1ª PÁGINA


Festas da Senhora da Luz em Toronto:

Tradição graciosense leva milhares de devotos à Igreja de São Mateus

Por João Vicente
Sol Português

Faz agora 24 anos desde que em Toronto se começaram a celebrar as festividades religiosas em honra de Nossa Senhora da Luz, um evento que este Verão decorreu de 31 de Agosto a 3 de Setembro e que mais uma vez atraiu dezenas de milhares de devotos à Igreja de São Mateus.

Como nos conta o presidente da Comissão de Festas da paróquia, José Bettencourt, foi em família que se tomou essa decisão, corria o ano de 1994.

"Foi em Janeiro, estávamos a rezar um terço em família, na casa da minha tia, e o meu cunhado, que tinha uma imagem de Nossa Senhora da Luz, disse por brincadeira: `a gente devia fazer a festa de Nossa Senhora da Luz'; e nesse dia, após rezarmos o terço, viemos falar aqui com o padre da paróquia", que autorizou a sua realização.

E o resto, como se costuma dizer, é história. Uma história que retrata uma tradição cuja origem remonta ao período entre 1534 e 1589, quando foi construída a primeira ermida dedicada a este culto na freguesia açoriana da Luz, concelho de Santa Cruz, ilha Graciosa.

Dada a sismicidade violenta que afecta aquela parte da ilha, a ermida à santa padroeira foi reparada e reconstruída várias vezes, passando a igreja em 1738 e desde então também já múltiplas vezes reparada pelo mesmo motivo, a última das quais em 1980.

Considerada a padroeira dos graciosenses da freguesia da Luz, em Toronto "começámos com seis pessoas: cinco Josés e um Leonardo", como nos diz José Bettencourt com um sorriso que dá a perceber que esta piada já tem barbas brancas, mas continua a ser uma favorita.

Vem gente até dos Estados Unidos e de Quebeque para celebrar esta invocação de Nossa Senhora, que José Bettencourt reconhece com afeição como "a nossa Mãe do Céu".

"Esta é uma tradição graciosense mas agora é uma festa de todos os portugueses", continua, para enfatizar que "continuamos a manter a nossa tradição, mas a festa é de todos".

E assim é pois embora a maioria dos milhares de pessoas que participam dos rituais religiosos e das festas profanas sejam de origem açoriana, há muita gente também de outras regiões a tomar parte e a incorporar esta tradição como sua.

Ainda assim, José Bettencourt considera que a multidão tem vindo a minguar um bocadinho, o que atribui ao facto de não haver juventude suficiente para substituir os idosos que vão falecendo.

Apesar disso, contava com cerca de 20 mil pessoas para o fim-de-semana e o tamanho da multidão e o vai-e-vem contínuo de gente que passou pela igreja, pelas procissões e pela festa leva a crer que esse número são terá sido muito exagerado.

Este ano, porém, não se fez o bodo de leite – que pertencia ser feito na segunda feira – o que levou ao descontentamento de alguns e talvez também tenha afectado um pouco o número total de pessoas que passaram por São Mateus, em relação a edições anteriores.

Do tríduo preparatório ao arraial final

Tudo começou na quinta (31) e sexta-feira (1), quando teve lugar o tríduo preparatório, seguido de um alegre e animado arraial.

Embora o padre Heitor Antunes, da Paróquia de Santa Maria, em Hamilton, estivesse previsto presidir às cerimónias, encontrava-se na altura em Portugal e deparou-se com alguns imprevistos que atrasaram a sua chegada até sábado (2), altura em que tomou então parte na significativa procissão da recolha das imagens e missa de vigília que se lhe seguiu.

Nessa cerimónia participou também o padre Jose Callejas, da paróquia de Nossa Senhora de Todos os Santos, também de Hamilton, assim como o anfitrião das festividades da Senhora da Luz, Andrzej Grecki, pároco de São Mateus.

Tratou-se de uma procissão que replicou a que ocorre na Graciosa, como nos explicaram duas senhoras que transportavam o andor de Santo Expedito.

Guilhermina Bettencourt, que já participa desta tradição desde que ela foi implantada no Canadá – tendo até feito parte da comissão organizadora da festa – conta-nos que na ilha há quatro caminhos e que os andores dos santos são colocados em cada um deles, onde depois a imagem de Nossa Senhora passa para buscá-los.

