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Semana de Portugal:

Ex-combatentes celebram aniversário da Associação dos Veteranos Portugueses do Ontário

Por João Vicente
Sol Português

"[...] Menino, creio que somos todos iguais tanto nos desgostos como nos sofrimentos.

Ao dizer isto, as lágrimas corriam-lhe pelo rosto abaixo, e eu já não fui capaz de lhe fazer mais nenhuma pergunta..."

– in "Recordar é viver – um soldado em terras do Ultramar", de Fernando Martins

A Associação dos Veteranos Portugueses do Ontário (AVPO) celebrou sábado (2) o seu aniversário, no decorrer do qual se registou o lançamento do livro de Fernando Martins, "Recordar é viver – um soldado em terras do Ultramar", de onde provém o excerto supra citado.

A organização, instituída há 16 anos e estabelecida como um dos poucos núcleos no estrangeiro da Liga dos Combatentes – três dos quais no Canadá: em Toronto, Winnipeg e Montreal – escolheu mais uma vez o salão de festas do Europa Catering para o seu encontro anual, que se realizou inserido nas comemorações da Semana de Portugal.

A ocasião serve de convívio para este grupo de ex-combatentes que tende a diminuir à medida em que os veteranos que o compõem vão avançando na idade, mas há esperança de que, em resposta ao apelo lançado o ano passado, a situação possa ser invertida.

Para já, conseguiram adicionar cerca de uma dezena de novos veteranos ao rol de membros e, segundo o presidente da APVO, espera-se que alguns militares que serviram, não no Ultramar, mas na Bósnia venham também a aderir à organização, o que contribuiria para a sua longevidade.

Entretanto, Luís Vieira considera a possibilidade de se adaptar o próprio horário do evento em anos vindouros por forma a que se torne numa matiné em vez de uma noitada, o que facilitará a participação dos membros com idades mais avançadas.

Este ano mantiveram o formato habitual de um jantar convívio, contando com a participação de cerca de 160 pessoas, incluindo convidados de honra.

"Além do convívio e de matarmos saudades dos tempos em que éramos jovens e andávamos lá por aquelas matas, é um dia memorável para nós e que gostamos de comemorar", como salientou o tesoureiro da associação, Manuel Barreto, sobre a importância deste que é um de três encontros anuais que realizam.

(Os outros são o desfile na Parada do 10 de Junho e a homenagem aos ex-combatentes por Portugal e pelo Canadá, que se realiza em Outubro, junto ao monumento em sua honra no cemitério Glen Oaks, em Oakville.)

Embora o festival Dundas West Fest tenha dificultado o estacionamento e o acesso ao local, o encontro não deixou de se realizar, ainda que com algum atraso, e abriu com os hinos do Canadá e de Portugal, e a observação de um minuto de silêncio em memória "dos camaradas que já partiram", seguido da oração de graças proferida pelo diácono Carlos Botelho e que precedeu o jantar.

No decorrer do serão foi lida uma mensagem do general Joaquim Chito Rodrigues, presidente da Liga dos Combatentes de Portugal, e anunciado que a ausência do presidente do núcleo de Winnipeg se ficou a dever a um acidente que este sofreu poucos dias antes, sendo no entanto entregues a placa e a medalha que enviou, respectivamente, ao presidente Luís Vieira e a Eduardo Resende, que foi um dos impulsionadores daquele núcleo na cidade capital de Manitoba.

Entretanto, na mesa de honra encontravam-se o cônsul Luís Barros; a juíza de Cidadania, Renata Brum Bozzi; o representante das Forças Armadas Canadianas e ex-vereador de Toronto, Krzysiek Korwin-Kuczynski, e a esposa, Diana; Mike Wolcott; o coronel Michael Gomes; Ilda Januário; Fernando Martins; e o diácono Carlos Botelho.

Dos vários comentários ouvidos ao longo da noite ficou a nítida sensação de que a passagem pelo Ultramar foi um momento agridoce para muitos, senão todos os veteranos.

Lá descobriram o valor da camaradagem, apaixonaram-se por aquelas terras exóticas, gozaram alguns momentos de alegria, deram largas ao fulgor da juventude e se tornaram homens.

Mas foi também lá que deixaram amigos e colegas, passaram momentos de terror e chacina, alguns deixando um pedaço da pessoa que foram e que nunca mais voltaram a reencontrar, marcados que ficaram para o resto da vida.

Da boca de muitos se ouviam expressões que demonstravam alguma desilusão – "Para quê? Para entregarem tudo de bandeja?", aludindo ao facto de que no Ultramar pereceram cerca de 10 mil portugueses e em Portugal há ainda cerca de 130 mil veteranos que sofrem sequelas da guerra; muitos deles traumatizados e mutilados, sem nunca conseguirem reinserir-se na sociedade nem constituir família, acabando alguns até sem abrigo.

Manuel Barreto apraz-se com o facto da Liga se ter vindo a esforçar para tentar ajudar os ex-combatentes afectados, existindo já três casas de apoio – duas delas activas e uma em fase de construção – mas lamenta o desprezo a que foram votados por sucessivos governos.

No final do jantar o cônsul-geral de Portugal em Toronto, Luís Barros, urgiu os portugueses a apreciarem e usufruírem, tanto da cidadania canadiana como da portuguesa, fazendo uso dos seus direitos cívicos, após o que Ilda Januário passou a apresentar o livro de Fernando Martins.

O tomo é baseado num diário que o autor manteve desde que saiu de Portugal até que voltou para junto da família, abrangendo os dois anos de serviço militar prestado em Angola, entre 1963 e 1965.

Em declarações ao jornal Sol Português, Fernando Martins conta-nos que partiu de Portugal em segredo, pois "a mãe não era muito saudável" e o adeus ia-lhe custar muito mais do que o facto consumado.

"A despedida custa mais a quem fica do que a quem vai – assim custou-me só a mim", referiu.

Dos dois anos que esteve em Angola, o que mais lhe custa é aperceber-se da futilidade do que se passou: "tanta vida, tanto sangue lá se derramou para nada valer", recorda com pesar.

Dos Dembos, nem gosta de se lembrar pois foi onde passou "os maiores sacrifícios" – dos cerca de 27 meses em Angola, 11 foram passados nessa região e desse período diz-nos que "podiam-se contar as vezes que dormi na cama".

Já Malanje foi uma experiência completamente diferente e recorda as amizades que fez, até com os presos que guardava e com quem jogava às damas, com "a arma ali mesmo ao lado", ao alcance deles.

Havia uma relação especial entre eles – tanto assim que lhe pediam para os deixar ir visitar as namoradas, o que ele fazia exigindo-lhes a promessa de que voltassem antes do amanhecer, e estes cumpriam.

Tão forte foi a relação que forjaram que, como nos conta, muitos dos prisioneiros choraram quando chegou a altura de voltarem para as suas terras.

Apesar do conflito e do que passou, sempre se deu bem com os naturais de Angola e o país ficou-lhe no coração – tanto assim que a sua intenção era voltar para lá com a família, sonho que o 25 de Abril deitou por terra, embora nunca tenha apagado as saudades.

O serão de sábado viria a concluir com um espectáculo de fado, com actuações de Manuel da Silva, Carmen Moscatel e João Brito, acompanhados musicalmente por Manuel Moscatel (guitarra), Tony Melo (viola) e Januário Araújo (viola baixo), e com Jonathan Laranjeira encarregue do som.

Antes, porém, uma cerimónia veria os membros da AVPO e algumas entidades agraciadas pela organização com medalhas comemorativas do aniversário.


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