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Canadá/Covid-19: Vários políticos em maus lençóis por fazerem férias no estrangeiro em contravenção das medidas de confinamento

Após a passagem do período natalício e das comemorações de Ano Novo – este ano profundamente limitadas devido às medidas decretadas para conter a propagação da pandemia de Covid-19 – o mundo contabilizava no início desta semana quase 86 milhões de infectados desde que foi detectado o novo coronavírus, de que resultaram 1,8 milhões de óbitos.

No Canadá, quase 53.000 novas infecções no espaço de uma semana levaram o total a ultrapassar a casa dos 600.000, com uma taxa de recuperação de 83,7 por cento e quase 16.000 óbitos depois das mais de 800 mortes registadas nos sete dias anteriores.

Também a nível do Ontário a situação se tem continuado a agravar, apesar de medidas mais restritivas, com o número de casos a rondar durante vários dias – e até mesmo a ultrapassar – os 3.000 diários.

A meio da última semana e prestes a findar o ano, o Ontário voltou a bater o recorde de infecções diárias com 2.923 no dia 30 de Dezembro, após ter registado 2.553 no dia anterior e logo superadas de imediato na véspera de Ano Novo pelas 3.328 detectadas no espaço de 24 horas.

Enquanto cadeias nacionais de farmácias como a Shoppers Drug Mart e London Drugs voltavam a insistir com os governos federal e provinciais para que lhes permitam distribuir as vacinas contra a Covid-19, o governo federal revelava a sua intenção de em breve obrigar os viajantes que chegam por via aérea a apresentar um comprovativo de que testaram negativo para o coronavírus antes de serem autorizados a entrar no país.

Na véspera de Ano Novo o governo viria a especificar que o novo requerimento, que se aplica a todos os viajantes com mais de quatro anos, entraria em vigor esta quinta-feira (7) e que quem não apresentar um plano de quarentena convincente e adequado poderá ter de cumprir o período de isolamento em instalações federais.

Segundo foi indicado, o teste terá de ser feito nas 72 horas antes do embarque e a obrigatoriedade de permanecer em quarentena durante 14 dias após a chegada continua em vigor, mesmo para aqueles com resultado negativo.

O mesmo comunicado aconselhava os canadianos que se encontram no estrangeiro e que pretendem regressar ao país a fazerem o teste com a devida antecipação para evitarem atrasos.

Embora o governo tenha indicado que a data de 7 de Janeiro tinha sido estabelecida para dar tempo às companhias aéreas para se prepararem para cumprir com as novas regras, surgiram de imediato queixas de que o plano foi anunciado muito em cima da hora e adoptado sem consultar a indústria.

A Associação Internacional dos Transportes Aéreos viria a manifestar nesse sábado (2) a sua "profunda frustração" com a medida e pediu ao governo canadiano que aguardasse mais algum tempo antes de a implementar.

Por seu turno o Conselho Nacional de Linhas Aéreas do Canadá, que já tinha indicado considerar que o plano do governo apresentava várias lacunas – incluindo a possibilidade do local onde os viajantes se encontrarem não oferecer o tipo de teste que Otava considera aceitável – viria a revelar segunda-feira (4) que o Departamento de Transportes ainda não tinha fornecido uma lista das entidades estrangeiras cujos testes são considerados admissíveis nem explicou como é que os funcionários das linhas aéreas devem determinar a validade dos documentos apresentados pelos viajantes.

Entretanto começava um surto de escândalos em torno das viagens de vários políticos no período das festas, a começar pelas férias em St. Barts do ministro das Finanças do Ontário, Rod Phillips, numa altura de confinamento e em que o governo havia pedido aos cidadãos para limitarem ao máximo o contacto com outros e para não viajarem.

O incidente viria a levar à sua demissão do cargo, mas outros políticos se seguiram, de todos os quadrantes ideológicos e de várias províncias, com os mesmos resultados.

Entre estes contam-se a deputada Conservadora e ministra dos Assuntos Municipais de Alberta, Tracy Allard; o deputado Liberal da Assembleia Nacional do Quebeque, Pierre Arcand; o deputado do partido Conservador a nível federal eleito por Calgary Sul-Signal Hill, Ron Liepert; o deputado do Partido de Saskatchewan e ministro das Auto-estradas daquela província, Joe Hargrave; e o deputado Conservador de Hamilton, David Sweet, que, por ironia, presidia ao Comité de Ética da Câmara dos Comuns.

No dia de Ano Novo, quando nos EUA se ultrapassavam os 20 milhões de casos detectados e Israel anunciava ter já vacinado um milhão de pessoas, continuava a aumentar a lista de políticos comprometidos por não cumprirem com as regras de confinamento.

A eles se juntou a deputada neo-democrata do Parlamento de Manitoba, Niki Ashton, que se tinha deslocado à Grécia para visitar a avó doente e que viria a perder o cargo de crítica do governo pelo partido NDP, embora no seu caso a viajem não fosse aparentemente para férias.

Entretanto, Natalie Mehra, directora executiva da Coligação de Saúde do Ontário – organização de cariz caritativo que representa profissionais de saúde e pacientes – pediu a intervenção dos enfermeiros militares nos lares de idosos da província para ajudar a controlar os surtos de Covid-19 que na altura afectavam já 187 instituições.

No dia seguinte, sábado (2) o Sindicato Canadiano dos Empregados da Função Pública faria o mesmo apelo ao governo para solicitar o auxílio das unidades médicas do exército.

No mesmo dia funcionários do ramo da educação da Área da Grande Toronto, numa caravana de carros, manifestaram-se frente ao Parlamento do Ontário para pedir apoio durante as três semanas de encerramento dos estabelecimentos escolares que estavam prestes a começar.

