PENA & LÁPIS


Padroeiro de Lisboa Santo António ou São Vicente?

Quando se nasce "lisboeta" é se sempre "lisboeta"

Por Idalina da Silva
Sol Português

Segundo a tradição "lisboeta", dia 13 de Junho é feriado em Lisboa para honrar Santo António, considerado ser o padroeiro da capital de Portugal. Porém, muitos "alfacinhas" não sabem que o patrono da diocese de Lisboa não é Santo António ou António de Lisboa, também conhecido como Santo António de Pádua, de sobrenome incerto mas baptizado como Fernando, Doutor da Igreja que nasceu em Lisboa, no lugar onde foi erigida uma Igreja em seu nome.

Viveu na viragem dos séculos XII e XIII. A força da tradição parece ter posto de lado o verdadeiro padroeiro da capital, seu nome São Vicente de Fora. Como o meu avô dizia: "há séculos que vive na sombra de Santo António". Quando era criança, pela altura de Santo António, o meu avô contava-me a história do São Vicente, tal como lhe tinha sido contado por um sacerdote em 1939. Contava ele que durante um serviço ao tal sacerdote, próximo ao dia de Santo António (meu avô era taxista nocturno em Lisboa, tinha um currículo de histórias inacreditáveis), numa conversa sobre as festas populares, lhe perguntou se sabia quem era o padroeiro da capital do país. Claro que o meu avô respondeu, Santo António. Para logo de seguida o sacerdote dizer com uma voz crítica: "Não. Não é. A memória popular parece ter esquecido o mártir.". "Desculpe, mas não sei a que mártir se está a referir." - retorquiu o meu avô. "São Vicente. Já ouviu falar dele?" O meu avô não sabia quem era este suposto padroeiro de Lisboa. "Desculpe mas não sei, não. Quem foi São Vicente?".

Depois de uma longa explicação, o meu avô ficou a saber que segundo reza a História, o corpo de São Vicente terá sido lançado aos abutres, mas foi protegido por um corvo. Tentaram então desfazer-se dos restos mortais do Santo atirando-o ao mar, mas as marés trouxeram-no de volta. O seu corpo terá sido resgatado e sepultado junto aos muros de Valência. As suas relíquias chegam a Lisboa, ficando na Igreja de Santa Justa, antes de se recolherem no dia seguinte na Sé. O mártir de Valência tornou-se assim o padroeiro de Lisboa. Na realidade uma história interessante, mas ou o sacerdote não contou tudo, ou o meu avô com o passar do tempo já não se lembrava bem. Para ele Santo António foi sempre o padroeiro de Lisboa. Para mim Santo António representa festas populares, sardinhas, as noivas, fogo de artifício e as fogueiras.

Lembro-me quando tinha 5 ou 6 aninhos, usar um banquinho feito pelo meu pai, como "altar" para a imagem miniatura de barro do Santo António. Não faltava o manjerico e o napperon, para embelezar. Sentava-me nas escadas do Café do Bairro da Encarnação, e quando alguém passava eu dizia… "um tostãozinho para o Santo Antoninho"! As pessoas conheciam-me desde que tinha nascido, achavam graça e lá colocavam no pratinho o tostãozinho. Mais tarde comprava na capelista as populares "rabichas". Era uma brincadeira.

Nunca mais me lembrei do "outro" padroeiro de Lisboa até o ano passado. Acontece que conheci uns "lisboetas" que ao sabor da sardinha vieram ao encontro da história que tinha sido contada ao meu avô. Afirmando que São Vicente é na realidade o padroeiro da minha cidade. Lembravam-se dos avós dizerem que o dia do São Vicente, no tempo dos seus pais, era celebrado no dia 22 de Janeiro e se não fosse a igreja o nome do Santo já tinha desaparecido. Santo António sempre teve mais popularidade entre o povo e passou a ter um lugar de destaque nas festividades da cidade. Assim, fiquei a saber que muitos "alfacinhas" têm conhecimento do verdadeiro padroeiro de Lisboa. Como queria saber mais, dirigi-me a vários sites, inclusive ao site da Paróquia da Amadora, onde tive toda a informação que passo a subscrever.

