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Covid-19:

Como estão a reagir as empresas luso-canadianas em Toronto

Sol Português auscultou várias firmas sobre o impacto das medidas de contenção da pandemia e previsões para a reabertura

Por João Vicente

Sol Português

Quase dois meses volvidos desde que o governo do Ontário declarou o estado de emergência na província devido à pandemia de Covid-19, auscultámos mais de uma dezena de empresas luso-canadianas sobre o efeito que nelas tiveram as medidas decretadas e o que preconizam para o futuro.

Christopher Reis, técnico de próteses dentárias na clínica da especialidade, CR Denture Centre, foi um dos que de imediato sentiu os efeitos das restrições, continuando com a clínica encerrada desde então, excepto para casos de urgência.

Embora não saiba ainda o que estará para vir, a não ser que haverão mudanças – ainda em fase de negociação entre o organismo que rege os técnicos da especialidade e o governo provincial – considera certo que após seis semanas encerrados ao público, com despesas mas sem receitas, continuar vai ser "extremamente difícil".

Ao desconhecimento das mudanças que aí virão soma-se a incerteza "se as pessoas virão a recorrer aos serviços da clínica logo de imediato ou se irão esperar pelo ano que vem".

Essa incerteza não é partilhada por Gary Manata, proprietário gerente da Ourivesaria Manata e de uma repartição concessionada da Service Ontario, que é da opinião que "o ramo da ourivesaria [e] qualquer outro mercado de luxo vai ser afectado no futuro".

Em relação ao comércio de artigos de luxo afirma mesmo que achou que "ia haver uma correcção", mas nunca pensou "que fosse desta magnitude e a nível mundial".

Com ambas as firmas encerradas desde 20 de Março, diz-nos não saber ainda quando será a reabertura mas, pelo menos em relação ao departamento do Service Ontario, "se esperámos até agora, podemos esperar mais umas semanas para ter a certeza que quando abrir é para ficar aberto", para que não tenha de haver "uma segunda fase e fechar" de novo.

Quanto ao negócio de ourivesaria estabelecido pelos pais, Gary Manata diz que a recuperação "vai ser a muito longo prazo" e acredita que, seja no ramo que for, o futuro "vai ser complicado".

Dá como exemplo um restaurante que "com as novas medidas que de certeza absoluta vão ter que ser tomadas, um espaço para 200 pessoas vai ser, se for preciso, restringido a 100 pessoas".

A seu ver, "isso vai afectar tudo", rendas, preços de imobiliário, etc., por isso considera "impossível" prever o que irá acontecer rematando que "é esperar para ver".

Com essa realidade depara-se o proprietário da Churrasqueira Martins, Carlos Martins, cujo restaurante, tal como todos os outros, está encerrado desde que foi declarado o estado de emergência.

Apesar de manter o departamento de takeout a funcionar, o empresário afirma que se registou uma quebra também nessa vertente do negócio, já para não falar do cancelamento das reservas para eventos no restaurante e que o levaram a devolver os depósitos aos clientes, tal como aconteceu com o departamento de catering e que, entre outros, registou o cancelamento de dois casamentos de vulto.

A nova realidade obrigou a empresa a recorrer ao uso de máscaras e à instalação de uma vitrine entre a caixa e os clientes no takeout, assim como a estabelecer a circulação num só sentido, com os clientes a entrarem por uma porta e a saírem por outra.

Quanto ao futuro, prevê que deixará de haver "casas cheias" pois a redução da capacidade do restaurante é uma certeza, ainda que o resto seja uma incógnita.

No entanto, e apesar de tudo, diz estar já a começar a preparar-se para a reabertura da esplanada e diz que vai instalar um lavatório à entrada para os clientes poderem lavar as mãos.

"Além de não se ganhar, tem de se gastar dinheiro", refere Carlos Martins, que é da opinião que por tudo isto, "quem tiver um restaurante de pequena capacidade em 2020 está acabado".

Em igual barco se encontra Lurdes Costa, proprietária das churrasqueiras Vila Verde e que teve de encerrar o restaurante localizado na Weston Road após uma semana em regime só de takeout.