No domingo (3) o Ontário veria o número de surtos infecciosos em lares da terceira-idade aumentar para 207, após terem sido detectados casos em mais 19 instituições.

Entretanto o governo federal anunciou que estava a estudar a possibilidade de alterar a elegibilidade para o subsídio CRSB por forma a excluir de se qualificarem aqueles que viajaram para o estrangeiro e que, ao regressarem, têm de se auto-isolar durante duas semanas.

Segundo a ministra do Emprego, Carla Qualtrough, a intenção deste subsídio, que confere 1.000 dólares por cada período de duas semanas de doença ou quarentena precaucional, nunca foi incentivar os canadianos a viajarem além-fronteiras.

O mesmo viria a confirmar o Primeiro-ministro Justin Trudeau esta terça-feira (5), dizendo sentir-se frustrado e zangado pela possibilidade de que pessoas que viajaram por motivos não-essenciais tenham solicitado este subsídio.

Enquanto isso, no início da semana a funcionária de apoio Anita Quidangen, que foi a primeira pessoa a ser vacinada contra a Covid-19 no Ontário, voltou a arregaçar a manga para se tornar também na primeira a receber a segunda dose da vacina, que completa a inoculação.

Apesar da esperança tida nas vacinas, o Grupo de Escolhas Estratégicas Covid – um comité interdisciplinar composto por médicos epidemiologistas, peritos em políticas públicas, economistas e empresários – advertiu que, a menos que haja uma alteração drástica, o Canadá ruma em direcção a uma terceira vaga de Covid-19 e mais períodos de confinamento na Primavera.

Este grupo sugere desde já um período de confinamento mais prolongado, seguido de um abrandamento gradual das restrições com base nos resultados obtidos, como forma de salvar mais vidas e poupar choques na economia a longo prazo.

Entretanto o comité responsável pela investigação e preparação de um relatório sobre a propagação da Covid-19 nos lares da terceira-idade do Ontário pediu um prolongamento do prazo para a apresentação dos resultados, que lhe foi negado pelo governo.

O comité pediu uma extensão até 31 de Dezembro de 2021, mas a ministra responsável pelos serviços de prestação de cuidados prolongados, Merrilee Fullerton, diz continuar a contar com o relatório final e as respectivas recomendações até ao dia 30 de Abril.

A primeira vaga da doença vitimou 1.840 residentes nos lares do Ontário e a segunda, em curso desde 1 de Setembro, é já responsável por mais 947 óbitos.

Na capital do Ontário, a autarquia torontina anunciou que as empresas vão passar a ter de "avisar imediatamente" o Departamento de Saúde Pública assim que tomarem conhecimento da existência de dois ou mais empregados com Covid-19, assim como passam a ter de designar uma pessoa para eventuais contactos que seja necessário efectuar.

Na terça-feira (5) as Forças Armadas Canadianas revelaram a existência de um surto infeccioso entre as tropas que se encontram na Letónia em missão de prevenção contra potenciais agressões russas, embora não divulgasse o número de soldados que estão infectados.

No mesmo dia Justin Trudeau disse estar insatisfeito por saber que há vacinas que estão armazenadas em frigoríficos em vez de estarem a ser administradas, salientando que iria abordar o assunto com os primeiros-ministros provinciais durante uma conferência marcada para ontem, quinta-feira (7).

Enquanto isso, a cirurgiã cardíaca e directora da Associação Médica do Ontário, dra. Samantha Hill, advertiu que o risco que o coronavírus representa para as grávidas e as mulheres que estão a amamentar é maior do que o da vacina e disse estar preocupada por notar que o facto da vacina não ter sido testada em mulheres nessas condições está a ser visto como uma contra-indicação, quando não é o caso.

A Sociedade de Obstetras e Ginecologistas do Canadá tinha já mencionado a mesma preocupação no mês passado, voltando a reiterá-la num comunicado emitido nesse dia.

Entretanto, e em resposta a críticas de que a inoculação contra a Covid-19 não estaria a desenrolar-se com a rapidez desejada, o governo do Ontário assegurou a todos os residentes, funcionários e prestadores de cuidados essenciais em lares e instituições a braços com focos infecciosos que irão ser vacinados até 21 de Janeiro.

A promessa aplica-se às instituições de Toronto e das Regiões de Peel, York e Windsor-Essex, mas não foram facultadas datas para a vacinação nos restantes lares de idosos da província.

A directora dos serviços de saúde do Canadá, dra. Theresa Tam, mais uma vez veio a público para pedir a todos para que sejam solidários e sigam as directrizes das autoridades, salientando que as recomendações só são eficazes se forem cumpridas.

Foi ainda há poucos dias que no Reino Unido foi encontrada uma nova variante do coronavírus que provoca Covid-19, estirpe que se encontra também já no Canadá onde foram detectados nove casos e que, embora aparentemente não seja mais letal ou nociva, é substancialmente mais contagiosa.

Esta semana foi revelada a existência de uma terceira variante, esta descoberta na África do Sul e com uma mutação que tal como a do Reino Unido a torna mais infecciosa, sem necessariamente ser mais perigosa.

Contudo, e ao contrário da estirpe do Reino Unido, que se prevê possa ser prevenida pelas vacinas actuais, a mais recente variante apresenta mutações que preocupam os peritos por terem maior probabilidade de serem resistentes à inoculação.

Apesar disso, e mesmo que assim seja, os epidemiologistas lembram que não será necessário esperar tanto tempo para adaptar a vacina à nova estirpe, uma vez que o processo será agora semelhante ao que acontece com a vacina da gripe, que todos os anos tem de ser reformulada devido às mutações naturais do vírus.


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