PENA & LÁPIS


Correspondente de Portugal:

Sem rei nem roque

Por Hélio Bernardo Lopes
Sol Português

Por muito que seja o optimismo de cada um, porventura a fé respectiva, por cá ou pelo mundo, a grande e omnipresente verdade é que a loucura alastra por todo o lado. Tudo está em ligar o televisor, ou em estar atento ao que nos circunda. Num ápice, surgem-nos notícias ou evidências de uma situação que se caracteriza por uma doença social profunda, claramente potenciada pela natureza humana, mas, sobretudo, pelo modelo político hoje dominante no mundo.

À procura da guerra

Já não é possível deixar de perceber que os Estados Unidos, mormente agora, com Donald Trump e seus apaniguados, se está paulatinamente a preparar para dar corpo a uma guerra que lhe permita voltar a dominar o mundo num quadro que, no entretanto, se alterou: o de super-potência única no mundo e deste dominador e líder supremo.

O mais interessante, no meio de tudo isto – tragicamente interessante _, é constatar o modo como os políticos europeus se perfilam de cócoras perante tudo e mais umas botas com que Donald Trump se determina a fustigar tudo e todos, incluindo mesmo os Estados da União Europeia, e também esta mesma. A resposta, como se vai podendo ver, salda-se por via de coisas redondas, mais ou menos gongóricas, mas que se percebe serem completamente ineficazes. Um mero cacarejar.

Acontece que a guerra vai chegar, sendo que a História registará a cabal cumplicidade da União Europeia e dos seus Estados. Uma lamentável e dolorosa realidade que nos mostrará como a tal União Europeia não passou de um sonho de pesadelo, ao mesmo tempo que ajudou, de forma essencial, ao completo abastardamento da democracia.

Um aliado e peras!

Mas o mais risível no meio desta desgraça é continuar a ouvir os políticos europeus a tratarem os Estados Unidos como aliado. Um aliado que não irá deixar de recorrer à guerra à medida que se aperceber o modo sem retorno da sua decadência. Vão decorridos mais de vinte cinco anos sobre esta minha crença publicamente exposta, e muitos mais sobre a percepção do carácter violento e belicista da sociedade norte-americana.

Para já, os Estados Unidos declararam guerra (comercial) à União Europeia, certos, naturalmente, da tradicional fraqueza dos políticos europeus. E, em boa verdade, tudo aponta para que estes tentem adoçar uma situação de que têm um terrível e objectivo medo. Manda o grande e universal ditador, aquiesce, meio sorridente, o por este tratado como estando num estádio primitivo de dependência político-social.

Um exemplo interessante

No meio de tudo isto, o novo Governo de Espanha, liderado por Pedro Sanchez. Uma situação que nos permitiu constatar uma interessante realidade constitucional espanhola: em menos de quarenta e oito horas, caiu um Governo e entrou outro em funções. De molde que eles vão à frente, nós bem mais atrás.

Mais um fim-de-semana

Raro é o fim-de-semana em que se não constata um pico no tráfico de estupefacientes em Lisboa. Em geral, porém, trata-se de máximos muito relativos. Mas no caso do fim-de-semana passado, o pico foi tão visível e tão vasto, que poderá situar-se próximo dos valores mais altos a que pude assistir.

Saindo de casa pelo meio da manhã, almoçando fora e regressando pouco depois, com mais um café pelo final da tarde, acabei por conseguir um cúmulo de uma realidade que teria de estar a passar-se, mas que assumiu no fim-de-semana passado um valor muito próximo dos mais elevados a que pude assistir. Uma verdadeira explosão de drogas, certamente de mil e um tipos. Coisas do tempo modernista que conquistou... Uma maravilha!

Sociedade, família, genes

Deu-se o caso, durante a refeição da manhã, em certo café, de podermos acompanhar a conversa das duas mesas contíguas à nossa. Uma família residente na minha zona, com aparência abastada e de bem, mas em que certa mãe se queixava aos seus familiares sobre o muito mau aproveitamento escolar de três dos seus quatro descendentes.

Com grande frequência, lá fui escutando da mãe dolorida esta queixa: eles tiveram tudo, não percebo a razão de tão más notas e desta reprovação de agora, e por faltas!

Na altura ouvi estas palavras mas não pude comentá-las com a minha mulher. Simplesmente, cerca de uns quinze minutos depois a referida família deixou as suas mesas, o que me permitiu dialogar com a minha mulher sobre o que ouvíramos.

Expus à minha mulher o meu ponto de vista sobre este tema, apontando três níveis de influência na formação de cada uma das pessoas: a sociedade, a família e os genes.

Em primeiro lugar, a sociedade. No caso português, mais geralmente no ocidental, a sociedade tem vindo a perder influência de um modo acelerado. Em contrapartida, tem vindo a induzir nas pessoas um sentimento crescente de individualismo e de aumento do grau de liberdade a todos os níveis. Para mim, a sociedade dos nossos dias é um pernicioso factor na formação das pessoas.

Em segundo lugar, a família. É um factor ainda muito importante, mas só se se suportar num conjunto coerente de valores e de vivências, tudo temperado por regras disciplinares razoavelmente fortes e impostas e praticadas desde a infância. Simplesmente, a generalidade das famílias vive a anos-luz desta realidade. Significa isto que a família vale hoje o que vale: um porto de abrigo, mas nem sempre um estaleiro.

E, em terceiro lugar, os genes. Hoje, à beira dos meus setenta e um anos, estou em crer que é este o factor fundamental na definição do percurso de vida de cada um. Penso assim porque conheço mil e um que vieram do nada e chegaram a lugares supremos e outros tantos que, vindo dos melhores ambientes, nunca passaram de lugares secundaríssimos. E estes casos não são raros, bem pelo contrário.

Ao contrário do que defende a minha mulher, é minha convicção que a estrutura genética se constitui no factor fundamental no percurso de vida de cada um: pode ter-se recebido a melhor educação e sair-se um malandrim; e pode ter-se nascido sem condições adequadas e chegar-se a um ponto alto. Não faltam exemplos em profusão. Por cá e por todo o mundo.

Desatenção

Com algum espanto, recebemos todos do bispo de Leiria-Fátima, António Marto, a afirmação de que a posição do PCP na eutanásia surpreende, mas é humanista. Que é humanista, objectivamente não espanta, mas também não surpreende. Mas o que realmente nada surpreende nesta posição do PCP ao redor da eutanásia é o que de conservador na mesma se contém. Andará bem o bispo António Marto se deitar a estudar a História do PCP, para tal deitando mão da obra de José Pacheco Pereira.

Falta a outra carta

Sem estranheza, o Papa Francisco enviou uma carta ao presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, divulgada sexta-feira pela vice-presidente Rosario Murillo, em que apela ao diálogo para solucionar a crise e refere que nunca é tarde para o perdão.

Quando tomei conhecimento deste documento, de pronto me ocorreu a situação criada por Israel aos palestinianos, de pronto me interrogando: então e os mil e um crimes de Israel sobre os palestinianos, incluindo a ocupação de territórios que nunca lhe pertenceram? Mas logo me ocorreu o risco de uma tal tomada de posição, para lá da guerra hoje em curso do Ocidente contra o Islão: então, e o holocausto não viria logo à baila na resposta israelita? Enfim, chegou-se a um ambiente sem rei nem roque.


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