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Carnaval à Moda da Terceira:

Sete danças carnavalescas actuaram no fim-de-semana em múltiplos clubes e associações

Por Noémia Gomes
Sol Português

O Carnaval ou "Entrudo" – designação mais comum entre a população antiga – ocupa um lugar central nas festividades populares da ilha Terceira onde as tradicionais danças carnavalescas têm papel preponderante.

Segundo Luís Fagundes Duarte, professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, na tradição carnavalesca terceirense uma "dança" é uma representação teatral versificada em quadras, quintilhas e sextilhas, conforme a opção do autor, e integra um corpo de dançarinos que apresentam coreografias simples e que actuam também como coro, cantando acompanhado por músicos "tocadores" de cordas e instrumentos de sopro.

O conjunto é dirigido por um mestre, ou "puxador", que dança e se dirige ao público para saudar a plateia e apresentar o assunto a ser representado, sendo que no final da actuação faz a conclusão do assunto e explica as respectivas lições morais e apresenta as despedidas à assistência e ao clube que os recebeu.

As tradições do carnaval terceirense imigraram para o Norte da América e estão bem instalados nos Estados Unidos e Canadá, especialmente em Toronto onde no fim-de-semana passado se exibiram em várias colectividades e associações comunitárias.

No domingo (3), no Centro Cultural Português de Mississauga (CCPM), a nossa reportagem assistiu à apresentação de sete danças ao longo de uma tarde que começou com um almoço convívio.

Logo de seguida, o presidente desta colectividade, Tony de Sousa, deu as boas-vindas ao público e aos grupos carnavalescos e agradeceu aos elementos da Direcção pelo apoio na organização deste evento.

Convocado ao palco, Gil Toste aproveitou para destacar a realização no dia 6 de Abril da tradicional cantoria, espectáculo que este ano será especial, segundo revelou, uma vez que serão prestadas também homenagens a dois poetas populares, grandes improvisadores das cantigas ao desafio e cujos nomes serão então revelados.

Entretanto, e com Tony de Sousa no papel de mestre-de-cerimónias, foi apresentada a primeira dança dessa tarde, o Bailinho Alta Sociedade 2019 com o enredo "Coitado daquele que morre".

Liderado por Marta Medeiros, escrito por Hélio Costa, com música de Frank Rego e Andy Melo, e cantigas do assunto de Zé Fernandes e de saudação e despedida de Álamo Oliveira, a peça ofereceu uma excelente sátira com as peripécias de uma viúva que uma semana após o falecimento do marido já está numa tourada.

Seguiu-se o bailinho da Banda Lira de Brampton que com o título "Trabalho vai-te embora", puxada por José Maria, escrito por João Mendonça e com música da Banda, narra a vida do Tobias, personagem que não quer trabalhar, procura um trabalho alusivo e entretanto anda nas tavernas a beber e a gastar o dinheiro que ainda não ganhou.

A terceira dança foi de pandeiro e veio da Irmandade do Imigrante com o assunto "A falar é que a gente se entende", tendo por mestres Ronaldo e Tyler.

Escrita por João Mendonça, com música do grupo e cantigas de José Esteves, a sátira centrou-se no físico da mulher e do homem e o que lhes acontece quando a idade chega, apresentando bonitas cantigas e coreografia.

O próximo bailinho a actuar foi o da Banda do Senhor Santo Cristo e intitulava-se "É preciso ter lata", enredo escrito por João das Calças, com música do grupo.

O assunto girou em torno de amigos que tentam sair de S. Miguel na SATA, a tempo de assistirem ao Carnaval em Toronto, mas com os voos sempre atrasados a solução é construir um barco... com resultados hilariantes.

A quinta dança apresentada foi de pandeiro, concebida pelo Grupo de Jovens das Tradições da Terceira com o assunto "O mundo tem talento", escrito por Lisa da Silva, com música de Manny Ramos, Andrew Oliveira, Paulo Pato e John Freitas, letra composta por Carla Branco e liderada pelas mestras Alexa Sarmento e Amanda Carreiro.

Uma dança bem tradicional no vestir e dançar, a divertida peça descreve um programa televisivo à procura de talentos, com cantores, dançarinos e até tourada com uma cabra, além de uma dança indiana e a cantar Amália, que não impressionam o júri.

Já na recta final, a próxima dança, de varinha, veio do Grupo de Amigos do Carnaval de Toronto, do Graciosa Community Centre, e trouxe como assunto "É só para homens", da autoria de João das Calças.

Com cantigas de Délia Machado, música do grupo e tendo por mestres Artur de Freitas, Ellah Medeiros e Nikita Sarmento, o assunto conta as peripécias de um grupo de homens a tentarem esconder-se das mulheres para visitar a Casa Lancaster e a saírem numa dança só com homens, o que obriga as mulheres a vestirem-se de homem para poderem entrar na dança, com resultados bastante cómicos.

Por fim, a sétima e última dança foi do Grupo dos Amigos Tradições Terceirenses, José Ramos, tendo por enredo "Coisas do arco-da-velha", com os puxadores Manuel Ramos, Paul Picanço e Victoria Almeida, escrito por Hélio Costa e Roberto Picanço, e música de Manuel Ramos.

Tradicionalmente bem trajado, o grupo apresentou a saga de uma senhora que tem um bode "viciado no Facebook" e cujo vizinho, a quem o cheiro do animal não agrada, decide comprar uma cabra só para lhe causar problemas, resultando num momento muito divertido que fez rir a assistência.

Segundo apurámos, este ano havia um total de 10 danças, incluindo uma do CCPM com o assunto "É ou não é legal", que não actuou nessa tarde por se ter deslocado aos Estados Unidos.

Composta por 32 elementos e puxada por duas mestras: Sabrina e Arianna Mendes, a dança teve assunto da autoria de Roger Mendes e música a cargo do grupo.

Entretanto, uma outra dança de espada de Toronto – com o drama "Só Deus sabe o nosso destino" da autoria de Marco Fernandes, música e arranjos do grupo e música de sopro de Domingos Brasil – composta por 40 elementos, deslocou-se à ilha Terceira.

Também o bailinho de Oakville, com 11 elementos, se deslocou à Terceira e à Graciosa, tendo como mestras Bernice Rocha e Kelly Homem.

A avaliar pelo número de danças que este ano se constituíram, pela aderência de público e pela participação de tanta juventude, esta tradição do Carnaval terceirense tem futuro assegurado em Toronto por muitos anos.


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