Como refere, "a clientela [daquele estabelecimento] era mais para as mesas" e o volume de negócio não justificava manter a porta aberta, mas continuou com o serviço de takeout aberto no estabelecimento na rua Dundas.

"Na Dundas estamos a trabalhar a 40 por cento, talvez", refere a empresária que destaca terem também investido na instalação de divisórias transparentes para atender o público com mais segurança.

Quanto ao futuro do restaurante, considera terem ali "um espaço bom" mas irão "ter que alterar a disposição das mesas, com uma certa distância de umas pessoas para as outras", estando por isso a prepararem-se para terem "talvez um terço da clientela" que serviam anteriormente.

Com o cancelamento de casas cheias já marcadas até Junho, sobreviver agora com uma redução tão grande no número de clientes "não vai ser fácil", mas Lurdes Costa considera que por serem os proprietários do edifício na Weston Road e serem uma família unida e trabalhadora, irão conseguir superar a crise.

Manny Andrade, proprietário gerente da firma de imobiliária Royal LePage Supreme e corretor, diz ter notado que o negócio estava a ficar afectado logo no início de Março.

"A economia até estava bastante boa, forte – talvez até forte demais", refere, aludindo a previsões no sentido de que poderia haver uma correcção natural do mercado.

A primeira reacção foi proteger os clientes e os funcionários enquanto mantinham a empresa a funcionar, uma vez que "havia clientes que já tinham vendido as suas casas e necessitavam de comprar" outra para se mudarem, e vice-versa, destaca.

Mesmo assim, calcula que a quebra no volume de transacções de Março para Abril tenha sido na ordem dos "70 a 80 por cento".

Considerado um sector essencial pelo governo do Ontário, a indústria imobiliária teve de se adaptar de imediato, com a implementação de visitas virtuais às moradias a tornarem-se na norma e as visitas em pessoa a decorrerem com os agentes e os clientes a viajarem em carros separados e a terem de usar luvas, máscaras e desinfectante.

"Os agentes abriam as portas e os clientes entravam e saíam sem tocar em nada", esclarece Manny Andrade que adianta que os agentes que não tinham de vender simplesmente "suspenderam" a listagem das propriedades e "muitas das casas que estavam à venda estão ainda fora do mercado", à espera que a crise passe ou que "o mundo ou nós todos nos adaptemos às medidas novas".

Entretanto, tomaram medidas como a instalação no escritório de divisórias transparentes e a colocação de desinfectante para as mãos a cada cinco metros, mas a seu ver "o mais importante nisto tudo não são os vidros nem plástico, mas sim habituarmo-nos a trabalhar com mais espaço e com mais reconhecimento das medidas essenciais para nos protegermos e àqueles que estão à nossa volta".

Numa mensagem de esperança, refere as previsões que apontam no sentido de que após uma pausa do mercado vai continuar a haver pessoas a comprar e a vender, e cita uma análise interna da indústria que estima que os preços dos imóveis no início de 2021 estejam ao nível dos que se observavam no final de 2019.

Também Lázaro Ramos, há largos anos no ramo da imobiliária, diz que cedo notou o efeito da Covid-19 no mercado, o que se veio a acentuar com a declaração do estado de emergência pelos sucessivos níveis de governo.

"Claro que as pessoas, sempre que há incertezas, instabilidade – enfim, o desconhecido", têm tendência a retrair-se, esclarece, considerando que "de modo geral, o mercado dá um passo ou dois para trás" nessas alturas.

De qualquer forma, nota que ainda há quem compre e venda, e quanto aos restantes que aguardam para ver como tudo vai evoluir, considera que "é uma questão de tempo" já que "as pessoas que têm de comprar ou vender irão fazê-lo, mas com mais cautela".

Acha difícil prever o que aí vem, mas crê que "a pouco e pouco as pessoas irão ganhando um certo à vontade e confiança" embora admita que "vai levar tempo, porque o susto foi grande".

Já Jonathan Silva, relativamente jovem não só na idade mas também nas andanças da imobiliária, embora já com alguns anos de experiência, diz que depressa se adaptou não só às medidas decretadas pelo governo mas também a fazer tudo online, incluindo o uso de assinaturas electrónicas.

