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Toronto Black Film Festival:

Filmes de Portugal/Cabo Verde e Brasil representam lusofonia na 7.ª edição do certame

Por João Vicente
Sol Português

O Toronto Black Film Festival (TBFF) exibe todos os anos mais de 70 filmes, de mais de 25 países, com o objectivo de destacar obras que retratem a realidade vivida pelas pessoas negras assim como o talento de pessoas negras de todo o mundo.

A lusofonia costuma estar representada e este ano o público poderá assistir a dois filmes: "Correndo Atrás", do Brasil, e "Os Dois Irmãos", uma co-produção luso/cabo-verdiana.

"Todos os anos tentamos incluir filmes das comunidade lusófonas" diz-nos Joyce Fuerza, coordenadora principal do TBFF, referindo que "o processo de selecção é bastante longo pois recebemos filmes de todo o mundo [por isso] temos de nos certificar que escolhemos os melhores de entre os melhores [...] e este ano estamos muito contentes por termos estes dois filmes de língua portuguesa".

Em declarações ao jornal Sol Português, o realizador da produção brasileira "Correndo Atrás", Jeferson De, explica que foi há 10 anos que o autor do livro "Vai na bola, Glanderson!", Helio de la Peña, lhe ofereceu o livro, vindo posteriormente a colaborar na elaboração do guião do filme.

"Correndo Atrás" retrata a história de Paulo Galé que, sonhador, oportunista e de uma simpatia ímpar, mas sempre "teso", vê a oportunidade de representar um jovem talento futebolístico que imagina venha a ser o novo Neymar.

É uma comédia que não deixa de ter um fundo de realidade pois o trabalho neste guião "acabou por tornar-se numa investigação de como nós, negros brasileiros, população afro-brasileira, conseguimos ser felizes e batalhar no dia-a-dia – como se diz em português, "correr atrás" todos os dias – [...] e fazer isso com muita alegria", diz-nos Jeferson das características que o levam a classificar este trabalho como uma "comédia dramática".

Esta é a sua terceira longa metragem, e a primeira comédia, o que, segundo ele, o levou a sair da sua zona de conforto e explorar o poder de síntese e crítica da vida humana que a comédia possui e que lhe permite fazer uma "reflexão muito precisa" da mesma.

"O racismo brasileiro é algo muito vergonhoso para o país – nesse momento em particular a gente passa por um governo muito pouco sem filho em questões afro-brasileiras", diz Jeferson, referindo que isso o levou a procurar "fazer uma reflexão" pois "era um desafio fazer uma comédia", mas a intenção é de "não necessariamente rir, mas sim reflectir sobre determinadas situações que a comédia nos permite".

O que o atraiu nesta obra foi a possibilidade de poder retratar elementos basilares da cultura brasileira, como o futebol, o samba, a musicalidade e a feijoada, mas também o facto destes serem elementos populares ligados à cultura negra do Brasil, que diz continuar mal representada.

Deseja, portanto, usar esta obra como um contraponto a outros retratos da sociedade brasileira, como o filme "Cidade de Deus", por exemplo, que focam os aspectos negativos, o drama e a violência.

"Nós, negros, somos muito mais do que isso, mas o nosso cinema, esse cinema brasileiro que nos expõe no mundo, muitas vezes não exibe esse outro lado", refere Jeferson, que se diz orgulhoso de ver o seu filme exibido num país acolhedor como o Canadá e deixa o convite para que "conheçam um pouquinho do Brasil e da cidade do Rio de Janeiro" através da sua obra.

Já o realizador de "Os Dois Irmãos", Francisco Manso, tem uma longa carreira com obras que oscilam entre o documentário e a ficção, mas sempre com base em eventos reais – uma delas "O Cônsul de Bordéus", sobre Aristides de Sousa Mendes, que já foi exibida em Toronto.

"O importante para mim é o tema que está na base do projecto – interessam-me particularmente os temas de carácter histórico que abordem momentos de mudança [ou] transformação na sociedade onde ocorrem; por exemplo, a escravatura ou a pena de morte", refere o realizador.

Baseado no livro do mesmo título de Germano Almeida, "Os Dois Irmãos" retrata eventos decorridos na década de '70, quando André, um jovem cabo-verdiano imigrado em Lisboa, recebe uma carta do pai a dizer-lhe que o irmão mais novo tinha tido um caso com a mulher dele, portanto tinha de ir a Cabo Verde matar o irmão para limpar a honra da casa.

Apesar das circunstâncias, André não quer matar o irmão e daí surge o conflito entre o homem e os costumes e tradições – entre a lei oficial e a lei ancestral.

Esta é a terceira produção de Francisco Manso em Cabo Verde, tendo a primeira, "O Testamento do Senhor Napumoceno", de 1997, sido baseada noutra obra de Germano Almeida, e "A Ilha dos Escravos", de 2007, abordado o tema da escravatura.

"Partir de factos reais para mim é importante, pois a partir [deles] se pode explicar de uma forma mais concreta atitudes, comportamentos e questões sociais que são de grande importância", diz o realizador lusitano que realça ainda o excelente desempenho do elenco totalmente cabo-verdiano, apesar de não contar com actores profissionais, excepto talvez no caso do actor principal que tem mais experiência.

Integrados no festival TBBF, que decorre de 13 a 18 deste mês, ambos os filmes lusófonos serão exibidos no próximo sábado, dia 16, no cinema Carlton – "Correndo Atrás" à 17h00 e "Os Dois Irmãos" às 19h00.

Fundado em 2005 em Montreal por Fabienne Colas através da sua fundação com o mesmo nome e originalmente designado Montreal Haitian Film Festival, o certame viria a tornar-se no Montreal International Black Film Festival em 2009, com a edição de Toronto a surgir pela primeira vez em 2013.

Além de filmes, o TBFF promove ainda sessões de trabalho e conferências com profissionais da indústria cinematográfica, além de um Dia da Família (18) e este ano, pela primeira vez, uma feira gastronómica, nos dias 16 a 17, com pratos das Caraíbas e africanos.

Informações sobre o festival ou os filmes lusófonos podem ser obtidas, respectivamente, no portal torontoblackfilm.com, ou nos endereços tinyurl.com/correndo e tinyurl.com/doisirmaos.


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