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Movimento laboral em destaque no Dia do Trabalhador

Por João Vicente
Sol Português

Diz-se que o trabalho dignifica o homem e a verdade é que pouco há que mais satisfaça uma pessoa do que sentir-se realizada dentro da sua vocação.

Mas quando o trabalho e o trabalhador são vistos apenas como um factor económico e avaliados exclusivamente pelo valor monetário que geram, essa visão redutora torna-os meros factores numa equação que rouba o trabalho do seu valor real e retira ao ser humano a dignidade que merece.

O objectivo de maximizar a produção e o lucro levou a que fossem cometidos abusos, quer na lavoura, quando era o trabalho braçal que punha comida na mesa e se esperava que os agricultores trabalhassem de sol a sol, quer nas fábricas que surgiram com a revolução industrial e onde os operários – sobretudo mulheres e crianças – eram vistos simplesmente como mão-de-obra barata.

A ilegalidade do trabalho infantil, a igualdade do valor do trabalho das mulheres, trabalhar apenas oito horas por dia, ter direito ao descanso ao fim-de-semana, férias pagas, licença de parto, são tudo conquistas do movimento laboral que se foram fazendo pouco a pouco – e muitas delas ainda bem recentes.

As origens do movimento laboral moderno remontam a uma acção que teve lugar em Maio de 1886, em Chicago, quando trabalhadores em greve que lutavam por estabelecer um máximo de oito horas de trabalho diárias se confrontaram com um grupo de fura-greves e com a polícia, daí resultando vários mortos e feridos.

Desde então que o Dia Internacional do Trabalhador é celebrado em quase tudo o mundo no 1° de Maio, embora no continente norte-americano isso aconteça na primeira segunda-feira de Setembro, exactamente para o distanciar do acontecimento que lhe deu origem.

Assim foi que na passada segunda-feira (4) desfilaram pela Queen Street de Toronto, desde a avenida University até à feira CNE, dezenas de milhares de trabalhadores, para que a luta não caia no esquecimento, para celebrar as vitórias já alcançadas e para informar e sensibilizar o público para algumas batalhas de foro laboral que ainda estão a ser travadas – a mais recente das quais envolve a pretensão do aumento do salário mínimo para 15 dólares/hora.

Ao longo do percurso milhares de pessoas assistiram ao desfile dos sindicatos que se fizeram representar e cujas áreas de actividade abrangiam profissão tão diversas como instaladores de sistemas de aspersão anti-incêndios, operários siderúrgicos, enfermeiras, professores, funcionários públicos e muitos outros.

A indústria e os ofícios relacionados com a construção civil estiveram particularmente bem representados, tendo por expoente máximo a enorme presença do sindicato Labourers' International Union of North America (LIUNA), que rivalizou em extensão e número de participantes a maior sindical do sector privado, a UNIFOR.

Dada a predominância de portugueses neste sector de actividade, as suas filiais representam milhares de trabalhadores de origem lusa e uma boa parte da própria administração é composta por luso-canadianos.

Da parte da filial Local 506 estiveram, para além de Carmen Principato, os luso-canadianos Tony do Vale e Jack Eustáquio, que integram o Executivo, enquanto à frente da Local 183 marcharam os lusos Jack Oliveira, Nelson Melo e Bernardino Ferreira, além dos colegas Marcello Di Giovanni e Jaime Cortez, e, claro, milhares de sócios e grande número de veículos que incorporaram a parada numa extensão de perto de um quilómetro só a cargo da LIUNA.

Numeroso como foi o contingente desta central sindical, o vice-presidente da LIUNA responsável pela região central e oriental do Canadá, Joseph Mancinelli, gostaria que tivesse sido ainda maior.

Como salientou em declarações ao jornal Sol Português, "marchamos não só pelos membros da LIUNA, mas por todos os trabalhadores [...] e eles devem vir apoiar e ajudar a celebrar".

Embora considere que o movimento laboral no Canadá esteja saudável e que, com respeito especificamente à LIUNA, "está forte e continua a crescer", vê sinais a sul da fronteira de que "as pessoas não estão a olhar pelos próprios interesses e, na realidade, abandonaram alguns dos princípios pelos quais lutámos durante tantos anos".