"Na verdade já tínhamos as ferramentas à disposição – visitas virtuais, assinaturas electrónicas e tudo isso – apenas tivemos de as publicitar mais e adquirir materiais de desinfecção em preparação para quando tudo voltasse ao normal".

"Já estamos prontos para isso", diz-nos com confiança, embora saliente achar que o período de transição vai decorrer lentamente.

Noutro ramo, Patrick Vieira – sócio gerente da repartição de seguros Jones DesLauriers – considera que o maior desafio inicial ao notar o abrandamento nas vendas foi "virtualizar" o escritório , o que envolveu determinar se os funcionários tinham as ligações e equipamento necessário para poderem trabalhar de casa.

De seguida foi necessário analisar qual seria o impacto do que estava a acontecer e como é que isso iria afectar a prestação dos serviços que os clientes iriam precisar da companhia.

A próxima etapa consistiu em "ajustar as apólices dos clientes, para lhes poupar dinheiro" ao recomendarem, "por exemplo, reduzir a cobertura em veículos que não estavam em circulação".

Patrick Vieira acha que doravante as firmas estarão mais abertas à possibilidade dos empregados trabalharem de casa pois todos se aperceberam de que "pode ser produtivo e eles podem ser tão eficazes em casa como no escritório", desde que se reúnam as necessárias condições de trabalho, salienta.

Quanto ao isolamento dos membros da equipa, considera que é uma situação que pode ser combatida com o recurso a reuniões virtuais periódicas.

Entretanto, antevê que muitos clientes que dantes insistiam em ir ao escritório para tratar dos assuntos em pessoa se tenham apercebido que é tão rápido e eficaz fazê-lo telefonicamente ou online, mas vê as coisas a eventualmente voltarem ao normal pois, como destaca, "somos seres sociais".

Também a venda de automóveis é algo que as pessoas preferem fazer cara-a-cara e Joe da Costa, vendedor de renome na Addison e que neste período atendeu os clientes por meios electrónicos, vê como positivo o facto de já ter autorização para passar a fazer marcações.

Contudo, destaca que no departamento de manutenção e reparações têm estado sempre "a trabalhar a todo o gás" e salienta que os serviços mais rápidos, como as mudanças de óleo, por exemplo, não precisam de marcação, sendo cumpridas as medidas de distanciamento exigidas e colocados plásticos no assento e no volante para assegurar que os veículos não são contaminados.

Entretanto, além de passarem a estar à disposição dos clientes das 8h00 às 17h00 de segunda a sexta-feira, Joe da Costa revela que possivelmente irão começar a abrir também ao sábado.

Ainda no ramo automóvel, também a oficina de mecânica, bate-chapas e pintura Autosonic esteve sempre aberta, uma vez que funciona num sector considerado essencial pelo governo provincial.

O seu proprietário, Luís Belo, destaca que o facto desta pandemia ter ocorrido na altura em que as pessoas começavam a trocar os pneus de Inverno para os de Verão nos carros, levou a que a oficina visse uma redução na actividade de apenas 30 a 40 por cento.

"Reduzi as horas do pessoal mas mantive-os todos" a trabalhar, diz, salientando que os funcionários precisam "do cheque ao fim da semana".

No que diz respeito às medidas de protecção que teve de adoptar, além de nova sinalização e da instalação de uma barreira transparente na área de atendimento, diz ter reduzido o número de cadeiras na sala de espera e disponibilizado desinfectante, além de ir buscar e deixar os carros de certos clientes que não querem sair de casa, enquanto que os funcionários têm a opção de usar máscara e luvas na oficina.

Ao normal acha que as coisas não vão voltar ainda durante muito tempo, mas tem esperança que estejamos mais perto disso lá para o fim do ano.

Entretanto Pedro Maia, que fundou a firma de serviços financeiros e seguros Maia & Associates em 2005, diz-nos que a sua primeira reacção em Março foi pôr a equipa toda em regime de tele-trabalho.

"A única dificuldade que temos é que não podemos estar frente-a-frente com os nossos clientes", lamenta, referindo que dado o ramo em que se encontram isso criou dificuldades acrescidas devido à queda simultânea dos mercados financeiros.

