 mil dólares e proveniente do governo provincial permitiu, que se realizasse a obra agora inaugurada.

"No dia em que eu cá estive com o Luís, a sala estava cheia, mas não estava cheia", referiu Jack Oliveira, concluindo que "a senhora Otília hoje está aqui; a sala está cheia".

Momentos antes, a "Ti Otília", como é carinhosamente tratada pelos funcionários do Abrigo e pelas colegas do grupo de idosos "Vida e Esperança", tinha sido a primeira a carregar no botão para chamar o elevador, após os dignitários terem cortado a fita e descerrado duas placas no primeiro piso, dedicadas aos patrocinadores.

Ao chegar ao andar superior, a anciã foi prendada com mais uma salva de palmas e foi-lhe dada uma fita a cortar, seguindo-se uma dança em sua honra.

"Esta foi uma obra indispensável", afirmou Otília Leite em declarações ao jornal Sol Português, ao explicar que "a escada é muito íngreme, custa muito a subir e há pessoas que já não podem".

Desde que há cerca de cinco anos uma trombose lhe afectou a mobilidade, Otília Leite passa os dias a escrever e a pintar, e visita o Centro Abrigo para conviver com as amigas às terças e quintas-feiras.

Ladeado por elementos do seu Executivo – designadamente, Luís Câmara, Nelson Melo e Jaime Cortez – Jack Oliveira agradeceu os sacrifícios e a contribuição dos membros do sindicato já reformados, alguns dos quais são utentes do Abrigo, e deu os parabéns a esta instituição de cariz social em nome da 183, do Ontario Provincial District Council (OPDC) e do Canadian Council of Construction Unions (CCCU), acabando por afirmar que a LIUNA está sempre pronta para ajudar quando for preciso.

Entretanto, o marido de Otília Leite, Francisco, procedeu à leitura do poema da autoria da esposa, que a certo ponto refere ainda que "amor com amor se paga/e mais vos quero dizer/a todos os nossos amigos/temos de agradecer".

Também o presidente do Conselho de Administração do Abrigo, Humberto Carolo, usou da palavra para agradecer à LIUNA a sua generosidade, não só por esta contribuição mas também pela ajuda que dão em apoio à sua gala anual.

Antes de se retirarem, os dirigentes da Local 183 descerraram ainda uma placa que dedica o elevador aos sócios daquele sindicato.

O director executivo do Abrigo, Ed Graça, que conduziu a cerimónia, aproveitou para agradecer a todos os outros patrocinadores, quer colectivos quer individuais, cujos donativos também ajudaram a realizar este projecto, destacando ainda dentre estes os senhorios do Centro, a firma GJF Realty.

Escutou-se também o vereador César Palacio, que na Assembleia Municipal representa a zona da cidade onde está situado o Centro Abrigo, e que, como referiu, há muitos anos foi voluntário nesta instituição, compreendendo por isso o que ela representa ao ajudar milhares de pessoas a integrarem-se, a recuperarem de situações de violência e maus tratos, e a ultrapassarem barreiras.

O político agradeceu por isso à LIUNA por mais esta contribuição significativa para a comunidade, assim como ao Abrigo "por continuar a fazer o que faz tão bem", despedindo-se com votos de Feliz Natal e Bom Ano Novo.

"E agora é com prazer que vos apresento a vice-presidente da Câmara de Toronto", disse seguidamente Ed Graça, pausando para reflectir em voz alta: "adoro dizer isto".

Na sua alocução, a recém promovida Ana Bailão salientou o quanto este elevador vai ajudar o Abrigo a realizar a missão a que se propõe, chamando ainda a atenção para o facto de cada vez haver mais idosos na cidade de Toronto, tanto assim que, salientou, na Câmara se está a criar uma agência de habitação dedicada à terceira-idade.

Ed Graça agradeceu também a contribuição do governo português para este projecto ao convidar o cônsul-geral de Portugal em Toronto, Luís Barros, para dizer algumas palavras.

O diplomata começou por salientar que o apoio do consulado já vem de longa data, ressalvando que a técnica superior, Paula Medeiros, visita mensalmente esta instituição e que o governo português apoia "com honra e prazer todas as instituições e projectos culturais e sociais com qualidade e mérito, tal como é aqui o caso".

Onde está a "nossa Cristina"?, perguntou Ed Graça retoricamente ao chamar então ao microfone a deputada provincial por Davenport, Cristina Martins, agradecendo-lhe desde logo pelo papel que desempenhou para que se conseguissem os 136 mil dólares provenientes do governo provincial para este projecto.

Visivelmente emocionada, a deputada enalteceu e agradeceu o papel da LIUNA, assim como o trabalho e a dedicação da Direcção e funcionários do Abrigo, passando a referir que as lágrimas que lhe corriam pelo rosto "realmente são lágrimas de alegria" pois o dia em que anunciou aquele montante foi para si "dos eventos mais tocantes" até hoje.

Por fim Sérgio e Beatriz, dois líderes do grupo Vida e Esperança do Centro Abrigo, falaram brevemente e Sérgio, que zela pela condição física e motora do grupo. pediu a todos quantos possam para que continuem a usar as escadas mais possível, por forma a manterem-se activos e saudáveis.

Esta foi uma meta importante para o Abrigo, que há mais de 25 anos serve principalmente a comunidade de língua portuguesa, mas os seus responsáveis consideram que ainda há outras barreiras a ultrapassar e projectos a concretizar.

Segundo Ed Graça, o facto de terem agora o segundo piso completamente acessível vai ajudá-los a conseguirem outros subsídios, pelo que o próximo objectivo será conseguirem uma cozinha comunitária que lhes permita ir além dos programas para seniores e começarem a olhar para programas para jovens e inter-gerações.

"O Jack prometeu ajuda, por isso amanhã já lhe vou telefonar", disse, referindo-se ao administrador da LIUNA Local 183.

Mas os projectos não se ficam por aí e Marília dos Santos, conselheira do Abrigo e coordenadora do grupo Vida e Esperança, fala também de um sonho de longa data que é terem uma carrinha ou camioneta que lhes permita ir buscar e levar os utentes a casa.

Com amigos como estes, quem sabe talvez esses sonhos se venham a realizar – e mais cedo do que se espera.


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