Apesar disso, soa uma nota de esperança para os nossos vizinhos americanos lembrando que o candidato à presidência, Bernie Sanders, galvanizou muita juventude durante as eleições, o que espera ainda venha a revitalizar o movimento laboral naquele país.

Jack Oliveira, o luso-canadiano que é administrador da Local 183 assim como do Conselho Distrital da LIUNA no Ontário (OPDC, na sigla em inglês) também partilha da opinião de Joseph Mancinelli de que o sindicato está saudável e a tornar-se cada vez mais forte.

Contudo, e referindo-se especificamente aqueles trabalhadores que não têm o apoio de um sindicato, considerou que os benefícios e as pensões do governo não estão a um nível que lhes possa permitir viver desses montantes quando chegarem à reforma, motivo porque "cada vez vemos mais jovens a virem ter com o sindicato", afirmou.

Outros dirigentes laborais viriam também a expressar a sua opinião com respeito ao estado actual do movimento sindical, incluindo o luso-canadiano Tony do Vale, tesoureiro da Local 506, que considerou ser "bom lembrar quem é que constrói este país", gesticulando em redor para referir todos os prédios ali à volta, edificados pelos trabalhadores da construção civil a quem a cidade "deve agradecer" por construírem Toronto.

O mesmo sentimento exprimiu o administrador desta filial da LIUNA, Carmen Principato, que enfatizou que foi este sindicato que "construiu o Canadá" e para quem "ver as Locais 183 e 506 aqui, as duas juntas, deixa-me feliz".

Ainda a representar a comunidade portuguesa, destaque para a actuação de duas filarmónicas luso-canadianas, designadamente a Banda Lira de Nossa Senhora de Fátima, da paróquia de Sta. Inês, que desfilou à frente da Local 506, e a Banda do Sagrado Coração de Jesus, de Santa Helena, que fechou o cortejo da Local 183.

Entretanto, inúmeros outros portugueses desfilaram nas fileiras dos vários outros sindicatos, como foi o caso de António Neiva, que marchou orgulhosamente com o District Council 46, que representa os pintores e ofícios relacionados.

Também a nível de políticos, e entre tanta gente, vimos a vereadora luso-canadiana Ana Bailão, que acompanhou o desfile a par de muitos outros colegas, de todas as esferas governamentais e candidatos de diferentes orientações políticas.

Estes incluíram o ministro da Imigração, Ahmed Hussen, a líder do partido NDP do Ontário, Andrea Horwath, e o deputado provincial Peter Tabuns, assim como o ex-vereador Doug Ford, que se prepara para concorrer contra o presidente da Câmara de Toronto, John Tory.

Ao longo do percurso muitos milhares de pessoas assistiram ao desfile dos sindicalistas, que decorreu em tom de festa e onde, a par das reivindicações e slogans políticos, a frase que se ouviu quase continuamente, tanto dos participantes como do público, foi a expressão de votos de um "Feliz Dia do Trabalhador!"

Tal como muitos, Warren Muster, que assistia com a esposa e filho, indicou à nossa reportagem que foi a primeira vez que a família se deslocou a ver este desfile e que o fizeram motivados simplesmente pela curiosidade.

Diz-nos que gostaria que o seu trabalho fosse sindicalizado e acha que faz falta informar e educar as pessoas acerca do que são os sindicatos e o que fazem no dia-a-dia pois "o custo de vida é muito superior aos salários e quando se tem crianças [a situação] ainda fica pior".

Considera que "há lugar para melhorar bastante os salários" e um dos problemas actuais, segundo ele, é o facto de existirem tantas distracções que as pessoas têm de escolher encarar estes assuntos de forma consciente, caso contrário chegam a passar despercebidos "até a situação ser tão grave que a pessoa não tem outra alternativa".

Citou como exemplo todos aqueles que trabalham em restaurantes de "fast food" e que encaram os salários baixos que se praticam como sendo uma situação normal quando, se olharem à sua volta ou se informarem de como são as coisas noutros países, logo se apercebem de que realmente não tem de ser assim e "há alternativas viáveis".


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