"Aconteceu a queda do petróleo e dos mercados de uns 30 por cento e a dificuldade que nós tivemos foi tentar manter o contacto com os nossos clientes durante esta queda drástica", por forma a tentar guiá-los e aconselhá-los "o melhor possível durante uma crise financeira que é completamente diferente da de 2008", ressalva, destacando mais uma vez a dificuldade em manter o carácter pessoal do contacto à distância.

Ao contrário de um estabelecimento de retalho que quando encerra deixa de ter de estar em contacto com o cliente, neste ramo – e especialmente nesta situação – Pedro Maia considera que a desvantagem foi dupla pois registou-se uma emergência financeira ao mesmo tempo que foram obrigados por lei a distanciarem-se dos clientes.

Felizmente a crise dos mercados foi de pouca duração, pois as Bolsas recuperaram rapidamente e alguns clientes registaram o melhor mês de Abril desde 1987, refere, mas ainda receia que uma segunda vaga do vírus possa vir a ser pior do que a primeira.

Por esse motivo, conta reabrir os escritórios ao público na próxima terça-feira (12), mas cautelosamente e "com muitas limitações em relação às reuniões, pelo menos até 15 de Julho" para dar tempo para analisarem como está a decorrer o processo de reabertura e a ser controlado o alastramento da infecção.

Estimando a quebra do negócio entre 50 a 70 por cento na rede de padarias e pastelarias Caldense logo no início das medidas de contenção da pandemia, o proprietário Hélder Costa diz que foi uma crise que afectou tudo, "desde a produção" aos estabelecimentos.

Para cumprirem com as regras e manterem a viabilidade, foi necessário reduzirem as horas de funcionamento e para protecção dos clientes e dos funcionários foram implementadas medidas de segurança mais rigorosas.

"Mantemos as distâncias [decretadas pelo governo], lavamos as mãos mais frequentemente", e quem quer pode usar luvas e máscara, enquanto que "de meia em meia hora ou menos" são desinfectadas todas as superfícies.

Ressaltando que entretanto a situação se estabilizou perto de metade do volume normal de vendas, Hélder Costa considera que ainda não se sabe o que virá a seguir, mas conta que os efeitos se façam sentir por algum tempo.

Até porque "vai haver pessoas que não vão sair [de casa] assim tão rápido como a gente pensa", notando que há já quem atravesse para o outro passeio para não se cruzar com outras pessoas, "e ainda bem que o fazem, para ver se isto acaba", ressalva.

Contudo, considera que são sintomáticas de pessoas que talvez tenham mais reticência em voltar à normalidade.

Entretanto, e se o bacalhau é considerado "o fiel amigo", o vinho será outra presença comum e perene à mesa de muitos portugueses, havendo até muito quem goste de o produzir pessoalmente ou adquirir num estabelecimento de confiança.

Por isso mesmo o proprietário da Macedo Winery, David Macedo, relata com satisfação que as vendas aumentaram a partir de 16 de Março, quando foram decretadas as medidas de contenção da Covid-19.

"Eu acho que a preocupação das pessoas foi pensarem que nós íamos fechar", refere o empresário, que esclarece que dado os laços da empresa à LCBO e o facto desse departamento provincial ter sido declarado essencial, esses receios nunca se chegaram a materializar.

Entretanto as vendas estabilizaram e voltaram aos níveis normais, salientando que no estabelecimento da Ossington fazem entrega das encomendas recebidas online, enquanto que no da rua Dufferin, onde têm uma loja de venda ao público, a sinalização que instalaram ajuda os clientes a manterem a distância e a aguardarem que os empregados, protegidos com máscara e luvas, lhes entreguem os produtos desejados antes de esterilizarem os carrinhos para transporte da mercadoria.

Apesar de tudo, David Macedo nota que o negócio presencial continua a ser o preferido da maioria dos clientes e assim presume que irá continuar, a menos que outras regras emanem dos níveis de governo apropriados.

Entretanto apela à calma e ao cumprimento das directivas, na certeza de que também esta crise será ultrapassada.


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