Participar desta celebração causa-lhe uma "grande emoção" pois, como nos revela, desde que chegou ao Canadá, em 1980, nunca mais conseguiu participar da festa na ilha e assim sente-se "um bocadinho mais perto" das suas origens.

Do outro lado do andor, também Maria da Luz nos diz que sempre gostou desta festa, sendo ela própria natural da freguesia da Luz, da qual tem o nome.

Para além de Santo Expedito, a procissão viria a recolher também as imagens de Santo António, São José, Nossa Sra. de Fátima e do Menino Jesus de Praga, após o que se deu início à missa no interior da igreja enquanto no exterior tocava a Banda Filarmónica do Senhor Santo Cristo, sob a batuta do maestro Adriano Silva, e que mais tarde viria a inaugurar o arraial com um concerto.

O espectáculo da noite de sábado contou ainda com as actuações da Karma Banda e dos artistas Victor Martins, Ricardo Cidade e Fernando Correia Marques, que puseram o público a dançar, a bater palmas e a cantarolar até cerca da meia-noite.

Entretanto, houve ainda oportunidade para celebrar a vitória da equipa de futebol da paróquia, que havia participado num torneio amigável em que derrotou na final uma equipa vinda dos Estados Unidos.

Em palco estiveram o capitão da equipa vencedora, Eric Melo, o treinador Fernando Rui e o capitão da equipa visitante, Raul dos Santos, assim, como o presidente da equipa, João Silva, que reiteraram o carácter amistoso da partida que se destinou à angariação de fundos para a luta contra a doença de Alzheimer.

As principais actividades religiosas tiveram lugar no dia seguinte, domingo (3), a começar pela missa solene, que foi rezada pelo padre Heitor Antunes, juntamente com o pároco de São Mateus, e que precedeu a famosa procissão.

Além dos devotos, dos citados párocos e do vigário de São Mateus, Adam Laskarzewski, tomaram ainda parte na procissão sacerdotes doutras paróquias, designadamente os padres Jan Gogolewski (paróquia dos Anjos da Guarda, de Brampton), Andrzej Glaba (Todos os Santos, Toronto), Andrzej Chilmon (Nossa Senhora de Fátima, Brampton), Manuel Quintal (Santa Cruz, Toronto), Mebounou (Herve) Gbedey (Santa Inês, Toronto) e Jorge Figura, que é missionário do Verbo Divino na Nicarágua e veio ajudar em São Mateus durante Agosto.

Aos andores que participaram na procissão do dia anterior juntaram-se também o do padroeiro da paróquia, São Mateus, e o do Sagrado Coração de Jesus e, tal como na véspera, coube a Glória da Cunha carregar o estandarte da Senhora da Luz, algo que tem vindo a fazer de há 11 anos para cá e que, como nos diz, lhe dá "grande alegria".

Milhares de pessoas participaram e assistiram ao longo do percurso que serpenteou pelas ruas circundantes da igreja enquanto as bandas Lira Portuguesa de Brampton, Lira de Nossa Senhora de Fátima e Lira do Sagrado Coração de Jesus iam alternando no acompanhamento musical do cortejo.

Sobre a popularidade desta invocação de Nossa Senhora, o padre Andrzej Grecki explicou-a como uma forma de reconhecer o papel de Maria na igreja católica.

"Ela é a redentora do mundo que trouxe no seu ventre Jesus, é a Senhora da Luz porque trouxe a luz do mundo a todos nós", referiu o sacerdote em declarações ao jornal Sol Português.

No final, o padre Heitor Antunes procedeu à bênção do Santíssimo Sacramento e dirigiu a homilia que deu por concluídas as principais actividades religiosas.

As festas, porém, não terminavam por ali uma vez que nessa noite haveria também arraial, um animado espectáculo com actuação de Tânia Barbosa, Inês Henriques, Diogo Anselmo e Mário Marinho e que, tal como na véspera, teve apresentação do radialista António César, da emissora CHIN, e som a cargo da 5 Star Productions.

Segundo o pároco Andrzej Grecki, para o ano contam celebrar ainda com mais solenidade aquele que será o 25.º aniversário da observação em Toronto deste culto originário da ilha Graciosa e que é já uma das mais importantes actividades religiosas na cidade.


Voltar a Sol Português