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Em entrevista:

Deputada Julie Dzerowicz destaca novos apoios governamentais

"O governo federal apresentou um orçamento direccionado para as pessoas e para as famílias, onde constam apoios adicionais, tanto para a população, como para a economia", diz a representante de Davenport em Otava, que revela detalhes das novas iniciativas

Por Rómulo Ávila

Sol Português

Em entrevista ao jornal Sol Português, a deputada federal Julie Dzerowicz, que representa o circulo eleitoral de Davenport – distrito onde reside a maior percentagem de eleitores portugueses e luso-descendentes no Canadá – abordou vários assuntos relacionados com os novos projectos do governo, introduzidos durante a chamada "Declaração de Outono relativa ao estado da Economia", ou "Fall Economic Statement".

Entre os tópicos discutidos nesta entrevista inclui-se, para além da criação pelo governo de um plano nacional de assistência dentária e de outros apoios sociais, um projecto da sua autoria que visa estabelecer um rendimento básico garantido para os cidadãos.

Jornal Sol Português: A deputada é conhecida pela sua consciência social. Como é que o "Fall Economic Statement" deste ano pretende ajudar os canadianos? A nível da saúde, a iniciativa Dental Care assume um papel importante, mas os apoios às famílias e às empresas não se ficam por aqui. Pode concretizar?

Deputada Julie Dzerowicz: Antes de mais, obrigada pela oportunidade. Um prazer receber aqui um jornalista deste jornal que prestigia a língua e a cultura portuguesa. É uma excelente pergunta. O governo federal lançou um orçamento virado para as pessoas e para as famílias, onde constam apoios adicionais, tanto para os canadianos, como para a economia.

O custo de vida, é um facto, aumentou e essa decisão teve por base a nossa intenção de apoiar as famílias. Onze milhões de canadianos viram o seu crédito GST duplicar, significando com isso que os idosos vão receber mais 225 dólares por ano, enquanto que uma pessoa solteira terá mais 267 dólares. Registo ainda que uma família de quatro pessoas vai receber mais 500 dólares de apoio.

A par de tudo isto, colocou-se à disposição das pessoas um benefício de assistência odontológica, sendo que esse apoio se aplica às famílias que ganham até 90.000 dólares por ano e referente às crianças com menos de 12 anos de idade. Este ano, 2022, será de 650 dólares por cada criança.

E porque sabemos que os idosos também necessitam, posso dizer que já em 2023 vamos oferecer um apoio para a saúde dentária para esta faixa etária e estamos a estudar todas as hipóteses para os ajudar.

Há também alunos que vão agora entrar na Universidade e outros a sair com a sua formação e foi a pensar neles que o governo federal já assumiu que os estudantes universitários que ganhem menos de 40.000 dólares/ano não precisam de pagar as prestações dos seus empréstimos estudantis – e registo ainda que o governo federal não receberá juros sobre esses empréstimos. Se, por exemplo, um estudante pedir um empréstimo de 5.000 dólares, só pagará esse valor.

No que toca às políticas sociais, não nos esquecemos das crianças. Elas vão para a creche e a partir de Dezembro haverá uma redução de 50% no custo dessa mensalidade. Se virmos bem, para uma criança que antes custava 1.200 dólares por mês, agora só é preciso pagar 600. Assim, as famílias são ajudadas face ao elevado custo de vida.

As empresas também contam com apoios do Governo. Como sabemos, há taxas cobradas às empresas pelas companhias que administram os cartões de crédito e estamos a reduzir o valor dessas taxas para que, a começar no Natal, todos possam usar os seus cartões de crédito sabendo que também aqui as famílias ficam com mais dinheiro para si.

Não nos esquecemos do meio-ambiente e o governo federal está a tentar criar uma energia "limpa", tecnologias "limpas" ou "verdes". Todos sabem, por exemplo, que os Estados Unidos dão muitos incentivos, tais como créditos fiscais para essa área, e aqui faremos o mesmo, porque queremos ser competitivos e queremos preparar o Canadá para fazer face às alterações climáticas.