A adoração de São Vicente na Península Ibérica já é uma tradição muito antiga. Ao olhar para o brasão e bandeira de Lisboa irá encontrar uma nau com dois corvos. A história por detrás dessa imagem refere-se a São Vicente, um Santo de origem aragonesa, que viveu exactamente do outro lado da Península Ibérica, no extremo oposto a Lisboa, entre os séculos III e IV. Foi martirizado até à morte por se negar a adorar deuses pagãos. Com a invasão muçulmana na Península Ibérica no século VIII, o corpo de São Vicente foi colocado num barco à deriva no mar, dando à costa no Promontório Sacro, Cabo de Sagres, que entretanto se passou a chamar-se Cabo de São Vicente.

Diz a lenda que D. Afonso Henriques, já no século XII, fez a promessa de que recuperaria as ossadas do mártir S. Vicente caso conquistasse Lisboa. Após o cerco ao castelo pelos mouros que durou sessenta dias, a cidade foi conquistada em 1147. O Rei de Portugal ordenou que fossem encontradas as relíquias de S. Vicente, que na altura se encontravam no Algarve, território ocupado ainda por mouros. Não foi tarefa fácil pois não se sabia muito bem onde se encontravam. Foi preciso esperar por 1173 para que as relíquias fossem encontradas e transportadas de barco para Lisboa. Diz-se que dois corvos protegeram a nau durante toda a viagem até à chegada a Lisboa. Nesse mesmo ano, São Vicente tornou-se oficialmente o padroeiro de Lisboa. E a nau e os dois corvos tornaram-se símbolos da cidade, presente no seu brasão (e também em muitos dos bonitos candeeiros de rua e de fachada da iluminação pública da cidade).

O dia de São Vicente é a 22 de Janeiro mas o feriado de Lisboa é a 13 de Junho, o Dia de Santo António. Vou já explicar-lhe porque Santo António é o padroeiro eleito pelo povo. Santo António nasceu em Lisboa, em 1195. Ainda em vida, tornou-se muito popular em Portugal e Itália, onde morreu em Pádua em 1232. Foi canonizado apenas um ano após a sua morte, algo verdadeiramente excepcional, mesmo nos tempos actuais. Santo António de Lisboa e Santo António de Pádua são a mesma pessoa. Santo António é adorado por ser casamenteiro, proteger os amputados, os animais, os idosos, os pobres, os oprimidos, as grávidas, os marinheiros e pescadores, os viajantes, as colheitas, e por também proteger contra os naufrágios e a fome. Até ajuda a encontrar objectos perdidos, com o Responso de Santo António, uma oração feita para esse propósito. Afinal de contas, Santo António de Lisboa parece ser a quem os fiéis se podem virar em alturas de necessidade e aflição e aquele que todos os anos traz alegria a Lisboa e, por isso, não é de estranhar que nos dá gosto celebrar o dia de Santo António.

Sendo um Santo Português que protege quase tudo e todos, que ajuda a conseguir um bom casamento e cujo dia é celebrado quase no começo do Verão é fácil perceber porque razão se tornou o Santo preferido dos lisboetas e o padroeiro escolhido pelo povo. O povo gosta tanto do seu Santo António que o celebra o mês inteiro, enfeitando os bairros com animados arraiais, onde todos os vizinhos e turistas se juntam a desfrutar das sardinhas em verdadeiras romarias. Ironicamente, com apenas 15 anos, o Santo terá frequentado o mosteiro de São Vicente de Fora, dedicado ao seu actual "rival".

O Santo foi um homem de muitos estudos, primeiramente viajando de Norte a Sul de Portugal para estudar, mais tarde emigrou para França e Itália, onde obteve vários títulos de mérito, por pregar e ensinar os frades. Foi ainda missionário em África.

Os sermões do Santo, que chegaram aos dias de hoje, e a bondade comoveram a população de Pádua, onde morreu em 1231. Durante cinco dias, o povo velou o corpo de António até este ser consagrado Santo.

A canonização chegou alguns anos mais tarde, altura em que já era conhecido como Santo António de Lisboa. Santo António foi proclamado pelo povo de Lisboa como o Santo Padroeiro, mas para a igreja católica portuguesa, oficialmente é São Vicente o patrono da capital de Portugal. Apesar de ser o santo patrono da diocese de Lisboa, o mártir São Vicente vive na sombra do mais popular Santo António.


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