SP: Sabemos que apresentou um projecto-de-lei da sua autoria na Câmara dos Comuns que estabelece um rendimento básico garantido para os cidadãos que estejam a passar por dificuldades económicas. Em que consiste?

JD: Outra excelente pergunta. Realmente, há mais de um ano, apresentei na Câmara dos Comuns um projecto de renda/salário básico para todos. Antes de explicar o que é, deixe-me dizer-lhe que quando esse projecto-de-lei foi apresentado houve uma eleição e eu tive de começar tudo de novo – ou seja, voltar à estaca zero. Mas nunca desisti da minha ideia, que é a de que todos os canadianos tenham um rendimento básico garantido. E explico:

O Canadá tem um sistema de assistência social, uma vez que, por exemplo, quem não tem emprego, recebe subsídio de desemprego; quem tem uma deficiência, recebe o benefício de invalidez; quem tem filhos, recebe um subsídio para as crianças.

Eu sou a favor de fazer as coisas de uma forma diferente no nosso sistema de apoio social, sendo que, na minha visão, todos os canadianos, sem excepção, receberiam uma determinada quantia todos os meses. Um valor fixo.

Claro que esse dinheiro nunca seria suficiente para cobrir todas as despesas, mas seria um rendimento básico para todos os canadianos. Assim, todos saberiam o que tinham e com o que contavam para, no essencial da vida, terem um apoio financeiro.

Até porque, deixe-me dizer-lhe, o mercado laboral mudou muito. Antigamente os empregos eram para toda a vida – ficava-se nas mesmas empresas muitas vezes até se passar à reforma. Mas agora o mundo empresarial e dos empregos mudou, há grandes mudanças e não há empregos vitalícios.

Eu quero que todos tenham o essencial para viver e que vivam com alguma qualidade de vida e com algum bem-estar social. Então, esta é a minha ideia e vou voltar a apresentá-la na Câmara dos Comuns. Não vou desistir.

SP: Agora falando em termos mais gerais, qual a ideia que tem da comunidade portuguesa?

JD: Eu adoro a comunidade portuguesa e nunca tenho medo de o dizer. Tenho orgulho nesta comunidade. Os portugueses são trabalhadores e preocupam-se muito com as suas famílias.

Dá gosto ver que as terceira e quarta gerações são agora também gestores e líderes empresariais. São jogadores de hóquei, por exemplo, e como sabe há uma portuguesa que dirige o Festival Internacional de Cinema de Toronto.

Os portugueses são agora verdadeiros líderes na nossa comunidade e o meu orgulho é grande por isso. A comunidade portuguesa tem, ao longo do tempo, dado imensos contributos para o sucesso do Canadá e é por isso que o seu trabalho e os seus sucessos são por todos reconhecidos. Por exemplo, este jornal que mantém a língua portuguesa bem viva junto de nós, e nunca se esquece das tradições e da vida cultural.

Destaco que em Junho celebramos no Canadá, durante um mês inteiro, o mês da Cultura Portuguesa. Também sei que em Portugal há três Santos Populares que se celebram em Junho.

Cá, fruto desta motivação portuguesa, celebramos a 10 de Junho o Dia de Portugal no Canadá. Celebramos com uma grande parada, mas nesse dia, pensamos sobretudo nas conquistas feitas pelos portugueses neste país.

SP: Sobre Portugal, o que conhece e o que gostaria de referir?

JD: Já conheço algumas partes de Portugal, mas quero conhecer mais. Foi das viagens que mais gostei na minha vida. Só visitei ainda 21 sítios nesse lindo país e apenas duas ilhas (Terceira e São Miguel), mas pretendo, já no próximo mês de Agosto ou Setembro, visitar e conhecer mais de Portugal.

E gostaria de dizer que, quer Lisboa, quer o Porto, são duas cidades muito modernas, muito organizadas e muito cosmopolitas.


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